13.3.03

Tem dias que realmente dá tudo errado, não é? Hoje minha manhã foi terrível: marquei consulta numa clínica oftalmológica e fiquei uma hora e meia esperando. Munido de toda a minha paciência, cerrando os dentes, pedi o cancelamento da consulta, uma vez que já estava atrasado para um compromisso de trabalho. Mas os problemas com o Tempo não tinham acabado ainda: entendi mal ou me informaram erroneamente o horário agendado para uma reportagem e cheguei lá duas horas antes. Que ótimo. Pelo menos deu para almoçar com calma e retornar para a matéria, que felizmente correu bem. Será porque hoje é dia 13? ;-)

10.3.03

Prenúncio

A festa acabou e as nuvens se reúnem.
Sopra o vento da destruição, com um cheiro
enganador de água fresca.
Eu contemplo o chão sujo, os restos de falsa doçura
os cascos opacos escarrando espuma e ranço
e algo me golpeia com força o peito: a falta de você.

Toda a casa treme; das janelas recém-consertadas
desprega-se a massa nauseabunda.
As folhas fossilizadas são as únicas que dançam
-- como nós dançamos naquela noite --
e beijam os outrora elegantes umbrais
como eu beijei tua nuca no fim da canção.

E as tábuas suplicam para voar livres como as folhas,
exatamente como gemeste ao desprender-te de meu abraço
e fugiste.

Só que tua alma ficou.
E ela não me deixa superar o desejo de ti.
Estou enlouquecendo de amor,
como a casa tudo faz para entregar-se ao vento,
mesmo sabendo que no fim da espiral
não há nada a não ser uma lembrança, um espasmo
mecânico
maquiavélico
mefistofélico.

7.3.03

Traduzido do blog da Tia Cora, que cita também a carta de Leonardo Boff endossando a idéia de Marcos Arruda expressa nesta carta ao Papa João Paulo II:

"Sua Santidade:

Escrevo-lhe hoje devido a um sentimento de grande urgência. Como Sua Santidade sabe, os Estados Unidos da América estão prestes a iniciar o que pode ser uma das mais cataclísmicas guerras da História, usando armas de destruição em massa sobre a população iraquiana, cinqüenta por cento da qual tem menos de 15 anos de idade.

Estimativas tímidas dão conta de que tal guerra resulte nas mortes de 500 mil iraquianos. Parece claro que, neste momento, Sua Santidade é a única pessoa na Terra que pode pará-la. De fato, sua presença física em Bagdá evitará a iminente matança de centenas de milhares de seres humanos e forçará a comunidade internacional de nações a identificar e implementar uma genuína resolução de paz contra tal agressão antecipada e sem precedentes.

Eu imploro a Sua Santidade que viaje a Bagdá e permaneça lá até que uma solução pacífica para a crise tenha sido posta em prática. As vidas das pessoas no Iraque estão em suas mãos -- assim como o destino do mundo.

Com esperança,

Marcos Arruda
Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS)
Rio de Janeiro - Brasil
Economista e educador
Membro do movimento Fé e Política"


João Paulo II, embora seja um Papa extremamente conservador, é um político hábil e um homem de coragem. Se tomasse tal decisão, estaria mostrando aos americanos e seus cachorrinhos europeus o que é ser um grande líder. E Deus sabe como estamos precisando de bons exemplos ultimamente.


6.3.03

Se você ainda não viu "As Horas", não aconselho a leitura deste post. Mas se já viu, leia e diga se concorda.

