31.7.05
Fui visitar outro dia minha querida amiga Alessandra Archer, para finalmente conhecer seu filho Pedro. Foi muito bom revê-la, e botamos nosso papo em dia. Pedro é gente boa demais, muito simpático.
Nada como estar com os amigos: é o que tempera a vida.
Nada como estar com os amigos: é o que tempera a vida.
De volta de NY a trabalho, semana passada. A capital do planeta estava envolta num calor insuportável, mas seu charme é imune a qualquer clima. No meio de lançamentos de bits e bytes, uma parada no Blue Note para curtir um show do pianista de jazz Ahmad Jamal, inacreditável em termos de quantidade de convenções musicais numa mesma peça. O baterista Chris Mohammed fez um solo memorável, extremamente melódico, atento à afinação de cada tambor. Orgasmático.
Nos momentos de folga, me demorei no Central Park, livrarias, Trump Tower, Disney store, fui até Times Square (de novo -- em 2000 estive lá, vi "Chicago" na Broadway antes de o filme ser feito e subi o Empire State) e depois descansei num Starbucks.
O bar do hotel onde estava -- o W New York, na avenida Lexington com a rua 49 -- era excelente e ficava animado todas as noites. Projetava vídeos com efeitos relaxantes nas paredes, como o de uma cortina de água. Os jornalistas se reuniam ali no fim de noite para uns drinques antes de apagar de cansaço na cama. Meu eleito foi o mojito: bacardi limón, gelo, limão e menta.
Nos momentos de folga, me demorei no Central Park, livrarias, Trump Tower, Disney store, fui até Times Square (de novo -- em 2000 estive lá, vi "Chicago" na Broadway antes de o filme ser feito e subi o Empire State) e depois descansei num Starbucks.
O bar do hotel onde estava -- o W New York, na avenida Lexington com a rua 49 -- era excelente e ficava animado todas as noites. Projetava vídeos com efeitos relaxantes nas paredes, como o de uma cortina de água. Os jornalistas se reuniam ali no fim de noite para uns drinques antes de apagar de cansaço na cama. Meu eleito foi o mojito: bacardi limón, gelo, limão e menta.
18.7.05
Wal e eu tivemos um fim de semana de folga após as confusões da mudança (me mudei para mais perto da escola de minhas filhas, no fim de maio): Jessica passou uns dias em São Paulo, num mega-evento de animes, e Rebeca foi curtir as férias com as primas. Aproveitamos o tempo perfeito de sábado e domingo para passear sem destino por Icaraí e depois tomar um vinho. Lembrei-me dos tempos de namoro, em que, juntos, só curtíamos os prazeres, antes de partir para o desafio real da convivência, que é o casamento.
Namorar é uma delícia. Só o uso dessa palavra me faz um velho nesse mundo de multibeijos na boca na mesma noite e "ficantes". Bom, eu também já fiquei algumas vezes, e reconheço que é bom, mas namorar é muito melhor.
Namorar é uma delícia. Só o uso dessa palavra me faz um velho nesse mundo de multibeijos na boca na mesma noite e "ficantes". Bom, eu também já fiquei algumas vezes, e reconheço que é bom, mas namorar é muito melhor.
4.7.05
Gripadão, no sábado, aproveitei que tinha que ficar em casa mesmo para assistir aos shows do Live 8 transmitidos ao vivo pela MTV. Foi muito legal ver a formação original do Pink Floyd reunida, e a paixão do velho (e bote velho nisso) Roger Waters ao cantar as músicas mesmo fora do microfone. Outros shows muito bons foram os de Paul McCartney, Elton John, Annie Lennox, Green Day (em Berlim) e Madonna. Não vi o The Who, só um flashzinho, mas pareceu legal também.
26.6.05

Meu primeiro teste com o serviço de imagens do Blogger, aproveitando um ensaio de 1983 com milha velha banda, o Estrada Fróes, no Teatro do Instituto Gay-Lussac, em Niterói.
O ensaio foi em junho daquele ano e nos preparava para um show no teatro da UFF, que ocorreu no dia 7 de julho seguinte e foi um marco na história da banda. Esta durou mais ou menos até 1992, com várias formações.
Hoje mal tenho tempo de pegar meu violão e sinto muita falta de empunhar uma guitarra e mandar ver.
Para mim, não há nada como um bom show de rock, estando você no palco ou na platéia. Mas no palco a sensação é indescritível.
É como diz o The Who: long live rock, be it dead or alive ;-)
Oh yeah.
22.6.05
Quando a alma está inquieta
não há paisagem que a apazigue:
adeus, montanhas cobertas de verde
adeus, pinheirais de cheiro impoluto
vocês não podem curar
uma criatura torturada
pelas próprias sinapses.
Talvez o mar:
sim, pois o mar encerra em si a beleza e a morte
e é como o fantasma mutável
que vive no sótão de nossos órgãos.
não há paisagem que a apazigue:
adeus, montanhas cobertas de verde
adeus, pinheirais de cheiro impoluto
vocês não podem curar
uma criatura torturada
pelas próprias sinapses.
Talvez o mar:
sim, pois o mar encerra em si a beleza e a morte
e é como o fantasma mutável
que vive no sótão de nossos órgãos.
14.6.05

Filosofando no chope, já com saudade da bela morena que acabara de sair da mesa... Só mesmo Nelson Vasconcelos para conseguir fazer a foto do meu real estado de espírito.
9.6.05
Boa notícia: ganhei, junto com Elis Monteiro, o prêmio interno do Globo de melhor matéria do mês nos suplementos do jornal com a reportagem "Muito mais que dez anos", publicada em maio, sobre os primórdios da internet brasileira.
Yesssss!
Yesssss!
7.6.05
O beijo que não houve
Foram poucos minutos
mas nós jogamos o jogo
-- você não parou de sorrir;
eu olhava para baixo
e dizia qualquer coisa
E Eros brincava, invisível,
entre nós.
Teria sido perfeito
o beijo que, no fundo,
queríamos roubar ali mesmo
na calçada
no meio da tarde
num tesão súbito de outono.
Mas o Momento se impacientou
e apertou o passo.
Você foi para o litoral
e eu, para o deserto.
O beijo, no entanto,
permanece suspenso no ar
se queixando do desperdício.
Foram poucos minutos
mas nós jogamos o jogo
-- você não parou de sorrir;
eu olhava para baixo
e dizia qualquer coisa
E Eros brincava, invisível,
entre nós.
Teria sido perfeito
o beijo que, no fundo,
queríamos roubar ali mesmo
na calçada
no meio da tarde
num tesão súbito de outono.
Mas o Momento se impacientou
e apertou o passo.
Você foi para o litoral
e eu, para o deserto.
O beijo, no entanto,
permanece suspenso no ar
se queixando do desperdício.
29.5.05
Sou poeta
e onde tu vês chuva e vento
eu vejo a fúria das esferas e cristais derretidos
Torneio palavras
e onde tu lês o fato
eu percebo a conjuração de almas impenitentes
Escolho a pena
e onde tocas a textura da tinta
eu sinto o cheiro de sangue.
Eu não tenho profissão
Eu não tenho planos
Eu não tenho a porra da sinergia
com o universo mesquinho
dos escravos engravatados
da mais-valia globalizada.
Eu sou só poeta
e o poeta, se for um navio, será sempre o Titanic
se for uma ilha, será sempre Krakatoa ou Santorini
se for um dirigível, será sempre o Hindenburg
se for uma civilização será sempre inca, maia, asteca ou sioux.
Eu sou poeta
e morro um pouco a cada verso.
Mas é isso o que ilumina o instante.
e onde tu vês chuva e vento
eu vejo a fúria das esferas e cristais derretidos
Torneio palavras
e onde tu lês o fato
eu percebo a conjuração de almas impenitentes
Escolho a pena
e onde tocas a textura da tinta
eu sinto o cheiro de sangue.
Eu não tenho profissão
Eu não tenho planos
Eu não tenho a porra da sinergia
com o universo mesquinho
dos escravos engravatados
da mais-valia globalizada.
Eu sou só poeta
e o poeta, se for um navio, será sempre o Titanic
se for uma ilha, será sempre Krakatoa ou Santorini
se for um dirigível, será sempre o Hindenburg
se for uma civilização será sempre inca, maia, asteca ou sioux.
Eu sou poeta
e morro um pouco a cada verso.
Mas é isso o que ilumina o instante.
18.5.05
Um de meus filmes favoritos é o musical "My fair lady", baseado em "Pigmalião", de Bernard Shaw. E o pai fanfarrão da personagem de Audrey Hepburn, Alfred Doolittle, canta algumas das mais divertidas músicas. Como "With a little bit of luck". Aqui, alguns trechos...
The Lord above gave man an arm of iron
So he could do his job and never shirk.
The Lord gave man an arm of iron, but
With a little bit o' luck,
With a little bit o' luck,
Someone else'll do the blinkin' work!
The Lord above made liquor for temptation,
To see if man could turn away from sin.
The Lord above made liquor for temptation, but
With a little bit o' luck,
With a little bit o' luck,
When temptation comes you'll give right in!
The Lord above gave man an arm of iron
So he could do his job and never shirk.
The Lord gave man an arm of iron, but
With a little bit o' luck,
With a little bit o' luck,
Someone else'll do the blinkin' work!
The Lord above made liquor for temptation,
To see if man could turn away from sin.
The Lord above made liquor for temptation, but
With a little bit o' luck,
With a little bit o' luck,
When temptation comes you'll give right in!
17.5.05

Elis Monteiro, eu e, no fundo, a doce Mariana Ceratti num recente evento de telecom. Dia de trabalho, mas também do prazer de reencontrar os coleguinhas.
24.4.05
19.4.05
13.4.05

O tempo magnífico da baía de San Francisco (com um frio de 10 graus) durante o evento Color Sense, da Xerox. E uma turma de coleguinhas internacionais: Emil (Polônia), María (Argentina), eu e Dan (Romênia). Ao fundo, a outrora temível ilha-presídio de Alcatraz.

Parte da turma latino-americana no mesmo evento: María, eu, Carlos (Argentina) e Letizia (México). Tomamos um longo café no Starbucks e falamos sobre tudo: literatura, política, jornalismo e, é claro, tecnologia.

Outra viagem. Com coleguinhas muito legais: as duas Carolinas (Oliveira, do Jornal de Brasília, e Quintella, do JB Online) numa pausa num evento da EMC em Campos do Jordão.

A turma toda reunida para um "chops" no centro de Campos do Jordão. Esta turma foi uma das mais animadas com que já viajei.
5.4.05
De volta, pessoal, depois de uma semana no friozinho da costa oeste dos EUA, em San Francisco e Portland, a trabalho. Visitei um dos templos do saber techie, o Parc (Palo Alto Research Center), que muito contribuiu para nosso dia-a-dia de bits e bytes atual. Contarei tudo no Info Etc de segunda-feira. Aguardem.
23.3.05
É isso aí, moçada.
"AUMENTO ZERO NÃO
Jornalistas lotam o Sindicato e decidem lutar contra tese xiita
Um evento como há muito não se via no Rio de Janeiro. Auditório lotado, os jornalistas profissionais deram um show de solidariedade e mobilização na assembléia da noite de ontem. Por praticamente unanimidade, foram rejeitadas as propostas patronais de rádio e TV e jornais e revistas de aumento real zero em 2005. A tentativa dos patrões de dividir os jornalistas, propondo abonos diferenciados, foi reprovada. A assembléia autorizou o Sindicato a fechar um acordo somente se os patrões deixarem o radicalismo de lado e entenderem que temos direito a aumento real para compensar um sacrifício que dura quatro anos, com reajustes inferiores à inflação.
A assembléia autorizou o Sindicato carioca a iniciar um movimento com o Sindicato de São Paulo para alertar a opinião pública a respeito do desinvestimento nas redações e na qualidade do jornalismo. Em São Paulo, os jornalistas de jornais e revistas conseguiram um aumento real além dos abonos, mas o acordo com rádio e TV não foi fechado, apesar de a data-base ser em dezembro, porque lá também eles insistem no mesmo radicalismo: zero de aumento real. No caso do Rio o radicalismo é ainda mais incompreensível porque os veículos tiveram um desempenho em 2004 superior à média nacional. Em um ano o aumento do faturamento bruto com publicidade foi de 33,15% nas TVs, 20,61% nos jornais e 37,91% nas rádios.
Os patrões insistem no princípio xiita do aumento zero em vez de se abrirem ao diálogo (como sempre fizemos) e aproveitarem o momento favorável da economia para começar a pagar sua dívida conosco. Por aceitarmos reajustes inferiores à inflação nós acumulamos, em quatro anos, perdas que somam 11,99% na mídia impressa e 14,5% nas emissoras. Sem contar a inflação de 5,8% do último ano. A assembléia considerou a proposta de aumento real zero um radicalismo sem sentido e rejeitou um acordo só com esmolas, ou melhor, abonos. Por mais interessante que pareça em um primeiro momento, todos sabemos que abono vira pó rapidamente. Precisamos começar a repor as perdas que aceitamos em nome de uma recessão que não existe mais.
O momento é de mobilização e o sucesso do nosso movimento depende de você. A assembléia de ontem mostrou que os jornalistas querem lutar por qualidade de vida. Se você acha que chegou a hora de parar de perder salário, aceite o desafio de convencer seu colega, seu chefe, seu editor e a direção de sua empresa de que nossa reivindicação é simplesmente justa. Os representantes patronais têm argumentado que o momento brasileiro é bom, o desempenho do setor foi sensacional, mas não podem dar aumento porque não sabem como será o futuro. Mas não é assim mesmo que as coisas funcionam? Por acaso só teremos direito a aumento quando eles tiverem uma lâmpada de Aladim ou uma bola de cristal para adivinhar um futuro eternamente grandioso?
É importante você saber que não estamos falando de futuro, mas de um ano de grande desempenho positivo das empresas, de fevereiro de 2004 a janeiro de 2005. E de quatro anos de perdas passadas. Quando aceitamos as perdas, não usamos o argumento ridículo de que o futuro seria melhor. Se a economia brasileira piorar no futuro, saberemos, como sempre, agir com flexibilidade e dividir o prejuízo. Mas agora temos direito à divisão de um bolo que cresceu muito. A maioria das categorias profissionais no Brasil tem conseguido aumentos reais em função disso. Não há motivo para discriminação contra os jornalistas. Não somos categoria de segunda.
Mobilize sua redação, chame o colega para a discussão, fortaleça sua categoria e prestigie seu sindicato. Faça reuniões, debata, pressione. Use os adesivos que vamos distribuir contra o radicalismo do aumento real zero. Prepare-se para a próxima assembléia, que vamos convocar provavelmente na próxima semana. Vamos dizer que os jornalistas do Rio decidiram não trocar seus direitos e sua dignidade por abonos passageiros. E que não concordamos com um radicalismo absurdo que prega o aumento zero em tempo de vacas magras ou gordas. Não ao aumento zero!
Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro"
"AUMENTO ZERO NÃO
Jornalistas lotam o Sindicato e decidem lutar contra tese xiita
Um evento como há muito não se via no Rio de Janeiro. Auditório lotado, os jornalistas profissionais deram um show de solidariedade e mobilização na assembléia da noite de ontem. Por praticamente unanimidade, foram rejeitadas as propostas patronais de rádio e TV e jornais e revistas de aumento real zero em 2005. A tentativa dos patrões de dividir os jornalistas, propondo abonos diferenciados, foi reprovada. A assembléia autorizou o Sindicato a fechar um acordo somente se os patrões deixarem o radicalismo de lado e entenderem que temos direito a aumento real para compensar um sacrifício que dura quatro anos, com reajustes inferiores à inflação.
A assembléia autorizou o Sindicato carioca a iniciar um movimento com o Sindicato de São Paulo para alertar a opinião pública a respeito do desinvestimento nas redações e na qualidade do jornalismo. Em São Paulo, os jornalistas de jornais e revistas conseguiram um aumento real além dos abonos, mas o acordo com rádio e TV não foi fechado, apesar de a data-base ser em dezembro, porque lá também eles insistem no mesmo radicalismo: zero de aumento real. No caso do Rio o radicalismo é ainda mais incompreensível porque os veículos tiveram um desempenho em 2004 superior à média nacional. Em um ano o aumento do faturamento bruto com publicidade foi de 33,15% nas TVs, 20,61% nos jornais e 37,91% nas rádios.
Os patrões insistem no princípio xiita do aumento zero em vez de se abrirem ao diálogo (como sempre fizemos) e aproveitarem o momento favorável da economia para começar a pagar sua dívida conosco. Por aceitarmos reajustes inferiores à inflação nós acumulamos, em quatro anos, perdas que somam 11,99% na mídia impressa e 14,5% nas emissoras. Sem contar a inflação de 5,8% do último ano. A assembléia considerou a proposta de aumento real zero um radicalismo sem sentido e rejeitou um acordo só com esmolas, ou melhor, abonos. Por mais interessante que pareça em um primeiro momento, todos sabemos que abono vira pó rapidamente. Precisamos começar a repor as perdas que aceitamos em nome de uma recessão que não existe mais.
O momento é de mobilização e o sucesso do nosso movimento depende de você. A assembléia de ontem mostrou que os jornalistas querem lutar por qualidade de vida. Se você acha que chegou a hora de parar de perder salário, aceite o desafio de convencer seu colega, seu chefe, seu editor e a direção de sua empresa de que nossa reivindicação é simplesmente justa. Os representantes patronais têm argumentado que o momento brasileiro é bom, o desempenho do setor foi sensacional, mas não podem dar aumento porque não sabem como será o futuro. Mas não é assim mesmo que as coisas funcionam? Por acaso só teremos direito a aumento quando eles tiverem uma lâmpada de Aladim ou uma bola de cristal para adivinhar um futuro eternamente grandioso?
É importante você saber que não estamos falando de futuro, mas de um ano de grande desempenho positivo das empresas, de fevereiro de 2004 a janeiro de 2005. E de quatro anos de perdas passadas. Quando aceitamos as perdas, não usamos o argumento ridículo de que o futuro seria melhor. Se a economia brasileira piorar no futuro, saberemos, como sempre, agir com flexibilidade e dividir o prejuízo. Mas agora temos direito à divisão de um bolo que cresceu muito. A maioria das categorias profissionais no Brasil tem conseguido aumentos reais em função disso. Não há motivo para discriminação contra os jornalistas. Não somos categoria de segunda.
Mobilize sua redação, chame o colega para a discussão, fortaleça sua categoria e prestigie seu sindicato. Faça reuniões, debata, pressione. Use os adesivos que vamos distribuir contra o radicalismo do aumento real zero. Prepare-se para a próxima assembléia, que vamos convocar provavelmente na próxima semana. Vamos dizer que os jornalistas do Rio decidiram não trocar seus direitos e sua dignidade por abonos passageiros. E que não concordamos com um radicalismo absurdo que prega o aumento zero em tempo de vacas magras ou gordas. Não ao aumento zero!
Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro"
22.3.05
Fui ao show do Lenny Kravitz ontem. O cara é muito bom, mas sua banda é simplesmente inacreditável. A baterista, Cindy Blackmon, bate melhor que muito batera por aí. Que preparo físico. O guitarista solo, Craig Ross, dá a pimenta carnal do rock à levada soul/funk do baixista Jack Daley. Um Showzão, assim mesmo, com S maiúsculo.
Kravitz é fã do Kiss e as guitarras pesadas dos anos 70 (década em que ainda se sabia tocar guitarra de verdade) ecoam em sua música. Em dado momento, ele cantarolou um "Eh-he-he-hey-yeah" e pensei que fosse tocar "I love it loud", mas emendou um de seus petardos roqueiros.
Kravitz é fã do Kiss e as guitarras pesadas dos anos 70 (década em que ainda se sabia tocar guitarra de verdade) ecoam em sua música. Em dado momento, ele cantarolou um "Eh-he-he-hey-yeah" e pensei que fosse tocar "I love it loud", mas emendou um de seus petardos roqueiros.
19.3.05
Minha doce Elisinha está de molho, com o pé dodói, lá em Bom Jesus. Querida, espero que você melhore logo e volte para a redação em breve; o dia-a-dia nunca é o mesmo sem você.
Miss you dearly.
Miss you dearly.
A Crib Tanaka, com quem estou escrevendo uma nova história, bem devagarinho, finalmente abriu um blog próprio. Demorô.
Está aqui.
Está aqui.
Já se passaram duas semanas, mas eu queria saudar aqui mesmo assim a chegada do Pedro, filho de minha querida Alessandra Archer, que está numa fase maravilhosa de sua vida.
Alessandra, parabéns e que vocês todos sejam muito felizes.
Um beijo de seu amigo eterno, que está com muita saudade.
Alessandra, parabéns e que vocês todos sejam muito felizes.
Um beijo de seu amigo eterno, que está com muita saudade.
Hoje o "carpe diem" é a ordem na sociedade do tecno-capital; agarre o momento porque amanhã ele pode não mais existir. As celebridades que não têm nada a dizer já são famosas por bem menos de quinze minutos e as tecnologias se sucedem avassaladoras, sem misericórdia, maravilhando e às vezes assustando um pouco em sua voragem.
Mas, como eu sempre digo aos amigos, não há nada como conseguir, de vez em quando, ver as coisas pela primeira vez.
Ora, dirá você, mas hoje todo mundo já viu tudo.
Pode ser, responderei. Mas para mim tem uma coisa que jamais se repete e é uma das delícias de estar vivo: fazer uma nova amizade. Assim como quem não quer nada, num encontro casual, no meio do dia.
Ontem isso aconteceu comigo: eu já conhecia a pessoa, mas ainda não sentara para conversar com ela com mais profundidade. E ontem isso foi possível. O papo fluiu como o mar, em todas as direções, despreocupado, senhor de si, imprevisível. Rimos; falamos de nossos passatempos e aspirações; do trabalho; das angústias que afligem nossos cérebros bombardeados por tanta informação; dos sonhos e da vontade de aprender sempre mais; e eu, que acordara mal-humorado por estar duro (e por não ter recebido ainda um dinheiro com que contava), senti uma réstia de luz iluminando minha alma.
Foi tão bom, mas tão bom, que não percebemos o passar da hora. A Realidade, parafraseando Wilde em "Dorian Gray", chegou disfarçada do funcionário do restaurante onde estávamos, que apagou as luzes. Ah, que pena: tínhamos que voltar à lida.
Foi só um pequeno encontro, mas eu fiquei feliz; ando trabalhando demais e até gosto do agito do trabalho em movimento constante, mas isso também faz com que me sinta sozinho e um pouco angustiado às vezes. Conhecer um novo alguém para mitigar essa sensação é igual ao anúncio do cartão de crédito: não tem preço.
Espero que nos vejamos mais. Um brinde a estar vivo!
Mas, como eu sempre digo aos amigos, não há nada como conseguir, de vez em quando, ver as coisas pela primeira vez.