Fui ver "As horas" no domingo. Estou até hoje maravilhado e perturbado. O filme é sublime e letal em sua beleza. As três atrizes -- Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep -- dão um show, com destaque para as duas primeiras. O olhar de Kidman como Virginia Woolf hipnotiza o espectador desde as primeiras cenas; as sutilezas de sua mente fulgurante e ao mesmo tempo turva se refletem em cada gesto, do fumar um cigarro à escolha nervosa de uma caneta. O desespero quieto e ordeiro de seu marido, Leonard Woolf, interpretado por Stephen Dillane, se opõe à liberdade, à anarquia espiritual de Virginia, simbolizada, entre outras coisas, pelas páginas do manuscrito de "Mrs. Dalloway" espalhadas pelo chão do quarto. A sombra da morte permeia as três histórias contadas, e, embora em certo ponto Virginia diga ao marido que alguém tem de morrer em sua ficção para que os outros valorizem mais a vida, é a pulsão de morrer (ainda que depois de se ter vivido plenamente) que move os personagens principais, ainda que não o façam todos e alguns usem para a Ceifadora o disfarce da libertação de uma situação. É arrepiante o momento em que Leonard pergunta a Virginia quem vai morrer na história e ela responde "the poet, the visionary", ao mesmo tempo se referindo a um personagem e a si mesma, como se soubesse, em 1923, que dezoito anos depois se afogaria numa gélida manhã em Sussex (e talvez soubesse, já que àquela altura tentara se matar duas vezes).
Ah, e Ed Harris rouba absolutamente as duas cenas em que aparece. A música onipresente de Philip Glass torna a fita ainda mais densa.
Há quem diga que o filme foi feito sob medida para ganhar o Oscar (até acho que vai), mas não concordo -- ele realmente deixa marcas e é uma tradução perfeita para aqueles momentos em que achamos que não há saída para nossas vidas (e o mundo, pelo que se vê, está passando por um desses momentos). Entrei no cinema achando que ia derramar algumas lágrimas, mas no fim, foi minha alma que chorou silenciosamente, o coração opresso, tentando bater mais discretamente para que sua angústia não transbordasse. Mas toda essa tristeza leva à contemplação, e é da contemplação que precisamos para perceber, em certas fases da vida, que nem tudo está perdido.

28.2.03

É mergulhado aí que pretendo passar os próximos dias ;-). E descansando à beira d'água.
Bom carnaval a todos!



photo by



27.2.03

A edição Urbanidades do supimpa site Falaê está dez! E em breve vou estrear por lá a "Coluna do Cadafalso", com crônicas variadas, em princípio abordando lugares e cotidianos do Grande Rio. O super Augusto Sales, como sempre, editando que é uma beleza. Augusto me informa que vou estrear a coluna junto com a do guitarman. Uma grande honra.

26.2.03

Ótima, ótima, ótima idéia esta da Rossana Fischer. Vale conferir, o template é bonito e já vem com lista de blogs pré-pronta ;-)


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25.2.03

Blue story

Alessandra Archer e André Machado

Estava treinando tons de azul para pintar um vaso de cerâmica. Possuía a doçura no olhar que ele tanto admirava. Considerava-se uma artista de valor, e era. Mas não perdera a docilidade: não fora enfeitiçada pelo vício da vaidade.

Ele estava deitado, vendo-a escrever. Não treinava os tons de azul com o pincel; buscava-os com seus alternantes estados de espírito. Um parágrafo cian aqui, três palavras cobalto ali, um poema anil, um desabafo marinho.

A tela do computador de repente se encheu de cores. E o programa de desenho nem estava aberto.

Mas ela só encontrou o tom de azul que realmente desejava quando ele beijou sua nuca e tocou-lhe os seios delicadamente.

24.2.03

Do meu chapa Gustones, hoje de manhã:

"O Rio realmente acabou. Continua lindo, mas um lindo cadáver. Se você não mora aqui e ouve sempre falar, nunca veio, e sonha vir conhecer, esquece. Sério mesmo, esquece. É dificílimo um lugar onde você não seja assaltado, atacado, achacado, corrompido, pressionado. Todos em volta parecem querer seu dinheiro: assaltantes, pedintes, mulheres que usam criança no colo, pivetes, camelôs e até mesmo policiais. Por isso, você de fora, não venha ao Rio. É perigoso mesmo.
Você acha que estou sendo fatalista? Bom, então pensa o seguinte: o que ajuda a evitar que pessoas se tornem criminosas? Emprego e salário. Oito anos de FHC ajudaram a acabar com o primeiro item. O segundo, bom, se eu que sou jornalista já não recebo um salário interessante desde abril de 2001, imagine quem é balconista (não que eu ache a primeira profissão mais digna que a segunda).
Aí vêm os seqüestros e ajudam a afastar o empresário que, se não gera salário, pelo menos gera emprego. Lembrem bem, muita gente já deixou de se instalar aqui, apesar do propagado crescimento da indústria fluminense (crescimento no qual eu me recuso a acreditar) nos últimos cinco anos. Junto com os seqüestros, a insegurança, a violência, o desemprego. E para arrematar de vez, vem a governadora e AUMENTA O ICMS! Sério! Aumenta o imposto que em diversos outros estados vem sendo reduzido - alguns dão até isenção temporária para atrair empresas.
Tudo para arrecadar verba que, se não for para colocar na Suíça, no mínimo é para políticas assistencialistas/paternalistas.
Sim, o Rio de Janeiro acabou. A população criminosa está finalmente alcançando a não-criminosa em termos de números. Logo seremos meio a meio."