Ora, dirá você, mas hoje todo mundo já viu tudo.
Pode ser, responderei. Mas para mim tem uma coisa que jamais se repete e é uma das delícias de estar vivo: fazer uma nova amizade. Assim como quem não quer nada, num encontro casual, no meio do dia.
Ontem isso aconteceu comigo: eu já conhecia a pessoa, mas ainda não sentara para conversar com ela com mais profundidade. E ontem isso foi possível. O papo fluiu como o mar, em todas as direções, despreocupado, senhor de si, imprevisível. Rimos; falamos de nossos passatempos e aspirações; do trabalho; das angústias que afligem nossos cérebros bombardeados por tanta informação; dos sonhos e da vontade de aprender sempre mais; e eu, que acordara mal-humorado por estar duro (e por não ter recebido ainda um dinheiro com que contava), senti uma réstia de luz iluminando minha alma.
Foi tão bom, mas tão bom, que não percebemos o passar da hora. A Realidade, parafraseando Wilde em "Dorian Gray", chegou disfarçada do funcionário do restaurante onde estávamos, que apagou as luzes. Ah, que pena: tínhamos que voltar à lida.
Foi só um pequeno encontro, mas eu fiquei feliz; ando trabalhando demais e até gosto do agito do trabalho em movimento constante, mas isso também faz com que me sinta sozinho e um pouco angustiado às vezes. Conhecer um novo alguém para mitigar essa sensação é igual ao anúncio do cartão de crédito: não tem preço.
Espero que nos vejamos mais. Um brinde a estar vivo!
4.3.05
Peço desculpas pelas longas ausências; estou envolvido com vários projetos e nem sempre sobra tempo para vir cá.
Para compensar, aí vai mais um.
Dançando no mato
seu perfume colado a minhas têmporas
eu sinto a febre ascender
pela medula
e desejo namorar você
como nos eighties
quando namorar
ainda não era anacrônico.
Você é um tantinho doida
e me diz baixinho que me prefere
(ah, eu não posso com isso... ah)
e o perigo ali ao lado
torna tudo mais agudo, mais afiado
eu quero te beijar ali mesmo
e arrancar as convenções do seu corpo lindo
e tomar o lugar dos carrapichos
que povoam suas coxas.
Estou tonto
e selvagem
e descontrolado
e sozinho
à beira de um precipício tormentoso.
Venha você e sopre de mim
o barro da timidez
pois eu preciso viajar
com seu vento convidativo
e mergulhar no Estige dos amantes
que me chama
lá embaixo.
Para compensar, aí vai mais um.
Dançando no mato
seu perfume colado a minhas têmporas
eu sinto a febre ascender
pela medula
e desejo namorar você
como nos eighties
quando namorar
ainda não era anacrônico.
Você é um tantinho doida
e me diz baixinho que me prefere
(ah, eu não posso com isso... ah)
e o perigo ali ao lado
torna tudo mais agudo, mais afiado
eu quero te beijar ali mesmo
e arrancar as convenções do seu corpo lindo
e tomar o lugar dos carrapichos
que povoam suas coxas.
Estou tonto
e selvagem
e descontrolado
e sozinho
à beira de um precipício tormentoso.
Venha você e sopre de mim
o barro da timidez
pois eu preciso viajar
com seu vento convidativo
e mergulhar no Estige dos amantes
que me chama
lá embaixo.
18.2.05
Tinha tudo para dar errado: era uma festa de family day, longe para caramba, com turmas de diferentes sabores e idiossincrasias. Mas deu MUITO certo: foram consumidos oito engradados de cerveja, muito churrasco e até feijoada. Ninguém ligou para a chuvinha que caía intermitente: quando apertou, todos se sentaram na varanda da churrasqueira, falando mais bobagens à medida que a bebida subia e relaxava o cérebro. A toda hora um dos anfitriões passava do freezer garrafas de Antarctica com aquela capinha de gelo para um isopor ao nosso lado. E tome álcool e reflexões. Até que a música de que vinha do CD player de uma picape começou a chamar a galera, já à noitinha. Quase todas as mulheres estavam a fim de dançar, e dancei com elas, tonto e feliz, sentindo o perfume de cada uma e me concentrando no abraço e no ritmo (meditação é isso, com a vantagem de um corpo de mulher entrelaçado ao seu). Dancei samba, rock, disco e até american standards.
A van que ia nos buscar só chegou às duas da manhã. Mas eu teria dançado até as cinco.
A van que ia nos buscar só chegou às duas da manhã. Mas eu teria dançado até as cinco.
4.2.05
28.1.05
Fui ver "Closer". Embora um pouco longo demais, o filme tem um roteiro excelente e diálogos afiados. Ele mostra bem como, nos relacionamentos amorosos, afloram com mais facilidade nossas tendências (auto) destrutivas e como basta deixar as mazelas de nossas almas mal resolvidas se imiscuirem no dia-a-dia para ir sabotando nossaa visão do Outro. Natalie Portman é dona do filme (mereceu o Globo de Ouro). Ela e Clive Owen roubam a cena de Jude Law e Julia Roberts.
Ah, e a cena do chat de Law e Owen é uma das mais hilárias do cinema.
Ah, e a cena do chat de Law e Owen é uma das mais hilárias do cinema.
25.1.05
Fizeste de meu coração
o guisado do alquimista
e mexes nele devagar
querendo me transformar
no homem dourado do crepúsculo.
Eu te desejo
mas o sangue velho
de feridas
escapa
como os raios de Apolo
fogem do horizonte
que os aprisiona.
Liberta-me:
beija-me antes que eu fale
e me abraça com teus olhos curiosos
ó riscadora
de cidades elétricas
dentro do meu sistema.
o guisado do alquimista
e mexes nele devagar
querendo me transformar
no homem dourado do crepúsculo.
Eu te desejo
mas o sangue velho
de feridas
escapa
como os raios de Apolo
fogem do horizonte
que os aprisiona.
Liberta-me:
beija-me antes que eu fale
e me abraça com teus olhos curiosos
ó riscadora
de cidades elétricas
dentro do meu sistema.
16.1.05
Wal e eu estamos gripados, com febre e indispostos. E eu estou de plantão, neste fim de semana de calor (felizmente a redação é bem refrigerada, mas do ponto de vista da gripe isso não ajuda muito).
Hoje de manhã, eu me levantei desanimado, pensando no plantão que me esperava e nas tarefas para a semana que continua (no fim, acaba sendo uma "semana" de 12 dias direto no batente), inexorável. Ó Tempo indiferente às mazelas humanas...
Mas em dado momento levantei a cabeça do jornal que folheava e lá estava Rebeca, minha caçula: vendo-me jururu, trouxera uma bandejinha com um suco e um sanduíche para mim. Sorri, o dia já ganho, e agradeci ao Espírito silenciosamente pela minha sorte. Ter filhas amorosas: o que mais um homem pode querer?
Hoje de manhã, eu me levantei desanimado, pensando no plantão que me esperava e nas tarefas para a semana que continua (no fim, acaba sendo uma "semana" de 12 dias direto no batente), inexorável. Ó Tempo indiferente às mazelas humanas...
Mas em dado momento levantei a cabeça do jornal que folheava e lá estava Rebeca, minha caçula: vendo-me jururu, trouxera uma bandejinha com um suco e um sanduíche para mim. Sorri, o dia já ganho, e agradeci ao Espírito silenciosamente pela minha sorte. Ter filhas amorosas: o que mais um homem pode querer?
10.1.05
29.12.04
Fiquem com Oscar em 2005 e sejam felizes. Ou vivam para o prazer, porque, como Wilde disse, nada envelhece tanto quanto a felicidade. ;-)
I believe that if one man were to live out his life fully and completely, were to give form to every feeling, expression to every thought, reality to every dream--I believe that the world would gain such a fresh impulse of joy that we would forget all the maladies of mediaevalism, and return to the Hellenic ideal-- to something finer, richer than the Hellenic ideal, it may be.
(Lord Henry Wotton, em "O retrato de Dorian Gray")
I believe that if one man were to live out his life fully and completely, were to give form to every feeling, expression to every thought, reality to every dream--I believe that the world would gain such a fresh impulse of joy that we would forget all the maladies of mediaevalism, and return to the Hellenic ideal-- to something finer, richer than the Hellenic ideal, it may be.
(Lord Henry Wotton, em "O retrato de Dorian Gray")
28.12.04
Tenho um coração-prisma
que dispara auras psicodélicas
por todos os postigos;
é-me impossível amar com fronteiras.
não dá para pôr frames
no sentir, no desejar;
não se pode encerrar
o que pulsa
num único quarto
se a gente quer
todos os cômodos
e dizer para aquelas
com as faces que tonteiam:
"um beijo, suplico."
Não à posse;
sim à liberdade sem fio
sim aos ímãs femininos
que me fazem chorar de tanta beleza.
que dispara auras psicodélicas
por todos os postigos;
é-me impossível amar com fronteiras.
não dá para pôr frames
no sentir, no desejar;
não se pode encerrar
o que pulsa
num único quarto
se a gente quer
todos os cômodos
e dizer para aquelas
com as faces que tonteiam:
"um beijo, suplico."
Não à posse;
sim à liberdade sem fio
sim aos ímãs femininos
que me fazem chorar de tanta beleza.
27.12.04
Passei o Natal no sítio da família, um lugar repleto de sons da natureza -- de pássaros pela manhã a grilos e rãs noite adentro -- e, não fossem as comemorações natalinas dos humanos, um recanto de quietude interna também. Meu lugar favorito por lá é um velho escorrega de piscina trasladado para baixo de uma mangueira copada e de sombra convidativa. Aproveitei para ler até o fim um clássico: "Enterrem meu coração na curva do rio", de Dee Brown, que conta a história do Velho Oeste do ponto de vista dos índios e mostra como o homem branco mentiu até a medula para ir tomando aos poucos o território das tribos de nativos do continente. Não pude deixar de pensar que Bush e companhia usaram exatamente as mesmas táticas para fomentar a guerra no Iraque. Nada parece ter mudado.
Bom, mas até que a festa foi tranqüila e as crianças curtiram, felizes -- o mais importante. Espero que todos tenham tido um Natal sossegado. E para 2005 e além, vamos torcer para que apareça uma liderança neste país realmente determinada a torná-lo mais seguro, com instituições que possamos legar para as futuras gerações, de modo que elas voltem a compreender o sentido da palavra esperança.
Bom, mas até que a festa foi tranqüila e as crianças curtiram, felizes -- o mais importante. Espero que todos tenham tido um Natal sossegado. E para 2005 e além, vamos torcer para que apareça uma liderança neste país realmente determinada a torná-lo mais seguro, com instituições que possamos legar para as futuras gerações, de modo que elas voltem a compreender o sentido da palavra esperança.
17.12.04
Por falar em eventos na noite, foi legal o lançamento do livro "Paralelos", fruto do site que anda revelando novos talentos na web. Mestre Augusto Sales, meu guitarman preferido Gustones, com Marcele, minha partner em contos Crib Tanaka (belíssima, chegou arrasando) e outros estavam todos lá, autografando exemplares de montão. Também encontrei a querida Ronize Aline na área, sempre simpática e gente finíssima.
15.12.04
13.12.04
Soneto para uma mulher tinhosa
És arguta e generosa
Quando queres agradar
Mas deveras rancorosa
Se te contraria o ar
Eloqüente quando falas,
Tornas púlpito o altar;
Mas revoltas o silêncio
Sem saber quando parar
Pois a última palavra
Queres monopolizar
As idéias de tua lavra
Para ti são o que há
Pois, te digo, já se javra
O tonel a te encerrar.