22.2.03

Pedinte

A solidão lateja hoje. Tum-tum-tum.
Cada têmpora é um latão desgovernado
cheio de sangue arterial
descendo por paralelepípedos cercados de espinhos.

Amiga querida, eu preciso muito de você.
Me empresta uns centavos do seu amor?
Só um trocadinho, vai.

Está tão cinza-chumbo aqui.
Beije minha boca, por favor.
Faz de conta que eu sou aquele canalha
que você secretamente idolatra.

Colo. Seu colo quente para debelar o tremor.
ah, como eu tenho sonhado com ele.
Seja gentil, só esta noite.
Disfarce sua beleza e crueldade.
Finja que eu não te amo desde o Gênesis.

21.2.03

April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.


(TS Eliot, "The burial of the dead")

20.2.03

Vamos cantar, moçada ;-))

Os belicistas -- "Já sei Bombardear"
(W. Bush, Collin Powell)

Já sei bombardear,
já sei armar o missil
agora só me falta atirar
já sei invadir, já sei peitar a ONU agora só me falta explodir

Não tenho paciência pra negociação
eu tenho é mania de perseguição

Não ouço ninguém,
acuso todo mundo o Bin Laden e o Hussein
Não livro ninguém,
exploro todo mundo, acho que o mundo é meu também

Já sei derrubar,
já sei jogar a bomba na tua base militar
Eu sou o juíz,
e não tô nem aí pra tantas vidas de civis

Peguei experiência com o Afeganistão
Se antes eu falhei, agora num erro não.

Não ouço ninguém,
até o Collin Powell tá igual a mim também
Não livro ninguém,
primeiro o petróleo depois Amazônia também

Eu tô querendo, Saddam Hussein
Eu tô querendo, tudo o que tiver
Tô te querendo, não tem pra ninguém
Tô te querendo, petróleo do Hussein...

19.2.03

Receita de madrugada de carnaval

O vestido vermelho
as franjas perto de seus seios arrebitados
o campinho cercado de árvores
a cerveja derramada
o beijo suado, trêmulo, molhado
as marchinhas no salão de background.

A conversa sinuosa sobre o outro em sua vida
o desejo de se entregar e esquecer
os jogos de psicologia barata
as carícias ardentes.

O passar desapercebido das horas.
A manhã
a banda descendo em direção à lagoa
seu último abraço, apertado, alegre-triste.

Ah! musa efêmera dos festejos da carne,
seu nome se perdeu na neblina do tempo,
mas não seu toque, sua pele, sua língua,
que até hoje batucam, doces, em meu cérebro.

18.2.03

Cortesia de mestre C@t: o primeiro bug da história, de 1945.


14.2.03

Carta aberta a meus credores
(com exceção de M. N., o único agiota de coração mole do cosmo)

Ó corvos de plantão!
Ó gralhas sem cor nas cornijas da infâmia!
Ó sorrisos invisíveis de hienas!
Ó cupins e traças e vermes e todas as criaturas rastejantes!
Dizei!
Dizei de uma vez por todas se desejais meu sangue,
que hemácias, leucócitos e plaquetas, tenho-os à farta.

Oh! com mil diabos! O ouro não me aprecia, podeis entender?
Óbolos e dobrões escorregam de minhas palmas
como a amante interesseira da cama no primeiro dia de penúria.

Tomai meu sangue, bebei-o, fazei com ele farofinhas suculentas
e deixai-me esperar por Ela sossegado.
Ah! em algum desses paraísos diáfanos
inventados pelos homens medrosos
o ouro deve valer o mesmo que o caráter de Judas
e ser chutado sem piedade como os reles seixos do caminho.
Maldito ouro!
Maldita mais-valia!
Antes nascer esponja e filtrar a podridão dos oceanos
a visitar-vos com sorrisos falsos e mentiras sérias
e espargir um milhão de explicações perfumadas de insolvência.

Ó abjetos cobradores de call-centers!
Ó amaldiçoados oficiais de justiça!
Ó abutres pestilentos do fisco de todos os séculos!
Só me resta orar para que aqueles que vieram de mim
Jamais tenham de viver, como eu, entre vós.

13.2.03

E depois dizem que a matemática é o pensamento sem dor...

12.2.03

Eis o poema que enviei para a campanha do Flávio (veja post abaixo):

A repetição

Entre os arbustos em chamas
a criança finalmente percebeu
o sentido do horror:
rios de sangue
risos de soldados-estupradores
água suja
e nenhum colo.

Sempre houve deuses da guerra
nas mitologias do mundo
e eu sempre me perguntei
que seres tais deuses governam
depois da terra devastada.

Mas os governos dos homens não aprendem
e nos condenam a repetir a História.
Ah! Cobiça insaciável!
Retira ao menos desta vez tua face de fuinha
do coração dos espíritos fracos da velha águia
e poupa-nos do déjà vu das fauces da Morte.

10.2.03



Veja tudo sobre esta excelente iniciativa contra a arrogância americana aqui.
Depois de quase um mês e meio da família inteira de Wal lá em casa, fiquei pensando que títulos de filmes se adequariam à minha falta de privacidade geral (que, felizmente, está em vias de acabar ;-))

1) 007 -- Um mês não é o bastante
2) Os outros (o retorno)
3) Eu tu ele ela ela e um monte de crianças
4) 13 familiantasmas
5) Noites de casa cheia
6) Fale com elas (pelo amor de Deus)
7) Tudo sobre minha sogra, minha cunhada, minhas sobrinhas...
8) The (endless) hours
9) The sogra remains the same
10) Separações

7.2.03

Cá estamos em 2003, e as sementes da guerra brotam mais uma vez. É como disse Platão: só os mortos vêem o fim das guerras.

5.2.03

Fui ver o segundo "Senhor dos Anéis" e quase dormi, mesmo com batalha de Rohan e tudo. Maldita curiosidade. O livro continua a ser infinitamente melhor.
Já "O chamado" é bem interessante. Um filme que assusta e deixa a gente angustiado. Mas Wal ainda quer esclarecer alguns pontos obscuros que ficamos discutindo no jantar após a sessão. Não os exporei aqui para não revelar nada a quem ainda não viu. A premissa do filme é relativamente simples: uma fita de vídeo que, uma vez assistida, condena à morte seu espectador. Mas a personagem principal quer ir mais fundo na história (é jornalista) e se depara com algumas coisas terríveis.
Por fim, eu e Jessica fomos ver o novo 007 ("Die another day"). Eu ri à beça -- as mentiras da série estão cada vez mais estapafúrdias -- e achei Halle Berry lindíssima. Mas o filme anterior, "O mundo não é o bastante", foi melhor.

4.2.03

Intranqüilo

Amar você
mexe com todas as minhas partículas.
Os fótons da alma dançam inebriados
e, ungidos pelo tesão,
conseguem estar em dois lugares ao mesmo tempo,
o céu e o inferno.

Não existe amor tranqüilo;
ou o coração salta num intrincado balé à beira das escarpas
ou pita, sossegado, o cachimbo do tédio.

A vida é bela no transe do seu beijo
mas esmaece com a distância dos olhares.
O jogo dual me consome e compreendo
que a saída é quedar-me só
e criptografar a torrente de desejo.