És arguta e generosa
Quando queres agradar
Mas deveras rancorosa
Se te contraria o ar
Eloqüente quando falas,
Tornas púlpito o altar;
Mas revoltas o silêncio
Sem saber quando parar
Pois a última palavra
Queres monopolizar
As idéias de tua lavra
Para ti são o que há
Pois, te digo, já se javra
O tonel a te encerrar.
10.12.04
As fotos do meu niver:
Elisinha e eu em clima de amasso total no Galeto...
Elis, Fátima e Bárbara: um trio mais divertido que este não existe!
O sortudo aniversariante cercado por suas amigas.
Eu, Renatinha Maneschy e o boa-praça Sérgio.
Da esquerda: Babi, eu, Renata, Sérgio, Luiza, Marcelo Balbio, Fátima e Nelson Vasconcelos.
Babs e eu no meio da bagunça geral e irrestrita.
Recebendo uma rosa com a gozação total da turma.
Elisinha e eu em clima de amasso total no Galeto...
Elis, Fátima e Bárbara: um trio mais divertido que este não existe!
O sortudo aniversariante cercado por suas amigas.
Eu, Renatinha Maneschy e o boa-praça Sérgio.
Da esquerda: Babi, eu, Renata, Sérgio, Luiza, Marcelo Balbio, Fátima e Nelson Vasconcelos.
Babs e eu no meio da bagunça geral e irrestrita.
Recebendo uma rosa com a gozação total da turma.
4.12.04
Chego hoje aos 42 anos.
Ontem houve um chope animadíssimo aqui na esquina do jornal, onde rimos tanto que estou com o maxilar doendo até agora. Brindamos tanto que brinquei que cada brinde me fazia ficar um ano mais jovem. Terminei a noite com 15 anos, com direito a valsa e tudo no meio do churrasco do Felipe na esquina de rua de Santana com Irineu Marinho.
Estiveram presentes a Elisinha, Babi Veloso, Fátima Iocken, Mr. Marcelo Balbio, Nelson Vasconcelos, Cristina Azevedo, Berenice Seara, Fábio Rossi, Renata Maneschy, Cida Calu, Luizinha e Sérgio, Mr. Feroli (que chegou no finzinho) e mais uma galera. Elis me presenteou com um DVD do "Senhor dos Anéis", que adorei.
Na volta para casa conheci a potência do Fatimóvel, o carro da Fátima. Ela dirige com uma desenvoltura invejável; fomos cantando músicas até o outro lado da baía, acompanhando um CD. Fui dormir com um sorriso na cara e não sonhei com nada -- o melhor sono possível.
Hoje vou sair com Wal e as meninas e flanar por Nikiti City (depois do plantão, pois tive que chegar cedo aqui no jornal. Mas tudo bem, não gosto de adiar plantões. Melhor fazer logo).
A vida começa aos 42. Ou melhor, aos 15 ;-)) Oh yeah.
A todos, obrigado por uma noite maravihosa.
Ontem houve um chope animadíssimo aqui na esquina do jornal, onde rimos tanto que estou com o maxilar doendo até agora. Brindamos tanto que brinquei que cada brinde me fazia ficar um ano mais jovem. Terminei a noite com 15 anos, com direito a valsa e tudo no meio do churrasco do Felipe na esquina de rua de Santana com Irineu Marinho.
Estiveram presentes a Elisinha, Babi Veloso, Fátima Iocken, Mr. Marcelo Balbio, Nelson Vasconcelos, Cristina Azevedo, Berenice Seara, Fábio Rossi, Renata Maneschy, Cida Calu, Luizinha e Sérgio, Mr. Feroli (que chegou no finzinho) e mais uma galera. Elis me presenteou com um DVD do "Senhor dos Anéis", que adorei.
Na volta para casa conheci a potência do Fatimóvel, o carro da Fátima. Ela dirige com uma desenvoltura invejável; fomos cantando músicas até o outro lado da baía, acompanhando um CD. Fui dormir com um sorriso na cara e não sonhei com nada -- o melhor sono possível.
Hoje vou sair com Wal e as meninas e flanar por Nikiti City (depois do plantão, pois tive que chegar cedo aqui no jornal. Mas tudo bem, não gosto de adiar plantões. Melhor fazer logo).
A vida começa aos 42. Ou melhor, aos 15 ;-)) Oh yeah.
A todos, obrigado por uma noite maravihosa.
29.11.04
As fotos da turma fantasiada no final do Editor's Day da HP, que aconteceu em Ilhabela semana passada. De cima para baixo: eu de frei Tuck fazendo um "vade retro" para o "vampiro" Ramalho; uma parte da galera pronta para o agito; eu recebendo o prêmio de melhor fantasia (acreditem, o público me elegeu...); com o prêmio; e outra parte da tchurma.
25.11.04
16.11.04
Andei relendo estes dias uns trechos de "Pergunte ao pó", de John Fante, na belíssima tradução do Paulo Leminski. Tenho ainda a edição da Brasiliense, que comprei em 1984 e devorei. Arturo Bandini, o escritor que amava a Los Angeles marginal e a voluntariosa garçonete Camila Lopez, é um personagem inesquecível, que está em algum canto de todos nós.
Não gosto de chamar Fante de escritor "classe B" porque, como dizia seu fã, Charles Bukowski, ele não tinha medo das emoções e era um mestre em descrever as angústias de seu alter ego Bandini. Além do mais, se pensarmos bem, dificilmente nossa vida interior, se exposta, é classe A.
Não gosto de chamar Fante de escritor "classe B" porque, como dizia seu fã, Charles Bukowski, ele não tinha medo das emoções e era um mestre em descrever as angústias de seu alter ego Bandini. Além do mais, se pensarmos bem, dificilmente nossa vida interior, se exposta, é classe A.
6.11.04
28.10.04
Marat, onde está o "Amigo do Povo"?
Robespierre, escondeste a pena das sentenças?
Danton, esqueceste a audácia e adotaste a tibieza?
Ó revolucionários! deveis retornar para verdes
a igualdade dos miseráveis
a fraternidade dos corruptos
a liberdade dos poderosos.
Guilhotina, dizeis? Qual!
Aqui nos trópicos
ela é a lâmina tripla da gilete
que torneia pescoços bem-nascidos
e só.
Robespierre, escondeste a pena das sentenças?
Danton, esqueceste a audácia e adotaste a tibieza?
Ó revolucionários! deveis retornar para verdes
a igualdade dos miseráveis
a fraternidade dos corruptos
a liberdade dos poderosos.
Guilhotina, dizeis? Qual!
Aqui nos trópicos
ela é a lâmina tripla da gilete
que torneia pescoços bem-nascidos
e só.
25.10.04
Semana passada fui ver minha filha Jessica se apresentar com o coral de sua escola. Foi no Teatro Municipal de Niterói. Fui esperando assistir a um show de colégio -- e fiquei boquiaberto ao ver o altíssimo nível do trabalho. O coral juvenil, onde ela canta, deu um show de afinação, ritmo e carisma, num clima de excelente astral. Corujices à parte, é o André músico que escreve estas linhas: foi emocionante ver as versões do coral para "Mercedes Benz" e "Conversa de botequim", entre peças do século XVI e outras canções. Uma coisa. O teatro aplaudiu longamente e eles deram um merecido bis.
Na saída, abracei Jessica emocionado e mostrei quão orgulhoso estava ao saber que a saga musical de nossa família continuava (meu avô materno tocava diversos instrumentos e foi no violão de minha mãe que exercitei os primeiros acordes, aos 11 anos, para logo em seguida ser fisgado pelo tal de roquenrou).
Na saída, abracei Jessica emocionado e mostrei quão orgulhoso estava ao saber que a saga musical de nossa família continuava (meu avô materno tocava diversos instrumentos e foi no violão de minha mãe que exercitei os primeiros acordes, aos 11 anos, para logo em seguida ser fisgado pelo tal de roquenrou).
19.10.04
18.10.04
Ela devia ser um fotograma de cinema
pois na noite suja e entrecortada por rajadas
estava linda, intocada pela fumaça das conversas ralas
e ele ficou perturbado
como não ficava desde as tempestades da adolescência
e seus globos desceram das órbitas,
rolando até os pés da mais desejada
e se misturando à doçura que ela derramava sem sentir.
pois na noite suja e entrecortada por rajadas
estava linda, intocada pela fumaça das conversas ralas
e ele ficou perturbado
como não ficava desde as tempestades da adolescência
e seus globos desceram das órbitas,
rolando até os pés da mais desejada
e se misturando à doçura que ela derramava sem sentir.
7.10.04
29.9.04
Olá, moçada, estou de volta. Tirei um tempinho de férias, para desconectar a cabeça. Aproveitei para botar as leituras em dia. Li "O jogo da mente", um interessante livro de ficção científica envolvendo a badalada teoria do jogo, e devorei "O código Da Vinci", que realmente é impossível parar de ler. Em pouco mais de três dias terminei. E descobri que tinha lá em casa um dos livros citados pelo personagem Sir Leigh Teabing em sua longa conversa com Robert Langdon e Sophie Neveu... Estou começando a lê-lo agora.
13.9.04
27.8.04
25.8.04
20.8.04
Faz tempo que não posto um poema novo aqui, né? Então aí vai, para o fim de semana...
Lanterna oriental
Seus olhos riram
e sua boca tocou a minha
sob a velha mangueira no campus;
ohmeudeus como ela é linda
foi tudo que o estudante perplexo
pôde dizer ao seu peito.
e hoje, cozido pela vida em fogo brando,
quando me lembro dela
eu ainda me sinto um aluno relapso
porque deixei aqueles olhos partirem
porque deixei que me partissem a alma
porque deixei ao silêncio o aparte.
Ah, solidão que me envolve
qual cilindro de fótons severos,
você nada me ensina
a não ser escrever versos
e inscrever meu próprio nome
no pequeno panteão de meus antepassados
voejando sob uma lanterna oriental.
Lanterna oriental
Seus olhos riram
e sua boca tocou a minha
sob a velha mangueira no campus;
ohmeudeus como ela é linda
foi tudo que o estudante perplexo
pôde dizer ao seu peito.
e hoje, cozido pela vida em fogo brando,
quando me lembro dela
eu ainda me sinto um aluno relapso
porque deixei aqueles olhos partirem
porque deixei que me partissem a alma
porque deixei ao silêncio o aparte.
Ah, solidão que me envolve
qual cilindro de fótons severos,
você nada me ensina
a não ser escrever versos
e inscrever meu próprio nome
no pequeno panteão de meus antepassados
voejando sob uma lanterna oriental.
16.8.04
E por falar em lançamento, estarei amanhã na Comdex/SP ao longo do dia, divulgando o livro no estande da editora Campus.
***
Volto do almoço e encontro um cartão postal do verão sueco enviado pela minha querida Maryzinha Fabriani, com um gentil cumprimento sobre essa sensação curiosa que é lançar um livro... Mary, você me emocionou. Obrigado por sua mensagem, é como se você estivesse aqui.
***
Reproduzo aqui a nota de Cora Rónai hoje no Globo sobre o livro que eu e mestre Aroaldo Veneu estamos lançando: "Como converter a sua rica coleção de LPs, fitas cassete e MP3 em CDs de alta qualidade? A pergunta, que foi base de uma reportagem aqui no caderninho, acabou rendendo um livro e tanto, obra do nosso André Machado, jornalista de larga experiência na área, e do físico Aroaldo Veneu, um dos pioneiros na técnica de transposição de musicas de mídia analógica para digital e criador do método LPemCD. “Como fazer CDs de alta qualidade” (Editora Campus/Elsevier, 312 páginas, R$ 45), que acaba de chegar às livrarias, é um guia passo a passo para a confecção de CDs: lá estão todos os macetes que você sempre quis saber mas nunca teve paciência de procurar na internet, explicados de forma clara, simples e bem humorada. De quebra, o livro traz uma versão trial do Nero, um excelente software para criação de CDs."
Obrigado, Cora.
***
Volto do almoço e encontro um cartão postal do verão sueco enviado pela minha querida Maryzinha Fabriani, com um gentil cumprimento sobre essa sensação curiosa que é lançar um livro... Mary, você me emocionou. Obrigado por sua mensagem, é como se você estivesse aqui.
***
Reproduzo aqui a nota de Cora Rónai hoje no Globo sobre o livro que eu e mestre Aroaldo Veneu estamos lançando: "Como converter a sua rica coleção de LPs, fitas cassete e MP3 em CDs de alta qualidade? A pergunta, que foi base de uma reportagem aqui no caderninho, acabou rendendo um livro e tanto, obra do nosso André Machado, jornalista de larga experiência na área, e do físico Aroaldo Veneu, um dos pioneiros na técnica de transposição de musicas de mídia analógica para digital e criador do método LPemCD. “Como fazer CDs de alta qualidade” (Editora Campus/Elsevier, 312 páginas, R$ 45), que acaba de chegar às livrarias, é um guia passo a passo para a confecção de CDs: lá estão todos os macetes que você sempre quis saber mas nunca teve paciência de procurar na internet, explicados de forma clara, simples e bem humorada. De quebra, o livro traz uma versão trial do Nero, um excelente software para criação de CDs."
Obrigado, Cora.
11.8.04
6.8.04
3.8.04
2.8.04
Desde março eu vinha trabalhando num projeto diferente, que me tomou um bom tempo. É o meu primeiro livro -- um livro de informática -- que acaba de sair do prelo pela editora Campus. Chama-se "Como fazer CDs de alta qualidade" e foi escrito junto com o grande mestre do assunto, o físico e músico Aroaldo Veneu. Aroaldo foi minha fonte principal numa reportagem sobre o assunto que saiu no caderno Informática Etc, do Globo, onde trabalho, em fevereiro. Dela surgiu o convite para o livro, em que nos aprofundamos mais sobre a arte de gravar um CD retirando de seus velhos Lps aquelas sujeirinhas e tlec-tlecs para curtir melhor no som as músicas que tanto amamos. Aroaldo sabe tudo do assunto e tem um método todo pessoal, que detalha com um estilo incomparável no livro. Ele deu cursos sobre o tema por vários anos. Eu entrei com meu ofício de repórter. Olha a carinha do livro aí:
Ele já está na lista de lançamentos do site da Campus, aqui.
A noite de autógrafos vai ser no dia 14 de setembro, na Livraria da Travessa, em Ipanema. Quando chegar mais perto, vou postar aqui.
É uma sensação ímpar estar com um livro que você concebeu em suas mãos.
Ele já está na lista de lançamentos do site da Campus, aqui.
A noite de autógrafos vai ser no dia 14 de setembro, na Livraria da Travessa, em Ipanema. Quando chegar mais perto, vou postar aqui.
É uma sensação ímpar estar com um livro que você concebeu em suas mãos.
A pedidos, mais fotos do tour pelo Oriente.
Na entrada do templo em Asaksusa, Tóquio.
Diante do pavilhão de banquetes e festas de uma antiga dinastia em Seul. Neste lago nadam as carpas supernutridas.
Me arriscando diante da guarda imperial em Gyeonbokgung, na Coréia.
Nos dois países o calor estava terrível, chegando perto dos 40 graus. Experimentei sushi de tudo que foi jeito, inclusive de enguia (que é tida como afrodisíaca). A comida japonesa é mais leve; a coreana carrega na pimenta e deixa uma sensação de ressaca no dia seguinte...
Na Coréia vi um belo espetáculo de dança, com bailarinas formando flores com seus leques. Também assisti a uma demonstração poderosa de percussão, com músicos batendo naqueles tambores graúdos que vemos nos anúncios da Samsung. O teatro inteiro treme.
Na entrada do templo em Asaksusa, Tóquio.
Diante do pavilhão de banquetes e festas de uma antiga dinastia em Seul. Neste lago nadam as carpas supernutridas.
Me arriscando diante da guarda imperial em Gyeonbokgung, na Coréia.
Nos dois países o calor estava terrível, chegando perto dos 40 graus. Experimentei sushi de tudo que foi jeito, inclusive de enguia (que é tida como afrodisíaca). A comida japonesa é mais leve; a coreana carrega na pimenta e deixa uma sensação de ressaca no dia seguinte...
Na Coréia vi um belo espetáculo de dança, com bailarinas formando flores com seus leques. Também assisti a uma demonstração poderosa de percussão, com músicos batendo naqueles tambores graúdos que vemos nos anúncios da Samsung. O teatro inteiro treme.
30.7.04
A internet brasileira, wireless ou não, perde parte de seu charme com a partida inesperada do Fervil. Meu caro, vai sossegado que seu brilho, centenas de vezes demonstrado aqui, continuará pelas esferas celestiais.
Quando é que esse governo federal vai resolver intervir no nosso Estado tão amedrontado?
Quando é que esse governo federal vai resolver intervir no nosso Estado tão amedrontado?
29.7.04
Eu diante do palácio imperial de Gyeonbokgung, na Coréia. Um verdadeiro labirinto de construções, com um interessante sistema de aquecimento através de pedras. Nos fundos, há um lago com carpas enormes.
O povo coreano é gentil e o metrô de Seul é muito bem organizado. Esta visão do palácio é exatamente a que se tem ao sair da estação local. É de tirar o fôlego.
26.7.04
Moçada, estou de volta.
Perdoem o longo tempo sumido, é que estive envolvido numa longa viagem -- no sentido literal e no metafísico -- nas duas últimas semanas. Fui a trabalho ao Extremo Oriente -- Coréia e Japão -- onde o sol nasce e derrama sua sabedoria milenar sobre este planeta. Fui a templos budistas, vi monges orarem pelos mortos e o povo pedindo graças diversas ao Iluminado (de saúde a fertilidade); vi as belezas do palácio imperial de Gyeonbokgung, em Seul, um labirinto de construções tecido pelas necessidades políticas de seu tempo; e observei fascinado Tóquio à noite, com um quê da Los Angeles vista em "Blade Runner", os viadutos sem fim, as rodas gigantes criando arabescos de caleidoscópios.
Vi também o futuro frenético da tecnologia, que estou começando a descrever em matérias. Celulares com televisão ao vivo, centros de lazer equipados com tudo que é aparelho, serviços de mapeamento sofisticadíssimos.
O Oriente dá realmente um nó na cabeça ocidental, por mais rápida que seja a visita. Contarei mais nos próximos posts.
Perdoem o longo tempo sumido, é que estive envolvido numa longa viagem -- no sentido literal e no metafísico -- nas duas últimas semanas. Fui a trabalho ao Extremo Oriente -- Coréia e Japão -- onde o sol nasce e derrama sua sabedoria milenar sobre este planeta. Fui a templos budistas, vi monges orarem pelos mortos e o povo pedindo graças diversas ao Iluminado (de saúde a fertilidade); vi as belezas do palácio imperial de Gyeonbokgung, em Seul, um labirinto de construções tecido pelas necessidades políticas de seu tempo; e observei fascinado Tóquio à noite, com um quê da Los Angeles vista em "Blade Runner", os viadutos sem fim, as rodas gigantes criando arabescos de caleidoscópios.
Vi também o futuro frenético da tecnologia, que estou começando a descrever em matérias. Celulares com televisão ao vivo, centros de lazer equipados com tudo que é aparelho, serviços de mapeamento sofisticadíssimos.
O Oriente dá realmente um nó na cabeça ocidental, por mais rápida que seja a visita. Contarei mais nos próximos posts.
3.7.04
Para J.
Tão jovem e tão séria,
dear, você me faz pensar
se rir de nossas convicções
não é um luxo da maturidade.
Ame-se mais; deixe a
gargalhada
vir lá do fundo do abismo
e sacudir as estrelas;
mire-se na desfaçatez
de Tom, o gato,
e refestele sua alma
numa ofurô tépida
encravada no bosque do Devaneio.
Sim, é preciso montar a Vida
e ser hábil com as rédeas
e domá-la;
mas ao fim e ao cabo
é tudo miragem
então guarde as bobagens
na caixinha de jóias
e deite fora as certezas,
que elas são moventes
como as areias do deserto.
Um beijo.
Tão jovem e tão séria,
dear, você me faz pensar
se rir de nossas convicções
não é um luxo da maturidade.
Ame-se mais; deixe a
gargalhada
vir lá do fundo do abismo
e sacudir as estrelas;
mire-se na desfaçatez
de Tom, o gato,
e refestele sua alma
numa ofurô tépida
encravada no bosque do Devaneio.
Sim, é preciso montar a Vida
e ser hábil com as rédeas
e domá-la;
mas ao fim e ao cabo
é tudo miragem
então guarde as bobagens
na caixinha de jóias
e deite fora as certezas,
que elas são moventes
como as areias do deserto.
Um beijo.
28.6.04
23.6.04
Vou sentir falta do Brizola. O velho Briza era o homem certo na hora certa em 1982 para o Rio fazer frente aos militares. Foi minha primeira chance de votar; eu tinha 19 anos. O Rio de então era outro, mais alegre, mais boêmio, eu estava na Escola de Comunicação da UFRJ, a célebre Eco, e vivia intensamente essa boemia.
Na época, alguns colegas da faculdade ostentavam a estrelinha do PT, mas o candidato do partido, Lysâneas Maciel, não tinha nenhum carisma. Além do mais, pelo menos no ambiente da Eco, os petistas eram mais radicais (radicalismo é algo que detesto até hoje), e eu desconfiava. (Apesar disso votei no Lula em todas as eleições para presidente. E adiantou? Hoje temos este governo aí, com esta política (?) econômica que se diz "ortodoxa", mas que prefiro chamar de "tortodoxa".) Quem ia votar no Brizola se mostrava mais discreto. Fiquei com o caudilho, então.
Fui até a um comício dele, na Cinelândia, que reuniu um mar de gente. Anos mais tarde, parei para ouvi-lo dar entrevista em frente ao prédio da Manchete, na rua do Russell, onde eu trabalhava.
Não concordo muito com essa tese de que o Rio começou a degringolar com o governo dele; creio que o chaguismo, nos anos 70, já deixara o estado bem caidinho.
Vai com Deus, Briza. E vê se o Padre Eterno monta uma Cadeia Celestial da Legalidade pra não deixar nenhum espertalhão subir. ;-)
Na época, alguns colegas da faculdade ostentavam a estrelinha do PT, mas o candidato do partido, Lysâneas Maciel, não tinha nenhum carisma. Além do mais, pelo menos no ambiente da Eco, os petistas eram mais radicais (radicalismo é algo que detesto até hoje), e eu desconfiava. (Apesar disso votei no Lula em todas as eleições para presidente. E adiantou? Hoje temos este governo aí, com esta política (?) econômica que se diz "ortodoxa", mas que prefiro chamar de "tortodoxa".) Quem ia votar no Brizola se mostrava mais discreto. Fiquei com o caudilho, então.
Fui até a um comício dele, na Cinelândia, que reuniu um mar de gente. Anos mais tarde, parei para ouvi-lo dar entrevista em frente ao prédio da Manchete, na rua do Russell, onde eu trabalhava.