31.1.03

Estão na capa do "Daily Mirror" os verdadeiros motivos para o Bush atacar o Iraque:

""I [Shell] Not [Exxon]erate Saddam Hussein From Blame. I Will [Mobil]ise Our Troops and [Jet]s to [Q8] and the Persian [Gulf]. I Will [BP]repared for [Total] War. The Message Is [Amoco]ming To Kick Your Ass, Saddam."
"Abandonai as cavernas do ser. Vinde, o espírito se revigora fora do espírito. Já é hora de deixar vossas moradas.
Cedei ao Omni-Pensamento. O Maravilhoso está na raiz do espírito. Nós estamos dentro do espírito, no interior da cabeça. Idéias, lógica, ordem, Verdade (com V maiúscula), Razão: tudo isso oferecemos ao nada da morte. Cuidado com vossas lógicas, senhores, cuidado com vossas lógicas; não imaginais até onde pode nos levar nosso ódio à lógica."


(Antonin Artaud, "Carta aberta")

30.1.03

Está no Globo de hoje:

"EUA planejam fabricar foguetes nucleares
Robert Matthews
Do Daily Telegraph

LONDRES. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, está prestes a anunciar um projeto que havia sido considerado inaceitável mesmo nos anos da Guerra Fria: o uso de energia nuclear para mover foguetes espaciais."


O mal existe. Não adianta entrar nessa de que mesmo as pessoas más são no fundo boas, etc, etc, etc. Papo furado. O mal existe, e se o noticiário anda tão deprimente nos últimos tempos -- guerra iminente, falta de tolerância geral, assassinatos brutais com requintes de sadismo -- é porque ele está na moda. Aliás, está na moda já faz um tempinho. E é impressionante observar como algumas pessoas são inconscientemente perversas -- é como se a coisa estivesse entranhada nelas, como se fosse um simples hábito. Há muitos anos, ouvi de um conhecido que ele tinha raiva de mim porque eu era, basicamente, uma pessoa boa. Fiquei estarrecido -- e, na verdade, estou até hoje -- ao compreender que ele achava natural ser um filho da puta de vez em quando. É simplesmente escroto demais.

29.1.03

Debate

-- Adoro arte de vanguarda.
-- Tudo bem, mas você entende?
-- Não é questão de entender, é de interpretar.
-- Eu acho que a gente só interpreta algo que foi capaz de, em alguma medida pelo menos, entender.
-- Não é isso... A vanguarda mexe com o caldeirão cultural, é importante.
-- Tudo bem. Mas não precisa fazer isso com o dinheiro do contribuinte.
-- Por que não?
-- Existe algo mais incompatível que vanguarda e governo?
-- Você é um reacionário mesmo.
-- Por quê? Só porque gosto de ver coisas com começo, meio e fim?
-- Os teóricos do teatro alternativo, por exemplo, mexem com idéias, cara, não estão aí para estruturas carcomidas.
-- Não se irrite. Eu até gosto dos textos deles. Pelo menos o que escrevem eu entendo. Já o que encenam...
-- O público tem que participar mais, tem que haver mais interação com o palco.
-- O teatro não é a internet. Na internet é que tem que haver essa interação nivelada. Aliás, a internet é que é de vanguarda. Esse negócio de reinventar a roda no teatro cansa, você não acha?
-- Você precisa ficar mais aberto a experiências.
-- Pode ser, mas que experiências? Existem experiências e experiências, se é que você me entende.
-- Não entendo.
-- Não considero ofender o público, fazê-lo ir para o palco pagar mico e matá-lo de vergonha, por exemplo, uma "experiência".
-- Se dependesse de você, nosso sistema ainda seria geocêntrico.
-- Não exagere.
-- Ah, chegamos. Vamos ver o quê? "Cidade dos Sonhos" ou "2001"?
Pausa.
-- Olha... que tal um jantar naquele restaurante francês? Você come um prato exótico e eu, um filé...