Não concordo muito com essa tese de que o Rio começou a degringolar com o governo dele; creio que o chaguismo, nos anos 70, já deixara o estado bem caidinho.
Vai com Deus, Briza. E vê se o Padre Eterno monta uma Cadeia Celestial da Legalidade pra não deixar nenhum espertalhão subir. ;-)
18.6.04
De volta de Sampa, onde fui cobrir um interessante concurso de software. Dei sorte, o tempo estava ameno e o frio não atrapalhou. Num intervalo, disputei uma corrida virtual num game center com os competidores. Até ganhei uma bateria de Indy 500, logo eu, que não dirijo por opção. Foi engraçado.
À noite, a festa de premiação teve show de uma sensacional banda retrô chamada Quasímodo.
À noite, a festa de premiação teve show de uma sensacional banda retrô chamada Quasímodo.
10.6.04
Ray Charles, aquele abraço.
Embora os amantes da música sofram, eu sei que você vai para o céu, onde poderá ajudar São Pedro na triagem do Portão cantando "Hit the road, Jack" para todos os espertinhos que acharem que podem curtir o paraíso, e mandando-os ter com o demo. Oh yeah.
E bote todos os santos para dançar:
Hey mama, don't you treat me wrong
Come and love your daddy all night long
All right, hey, hey, all right now
See the girl with the diamond ring
She knows how to shake that thing
All right, hey, hey, Mmm, all right now
Ahhh, Ohh, Ahhh, Ohh, Ahhh, Ohh, Ohh
Make me feel so good, make me feel so good right now
Make me feel so good, make me feel so good right now
Make me feel so good, make me feel so good
Mmm, see the girl with the red dress on
She can do the dog all night long
All right, hmm what'd I say, tell me what'd I say
Tell me what'd I say, tell me what'd I say right now
Tell me what'd I say, tell me what'd I say right now
Tell me what'd I say, tell me what'd I say
Ahhh, Ohh, Ahhh, Ohh, Ahhh, Ohh, Ohh
It's all right, It's all right right now
Baby, it's all right, Baby, it's all right right now
Baby, it's all right, Oh yeah!
Baby shake that thing, baby shake that thing right now
Baby shake that thing, baby shake that thing right now
Baby shake that thing, well I feel all right
Embora os amantes da música sofram, eu sei que você vai para o céu, onde poderá ajudar São Pedro na triagem do Portão cantando "Hit the road, Jack" para todos os espertinhos que acharem que podem curtir o paraíso, e mandando-os ter com o demo. Oh yeah.
E bote todos os santos para dançar:
Hey mama, don't you treat me wrong
Come and love your daddy all night long
All right, hey, hey, all right now
See the girl with the diamond ring
She knows how to shake that thing
All right, hey, hey, Mmm, all right now
Ahhh, Ohh, Ahhh, Ohh, Ahhh, Ohh, Ohh
Make me feel so good, make me feel so good right now
Make me feel so good, make me feel so good right now
Make me feel so good, make me feel so good
Mmm, see the girl with the red dress on
She can do the dog all night long
All right, hmm what'd I say, tell me what'd I say
Tell me what'd I say, tell me what'd I say right now
Tell me what'd I say, tell me what'd I say right now
Tell me what'd I say, tell me what'd I say
Ahhh, Ohh, Ahhh, Ohh, Ahhh, Ohh, Ohh
It's all right, It's all right right now
Baby, it's all right, Baby, it's all right right now
Baby, it's all right, Oh yeah!
Baby shake that thing, baby shake that thing right now
Baby shake that thing, baby shake that thing right now
Baby shake that thing, well I feel all right
6.6.04
De Paul Auster, ontem, no "Prosa e Verso":
Sinto-me um outsider, como todos os artistas. É isso que significa ser artista — escritor, pintor ou cineasta: você está do lado de dentro, é parte do todo, mas também está o tempo todo dando um passo atrás para observar tudo à distância, sem participar tão completamente como as outras pessoas o fazem. É a bênção e a maldição de ser um artista. Você se sente exilado, excluído da realidade à sua volta. Mas sem a distância, você não poderia escrever sobre isso.
Esta é uma excelente descrição de como me sinto ao escrever um miniconto ou um poema. E é um tipo de solidão terrível, que ninguém, nem a pessoa que vive com você há décadas, apaga.
Quando sai um poema, um conto, uma parte da angústia se recolhe temporariamente; mas quando o tempo se fecha na alma e sobra apenas a angústia de fitar uma parede, é o inferno.
Sinto-me um outsider, como todos os artistas. É isso que significa ser artista — escritor, pintor ou cineasta: você está do lado de dentro, é parte do todo, mas também está o tempo todo dando um passo atrás para observar tudo à distância, sem participar tão completamente como as outras pessoas o fazem. É a bênção e a maldição de ser um artista. Você se sente exilado, excluído da realidade à sua volta. Mas sem a distância, você não poderia escrever sobre isso.
Esta é uma excelente descrição de como me sinto ao escrever um miniconto ou um poema. E é um tipo de solidão terrível, que ninguém, nem a pessoa que vive com você há décadas, apaga.
Quando sai um poema, um conto, uma parte da angústia se recolhe temporariamente; mas quando o tempo se fecha na alma e sobra apenas a angústia de fitar uma parede, é o inferno.
4.6.04
O artista britânico David Hockney diz que, na era digital, já não se pode mais acreditar na informação de uma fotografia. Fico imaginando o que diria o filósofo Walter Benjamin (1892-1940) se estivesse escrevendo hoje seu magnífico estudo "A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica". Nele, ele analisava as relações entre fotografia e pintura -- enquanto esta última era uma coisa única, a aura da fotografia se perdia na objetividade das milhares de cópias possíveis. Mas, hoje, aparentemente, qualquer foto é tão editável quanto uma tela em branco, por qualquer um. As fronteiras não mais existem; então, em quem confiar? Que realidade escolher?
1.6.04
O, she doth teach the torches to burn bright!
It seems she hangs upon the cheek of night
Like a rich jewel in an Ethiope's ear;
Beauty too rich for use, for earth too dear!
So shows a snowy dove trooping with crows,
As yonder lady o'er her fellows shows.
The measure done, I'll watch her place of stand,
And, touching hers, make blessed my rude hand.
Did my heart love till now? forswear it, sight!
For I ne'er saw true beauty till this night.
(em tradução livre...)
Oh, ela ensina a tocha a brilhar!
Parece pender das faces da noite
Como pedra preciosa no lóbulo de um etíope;
É uma beleza por demais rica para o uso,
demasiadamente doce para a vida terrena.
Semelha alva pomba em meio a gralhas
quando passa em meio às companheiras.
Finda a dança, a contemplarei em seu lugar
e, tocando as suas, abençoarei minhas rudes mãos.
Terá meu coração amado até hoje? Ah, tal visão o nega!
Pois eu jamais vi beleza genuíona antes desta noite.
(Extraído de "Romeu e Julieta", de Shakespeare)
It seems she hangs upon the cheek of night
Like a rich jewel in an Ethiope's ear;
Beauty too rich for use, for earth too dear!
So shows a snowy dove trooping with crows,
As yonder lady o'er her fellows shows.
The measure done, I'll watch her place of stand,
And, touching hers, make blessed my rude hand.
Did my heart love till now? forswear it, sight!
For I ne'er saw true beauty till this night.
(em tradução livre...)
Oh, ela ensina a tocha a brilhar!
Parece pender das faces da noite
Como pedra preciosa no lóbulo de um etíope;
É uma beleza por demais rica para o uso,
demasiadamente doce para a vida terrena.
Semelha alva pomba em meio a gralhas
quando passa em meio às companheiras.
Finda a dança, a contemplarei em seu lugar
e, tocando as suas, abençoarei minhas rudes mãos.
Terá meu coração amado até hoje? Ah, tal visão o nega!
Pois eu jamais vi beleza genuíona antes desta noite.
(Extraído de "Romeu e Julieta", de Shakespeare)
31.5.04
O tempo no Rio está horrível hoje; a noite parecia já ter caído às onze da manhã. Mas no coração do poeta o sol brilha, o tráfego de almas e automóveis na Avenida Rio Branco não importa e a redação pode esperar enquanto ele mexe no botão da sintonia fina do tempo e deixa parado no canal em que recebe o abraço com que vinha sonhando.
Aquele abraço ficou com ele, guardado no backup de seu cérebro.
Aquele abraço ficou com ele, guardado no backup de seu cérebro.
28.5.04
Ontem trabalhei o dia inteiro num evento de tecnologia. À noite, porém, o trinômio boa companhia + chope + bons petiscos na night me deixou, acreditem, alguns quilos mais leve ;-)
* * *
Ralação, aliás, não faltou em maio: mil projetos e matérias ao mesmo tempo deixam qualquer um tonto. E, para complicar, meu pai foi parar no hospital (já voltou para casa, não foi nada grave, felizmente).
* * *
Saudade é como o Bolero de Ravel: a cada lembrança gostosa, a gente adiciona uma nova sonoridade, uma nova ambiência na alma.
* * *
Ralação, aliás, não faltou em maio: mil projetos e matérias ao mesmo tempo deixam qualquer um tonto. E, para complicar, meu pai foi parar no hospital (já voltou para casa, não foi nada grave, felizmente).
* * *
Saudade é como o Bolero de Ravel: a cada lembrança gostosa, a gente adiciona uma nova sonoridade, uma nova ambiência na alma.
20.5.04
14.5.04
Como um dervixe
O Romance é esquivo
e sempre sai à francesa;
o espelho envelhecido
é a dama de companhia
dos solitários.
E eu estou sempre só
quando a noite inunda a casa
e os infantes da vizinhança exibem
a face isenta de pecado
enquanto sonham.
Minha alma quer brincar
com os filhotes felinos
que pulam no corredor;
ela sente falta do não-pensar
e de rodopiar como um dervixe
carregando-te, linda amiga,
para o quarto rubro.
O Romance é esquivo
e sempre sai à francesa;
o espelho envelhecido
é a dama de companhia
dos solitários.
E eu estou sempre só
quando a noite inunda a casa
e os infantes da vizinhança exibem
a face isenta de pecado
enquanto sonham.
Minha alma quer brincar
com os filhotes felinos
que pulam no corredor;
ela sente falta do não-pensar
e de rodopiar como um dervixe
carregando-te, linda amiga,
para o quarto rubro.
13.5.04
Além do mais, essa hipocrisia rídícula de bebida fazer mal a governo não está no mapa!
O grande vencedor da Guerra civil americana, o general (e depois presidente) Ulysses S. Grant, era bem chegado a um uísque.
Churchill também bebia muito e (talvez até por isso mesmo) manteve alto o moral britânico até a vitória final na II Guerra.
Enquanto isso, Hitler era abstêmio.
O grande vencedor da Guerra civil americana, o general (e depois presidente) Ulysses S. Grant, era bem chegado a um uísque.
Churchill também bebia muito e (talvez até por isso mesmo) manteve alto o moral britânico até a vitória final na II Guerra.
Enquanto isso, Hitler era abstêmio.
É certo que o presidente Lula deu um tiro no próprio pé ao insistir na expulsão do Larry Rohter, do NYT, mas a "matéria" dele sobre o suposto exagero de Lula na bebida é um horror. Não é uma reportagem, não se ouviu ninguém, apenas alguns artigos e trechos de entrevistas e discursos foram citados. Parece muito mais uma coluna de mexericos da candinha.
O desprezo pelo governo e pelo Brasil que se lê nas entrelinhas do texto de Rohter mereceria, porém, que o NYT escalasse outra pessoa para cobrir nosso país. O texto é eivado de preconceito, como no momento em que fala que Lula "nasceu numa família pobre, num dos estados mais pobres do país e passou anos liderando sindicatos -- um ambiente famoso pelo seu consumo pesado de álcool".
Um jornal que publica um texto podre desses bem merece ter um Jayson Blair em suas fileiras.
Que vergonha, New York Times!
O desprezo pelo governo e pelo Brasil que se lê nas entrelinhas do texto de Rohter mereceria, porém, que o NYT escalasse outra pessoa para cobrir nosso país. O texto é eivado de preconceito, como no momento em que fala que Lula "nasceu numa família pobre, num dos estados mais pobres do país e passou anos liderando sindicatos -- um ambiente famoso pelo seu consumo pesado de álcool".
Um jornal que publica um texto podre desses bem merece ter um Jayson Blair em suas fileiras.
Que vergonha, New York Times!
9.5.04
Estou de plantão hoje. ;-(
Mas há males que vêm para bem: fui abençoado com a travessia da baía de Guanabara em meio a uma perfeita tarde de outono, com direito a sol tépido, brisa suave e o Pão de Açúcar recortado contra o azul sem mácula do céu.
Fiquei pensando que melhor do estar no Rio ou em Niterói é estar eternamente no meio do caminho, numa barca imersa nesse momento outonal digno de um van Gogh.
Acho que o filósofo Zenão de Eléia gostaria disso, se tivesse tido a chance de apreciar a paisagem.
Mas há males que vêm para bem: fui abençoado com a travessia da baía de Guanabara em meio a uma perfeita tarde de outono, com direito a sol tépido, brisa suave e o Pão de Açúcar recortado contra o azul sem mácula do céu.
Fiquei pensando que melhor do estar no Rio ou em Niterói é estar eternamente no meio do caminho, numa barca imersa nesse momento outonal digno de um van Gogh.
Acho que o filósofo Zenão de Eléia gostaria disso, se tivesse tido a chance de apreciar a paisagem.
30.4.04
27.4.04
Atualizei a lista de contatos aí ao lado. Os endereços estão todos nos trinques.
E, no processo, descobri que a Alessandra Archer voltou à ativa. Ainda devagar, mas tomara que apareçam novas narrativas "encontros e desencontros" por lá.
Mestre Augusto Sales também entrou na lista, como deveria estar há muito tempo. Ele merece.
E, no processo, descobri que a Alessandra Archer voltou à ativa. Ainda devagar, mas tomara que apareçam novas narrativas "encontros e desencontros" por lá.
Mestre Augusto Sales também entrou na lista, como deveria estar há muito tempo. Ele merece.
Esvoaçante
Desde o começo
era uma redoma
quebrada apenas pelo
suave oscilar na praça
de hortênsias comportadas
e tão solitárias
que não mais respondiam
ao cafuné dos átomos bailarinos
na brisa.
eu me balançava
e secava o pranto
(internal affairs o tempo todo)
e nos sonhos saltava
do balanço para o éter
hoje são suas
missivas eletrônicas
que trazem o cheiro da pracinha
e me lembram
de que houve, uma vez,
um despertar.
Tenho ímpetos de beijar
a tela do monitor
e fazer chover hortênsias
sobre seus cabelos dourados
e desavisados.
Desde o começo
era uma redoma
quebrada apenas pelo
suave oscilar na praça
de hortênsias comportadas
e tão solitárias
que não mais respondiam
ao cafuné dos átomos bailarinos
na brisa.
eu me balançava
e secava o pranto
(internal affairs o tempo todo)
e nos sonhos saltava
do balanço para o éter
hoje são suas
missivas eletrônicas
que trazem o cheiro da pracinha
e me lembram
de que houve, uma vez,
um despertar.
Tenho ímpetos de beijar
a tela do monitor
e fazer chover hortênsias
sobre seus cabelos dourados
e desavisados.
16.4.04
14.4.04
8.4.04
4.4.04
26.3.04
19.3.04
17.3.04
11.3.04
Este artigo que saiu no Globo de ontem, no finzinho da página de opinião, pode ter passado despercebido. É longo, mas recomendo a leitura. Mostra como algumas coisas funcionam neste mundo esquecido por Deus.
"Washington não quer a Usina de Resende
OTHON L. P. DA SILVA
A produção de combustível é a etapa mais importante no domínio da tecnologia nuclear. Para obtê-lo, as usinas de enriquecimento de urânio utilizam a técnica da difusão gasosa ou da ultracentrifugação. Ao negociar o acordo com a Alemanha, nos anos 70, o Brasil tentou garantir a transferência da tecnologia de ultracentrifugação. Não conseguiu, porque os Estados Unidos vetaram.
O Brasil, então, aceitou a alternativa da tecnologia jet-nozzle, que até à compra não havia enriquecido um único grama de urânio. Em 1978, diante do fracasso consumado do jet-nozzle, o signatário deste artigo propôs e o Ministério da Marinha aceitou desenvolver ultracentrífugas para enriquecer o urânio disponível no país.
Fizemos a primeira operação quatro anos mais tarde, com ultracentrífuga integralmente idealizada, projetada e construída no Brasil. Em 1991, entrou em operação um módulo de cerca de 500 ultracentrífugas, com capacidade para produzir 280 quilos/ano de urânio com enriquecimento inferior de 5%. Esse teor é superior ao necessário para o combustível da usinas nucleares de Angra dos Reis e atende às necessidades de um reator naval, em desenvolvimento. Um núcleo deste reator utiliza cerca de seis toneladas de urânio a 5% e permite ao submarino operar por dez anos. A propulsão nuclear, observe-se, não é uma aplicação bélica, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU.
No governo Sarney, nos anos 80, quando construiu o primeiro módulo da Usina Experimental em Aramar, São Paulo, o país uniu-se à Argentina e criou uma agência binacional para fazer inspeções nos padrões da AIEA. Pouco depois, no governo Collor, incluiu-se a AIEA no acordo, permitindo-lhe o controle direto do urânio enriquecido produzido - salvaguardados segredos comerciais e tecnológicos. Até então, as 500 ultracentrífugas disponíveis ficavam absolutamente visíveis no módulo de Aramar. Para permitir o controle sem escancarar a tecnologia, adotamos solução parecida com a do mictório público francês: em fileiras duplas, as centrífugas passaram a funcionar entre dois biombos colocados cerca de 30 centímetros acima do solo. Permitia-se a visão dos pés (suas bases), sem exibir o corpo, possibilitando a monitoração das tubulações de entrada e saída de hexafluoreto de urânio.
A solução foi aprovada pela AIEA. Ela instalou câmeras cinematográficas seladas para garantir vigilância 24 horas por dia, com direito a uma cota anual de inspeções programadas - e de surpresa - em todas as instalações nucleares brasileiras.
Já o governo Fernando Henrique, contrariando décadas de coerência em política externa, aceitou ratificar o Tratado de Não Proliferação nuclear. O TNP é assimétrico e discriminatório por dispensar a inspeção em países nuclearmente armados e limitar a inspeção aos desarmados.
O governo americano, a pretexto de evitar a proliferação, agora nos pressiona a aderir ao protocolo adicional aos acordos de salvaguardas. Ele amplia as assimetrias do TNP, ao exigir tantas inspeções quanto forem arbitradas. Não apenas nas instalações nucleares mas em qualquer parte do território considerada suspeita - o que inclui nossas residências, se assim decidirem.
É fácil entender por que os EUA procuram impedir o avanço da Usina de Enriquecimento que a Indústrias Nucleares Brasileiras (INB) está construindo em Resende (RJ), com tecnologia cedida pela Marinha e sob supervisão da AIEA. Há uma razão econômica e outra estratégico-militar.
A econômica: como dispõe de grandes reservas de urânio e tecnologia própria - comercialmente competitiva - para produção do combustível, o país deixaria de ser exportador de minério e passaria à condição de importante global player no bilionário mercado de combustível nuclear.
Mas há, também, um motivo estratégico-militar. Os artefatos bélicos nucleares podem ser classificados de duas formas: os de destruição em massa e os inibidores de concentração de forças. Armas de destruição em massa são as de fusão (bombas de hidrogênio) e as de fissão de maior porte. As de baixa potência são inibidoras.
Qualquer operação militar para invasão ou ocupação de um território implica prévia concentração de forças. A existência de artefatos nucleares de baixa potência no território-alvo, com um vetor adequado de lançamento, funciona como poderoso inibidor.
Obviamente, não são do agrado de países que têm como opção política permanente a intervenção militar - independentemente da aprovação da ONU. A existência de uma usina de enriquecimento de urânio diminui o tempo entre a denúncia de todos os acordos e tratados já celebrados, e a eventual fabricação de artefatos (making nuclear weapon on short notice, no jargão internacional). É o que explica a ação americana - embora o Brasil tenha sempre deixado clara sua opção de não construir armas nucleares, chegando a incluir tal decisão na Constituição.
Sempre tivemos um comportamento exemplar em relação à não transferência de tecnologia sensível - diferentemente do Paquistão, que obteve a sua capacidade de enriquecer urânio através de um engenhoso programa de espionagem comandado pelo cientista Abdul Qadeer Khan e vendeu esta tecnologia a outros países. Sem as motivações bélicas daquele país, optamos por um sério programa de pesquisa e desenvolvimento que nos levou a melhores resultados técnicos e econômicos, a custos muito inferiores. E não vendemos a tecnologia desenvolvida.
As normas de inspeção da AIEA, às quais o Brasil atualmente está sujeito, são comprovadamente eficientes. São as mesmas utilizadas no pós-guerra por dezenas de anos, em relação aos regimes democráticos do Japão e da Alemanha, países que mantiveram renúncia à construção de artefatos mesmo nos momentos de crise na guerra fria. Não há razão para aceitarmos o endurecimento de normas, a pretexto das atitudes de outros países sujeitos a regimes não democráticos e com passado recente de confrontação com os EUA.
A proposta do presidente Bush de reiniciar testes nucleares e desenvolver uma nova geração de pequenos artefatos para serem usados de forma "cirúrgica", até mesmo contra países não nucleares, é preocupante para o mundo. Tais atitudes somadas a agressões, sem o respaldo do Conselho de Segurança da ONU, constituem forte estimulante à proliferação nuclear, principalmente nos países islâmicos com os quais tenham potencial de confrontação.
Desde a independência, o Brasil é um aliado dos Estados Unidos. O povo brasileiro aprecia vários aspectos da cultura americana, porém tem o direito de resistir às pressões e recusar o protocolo adicional aos acordos de salvaguardas, assim como serenamente, sem antagonismos, não aceitar vetos sobre atividades pacíficas com grande significado comercial.
O Brasil é aliado dos EUA, mas não pode aceitar veto sobre atividade pacífica e comercial."
OTHON L. P. DA SILVA é empresário, engenheiro naval, mecânico e nuclear e vice-almirante na reserva.
"Washington não quer a Usina de Resende
OTHON L. P. DA SILVA
A produção de combustível é a etapa mais importante no domínio da tecnologia nuclear. Para obtê-lo, as usinas de enriquecimento de urânio utilizam a técnica da difusão gasosa ou da ultracentrifugação. Ao negociar o acordo com a Alemanha, nos anos 70, o Brasil tentou garantir a transferência da tecnologia de ultracentrifugação. Não conseguiu, porque os Estados Unidos vetaram.
O Brasil, então, aceitou a alternativa da tecnologia jet-nozzle, que até à compra não havia enriquecido um único grama de urânio. Em 1978, diante do fracasso consumado do jet-nozzle, o signatário deste artigo propôs e o Ministério da Marinha aceitou desenvolver ultracentrífugas para enriquecer o urânio disponível no país.
Fizemos a primeira operação quatro anos mais tarde, com ultracentrífuga integralmente idealizada, projetada e construída no Brasil. Em 1991, entrou em operação um módulo de cerca de 500 ultracentrífugas, com capacidade para produzir 280 quilos/ano de urânio com enriquecimento inferior de 5%. Esse teor é superior ao necessário para o combustível da usinas nucleares de Angra dos Reis e atende às necessidades de um reator naval, em desenvolvimento. Um núcleo deste reator utiliza cerca de seis toneladas de urânio a 5% e permite ao submarino operar por dez anos. A propulsão nuclear, observe-se, não é uma aplicação bélica, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU.
No governo Sarney, nos anos 80, quando construiu o primeiro módulo da Usina Experimental em Aramar, São Paulo, o país uniu-se à Argentina e criou uma agência binacional para fazer inspeções nos padrões da AIEA. Pouco depois, no governo Collor, incluiu-se a AIEA no acordo, permitindo-lhe o controle direto do urânio enriquecido produzido - salvaguardados segredos comerciais e tecnológicos. Até então, as 500 ultracentrífugas disponíveis ficavam absolutamente visíveis no módulo de Aramar. Para permitir o controle sem escancarar a tecnologia, adotamos solução parecida com a do mictório público francês: em fileiras duplas, as centrífugas passaram a funcionar entre dois biombos colocados cerca de 30 centímetros acima do solo. Permitia-se a visão dos pés (suas bases), sem exibir o corpo, possibilitando a monitoração das tubulações de entrada e saída de hexafluoreto de urânio.
A solução foi aprovada pela AIEA. Ela instalou câmeras cinematográficas seladas para garantir vigilância 24 horas por dia, com direito a uma cota anual de inspeções programadas - e de surpresa - em todas as instalações nucleares brasileiras.
Já o governo Fernando Henrique, contrariando décadas de coerência em política externa, aceitou ratificar o Tratado de Não Proliferação nuclear. O TNP é assimétrico e discriminatório por dispensar a inspeção em países nuclearmente armados e limitar a inspeção aos desarmados.
O governo americano, a pretexto de evitar a proliferação, agora nos pressiona a aderir ao protocolo adicional aos acordos de salvaguardas. Ele amplia as assimetrias do TNP, ao exigir tantas inspeções quanto forem arbitradas. Não apenas nas instalações nucleares mas em qualquer parte do território considerada suspeita - o que inclui nossas residências, se assim decidirem.
É fácil entender por que os EUA procuram impedir o avanço da Usina de Enriquecimento que a Indústrias Nucleares Brasileiras (INB) está construindo em Resende (RJ), com tecnologia cedida pela Marinha e sob supervisão da AIEA. Há uma razão econômica e outra estratégico-militar.
A econômica: como dispõe de grandes reservas de urânio e tecnologia própria - comercialmente competitiva - para produção do combustível, o país deixaria de ser exportador de minério e passaria à condição de importante global player no bilionário mercado de combustível nuclear.
Mas há, também, um motivo estratégico-militar. Os artefatos bélicos nucleares podem ser classificados de duas formas: os de destruição em massa e os inibidores de concentração de forças. Armas de destruição em massa são as de fusão (bombas de hidrogênio) e as de fissão de maior porte. As de baixa potência são inibidoras.
Qualquer operação militar para invasão ou ocupação de um território implica prévia concentração de forças. A existência de artefatos nucleares de baixa potência no território-alvo, com um vetor adequado de lançamento, funciona como poderoso inibidor.
Obviamente, não são do agrado de países que têm como opção política permanente a intervenção militar - independentemente da aprovação da ONU. A existência de uma usina de enriquecimento de urânio diminui o tempo entre a denúncia de todos os acordos e tratados já celebrados, e a eventual fabricação de artefatos (making nuclear weapon on short notice, no jargão internacional). É o que explica a ação americana - embora o Brasil tenha sempre deixado clara sua opção de não construir armas nucleares, chegando a incluir tal decisão na Constituição.
Sempre tivemos um comportamento exemplar em relação à não transferência de tecnologia sensível - diferentemente do Paquistão, que obteve a sua capacidade de enriquecer urânio através de um engenhoso programa de espionagem comandado pelo cientista Abdul Qadeer Khan e vendeu esta tecnologia a outros países. Sem as motivações bélicas daquele país, optamos por um sério programa de pesquisa e desenvolvimento que nos levou a melhores resultados técnicos e econômicos, a custos muito inferiores. E não vendemos a tecnologia desenvolvida.
As normas de inspeção da AIEA, às quais o Brasil atualmente está sujeito, são comprovadamente eficientes. São as mesmas utilizadas no pós-guerra por dezenas de anos, em relação aos regimes democráticos do Japão e da Alemanha, países que mantiveram renúncia à construção de artefatos mesmo nos momentos de crise na guerra fria. Não há razão para aceitarmos o endurecimento de normas, a pretexto das atitudes de outros países sujeitos a regimes não democráticos e com passado recente de confrontação com os EUA.
A proposta do presidente Bush de reiniciar testes nucleares e desenvolver uma nova geração de pequenos artefatos para serem usados de forma "cirúrgica", até mesmo contra países não nucleares, é preocupante para o mundo. Tais atitudes somadas a agressões, sem o respaldo do Conselho de Segurança da ONU, constituem forte estimulante à proliferação nuclear, principalmente nos países islâmicos com os quais tenham potencial de confrontação.
Desde a independência, o Brasil é um aliado dos Estados Unidos. O povo brasileiro aprecia vários aspectos da cultura americana, porém tem o direito de resistir às pressões e recusar o protocolo adicional aos acordos de salvaguardas, assim como serenamente, sem antagonismos, não aceitar vetos sobre atividades pacíficas com grande significado comercial.
O Brasil é aliado dos EUA, mas não pode aceitar veto sobre atividade pacífica e comercial."
OTHON L. P. DA SILVA é empresário, engenheiro naval, mecânico e nuclear e vice-almirante na reserva.
7.3.04
Enviado pelo C@t:
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"A fábula moderna"
por Max Gehringer
Revista Exame, nº 772
2002-08-07
---------------------
Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou, deu um gemido e apagou. Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso portal. Ainda meio zonza, atravessou-o e deu de cara com uma miríade de pessoas, todas vestindo cândidos camisolões e caminhando despreocupadas. Sem entender bem o que estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou um dos passantes:
- Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório porque tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida para cá por engano, porque meu convênio médico é classe A, e isto aqui está me parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?
- No céu.
- No céu?...
- É. Tipo assim, o céu, aquele. Com querubins voando e coisas do gênero.
- Que é isso amigo, você está com gozação?
- Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.
Apesar das óbvias evidências (nenhuma poluição, todo mundo sorrindo, ninguém usando telefone celular), a executiva bem-sucedida custou um pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva. Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que aquela situação era inaceitável.
Porque, ponderou. dali a uma semana ela iria receber o bônus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de presidente do conselho de administração da empresa. E foi aí que o interlocutor sugeriu:
- Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o síndico.
- É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?
- Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
- Assim? (...)
- Pois não?
A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem. À sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro.
Mas a executiva havia feito um curso intensivo de approach para situações inesperadas e reagiu rapidinho:
- Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva bem-sucedida e...
- Executiva... Que palavra estranha. De que século você veio?
- Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o termo "executiva"?
- Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo.
Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na organização.
- Sabe, meu caro Pedro, se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e andando à toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistêmica.
- É mesmo?
- Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por exemplo, não vejo ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê?
- Ah, não sabemos.
- Headcount, então, não deve constar em nenhum versículo, correto?
- Hã?
- Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão gera desmotivação. Com o tempo, isto aqui vai acabar virando uma anarquia. Mas nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho implementando um simples programa de targets individuais e avaliação de performance.
- Que interessante...
- Depois, mais no médio prazo, assim que os fundamentos estiverem sólidos e o pessoal começar a reclamar da pressão e a ficar estressado, a gente acalma a galera bolando um sistema de stock option, com uma campanha motivacional impactante, tipo: "O melhor céu da América Latina".
- Fantástico!
- É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização de um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver. Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do investimento do Grande Acionista... Ele existe, certo?
- Sobre todas as coisas.
- Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias hi-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico, por exemplo, me parece extremamente atrativo.
- Incrível!
- É obvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que nomear um board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os fringe benefits e mordomias de praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho certeza de que você vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar em um turnaround radical.
- Impressionante!
- Isso significa que podemos partir para a implementação?
- Não. Significa que você terá um futuro brilhante se for trabalhar com o nosso concorrente. Porque você acaba de descrever, exatamente, como funciona o Inferno...
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"A fábula moderna"
por Max Gehringer
Revista Exame, nº 772
2002-08-07
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Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou, deu um gemido e apagou. Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso portal. Ainda meio zonza, atravessou-o e deu de cara com uma miríade de pessoas, todas vestindo cândidos camisolões e caminhando despreocupadas. Sem entender bem o que estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou um dos passantes:
- Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório porque tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida para cá por engano, porque meu convênio médico é classe A, e isto aqui está me parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?
- No céu.
- No céu?...
- É. Tipo assim, o céu, aquele. Com querubins voando e coisas do gênero.
- Que é isso amigo, você está com gozação?
- Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.
Apesar das óbvias evidências (nenhuma poluição, todo mundo sorrindo, ninguém usando telefone celular), a executiva bem-sucedida custou um pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva. Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que aquela situação era inaceitável.
Porque, ponderou. dali a uma semana ela iria receber o bônus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de presidente do conselho de administração da empresa. E foi aí que o interlocutor sugeriu:
- Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o síndico.
- É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?
- Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
- Assim? (...)
- Pois não?
A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem. À sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro.
Mas a executiva havia feito um curso intensivo de approach para situações inesperadas e reagiu rapidinho:
- Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva bem-sucedida e...
- Executiva... Que palavra estranha. De que século você veio?
- Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o termo "executiva"?
- Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo.
Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na organização.
- Sabe, meu caro Pedro, se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e andando à toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistêmica.
- É mesmo?
- Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por exemplo, não vejo ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê?
- Ah, não sabemos.
- Headcount, então, não deve constar em nenhum versículo, correto?
- Hã?
- Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão gera desmotivação. Com o tempo, isto aqui vai acabar virando uma anarquia. Mas nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho implementando um simples programa de targets individuais e avaliação de performance.
- Que interessante...
- Depois, mais no médio prazo, assim que os fundamentos estiverem sólidos e o pessoal começar a reclamar da pressão e a ficar estressado, a gente acalma a galera bolando um sistema de stock option, com uma campanha motivacional impactante, tipo: "O melhor céu da América Latina".
- Fantástico!
- É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização de um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver. Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do investimento do Grande Acionista... Ele existe, certo?
- Sobre todas as coisas.
- Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias hi-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico, por exemplo, me parece extremamente atrativo.
- Incrível!
- É obvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que nomear um board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os fringe benefits e mordomias de praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho certeza de que você vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar em um turnaround radical.
- Impressionante!
- Isso significa que podemos partir para a implementação?
- Não. Significa que você terá um futuro brilhante se for trabalhar com o nosso concorrente. Porque você acaba de descrever, exatamente, como funciona o Inferno...
4.3.04
Já está na terceira fase a seqüência de publicação dos Minicontos deste guardião no site literário paralelos. A seqüência, editada por mestre Augusto Sales, vai do miniconto 21 ao 30. Aqui.