Estive ontem em São Paulo para uma reportagem. Choveu o dia inteiro sem parar. Pelo menos escapei dos piores horários do trânsito e cheguei por volta das sete no Rio. O avião estava cheio de turistas russos, que à medida que descíamos e surgiam o Corcovado e o Pão de Açúcar emoldurando a baía ficavam alvoroçadíssimos e colavam os narizes nas janelas, apontando as belezas cariocas entre exclamações de admiração. É. Apesar da sujeira, da corrupção, da pobreza e da violência, o Rio de Janeiro continua a ser lindo. Mesmo num final de tarde sem graça e nublado como o de ontem.

27.1.03

Olhos tatuados

A Solidão passou
e tatuou meus olhos;
nunca mais me recuperei.

Eu te amei a noite toda
mas o frio volta depois, no escuro,
quando minhas órbitas captam o vazio.
Então caminho pelo corredor
e nos velhos retratos
identifico o desespero
de todas as expressões.

Quem me arrancará este véu?
Quem aspergirá de volta a fé?
A pequena labareda lambe o papel do cigarro
-- ah, como eu desejaria ser consumido assim
pelo fogo branco da Iluminação.

26.1.03

Alvíssaras! Alessandra Archer deu o ar da graça em seu blog, que andava paradinho, e deixou um post enorme por lá, em que, entre outras coisas, confessa que não vive sem rabiscar palavras: "Vivi dias da mais cruel abstinência expressiva, donde concluí: não existe outro lugar, não mesmo, onde eu queira estar que não seja próximo de escrever. É só assim que eu consigo sentir o mundo sorrindo para mim, é só assim que consigo fazer algo que gosto, é só assim que encontro sentido nas coisas, é só assim que posso questionar a chuva que inunda e aceitá-la (...)".

Este Guardião, leitor fiel da Arqueira, não podia estar mais feliz com seu retorno. Vai até retardar algumas execuções ;-))

24.1.03

"Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minha’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi ... "

(Florbela Espanca, "A flor do sonho")
Pessoal, isto é realmente imperdível. E altamente viciante.

23.1.03

Foi toda a vida um homem só.
Achou que a morte lhe faria companhia.
Vestiu um sorriso para a hora da partida,
mas a bainha ficou curta
e viajou com um esgar.

22.1.03

Vi "Minority Report", o sci-fi noir do Spielberg, outro dia. Embora meio previsível, o filme é interessante no quesito possíveis tecnologias futuras. Em especial no momento em que o personagem de Tom Cruise entra num shopping e vários anúncios holográficos, identificando-o pela íris, lhe oferecem produtos diversos. Uma mistura de "cookies" de websites com spam em tempo real. Aquilo, sim, é um futuro realmente assustador... ;-))

17.1.03

Terei um feriado devagar, moçada. O dinheiro acabou e fiquei a ver navios nesse janeiro escaldante. Vou passar sábado, domingo e segunda cantarolando "Cadillac dreams", do Gene Simmons:

I want money, money, that's what I need,
I got Cadillac dreams, please mister don'tcha take it from me
Give me money, money, more than I need,
I got Cadillac dreams waitin' on me...


16.1.03

Excelente chope ontem no Lamas com uma turma animada: Leonardo Pimentel, Cristina Azevedo, Martha Lavenère, Felipe Dias, Jaqueline Barbosa Ramos, minha "personal agent" Ariadne Guimarães e Mônica Arantes. Martha e Pimentel, sempre predispostos a uma boa gozação, estavam com a corda toda e, com a ajuda de Ariadne, as risadas foram constantes. Nada como quebrar a rotina no meio da semana. ;-)

14.1.03

Vi Robert De Niro em dois bons filmes recentemente: a comédia "Showtime" e o policial (está mais para "ladroicial") "A cartada final". No primeiro, ele é um policial rabugento que, após ter uma operação de estouro de ponto de drogas esculhambada pelo colega Eddie Murphy, é obrigado a fazer um "reality show" para a TV local e ganha o próprio Murphy como parceiro na telinha. O contraste entre os dois é hilariante, e o programa não poderia sair mais ridículo. No segundo filme, De Niro é um ladrão de classe, veterano, que é convidado pelo receptador Marlon Brando a dar seu último golpe, junto com Edward Norton. Em jogo, quatro milhões de dólares. Lembra "Ocean's eleven", mas só com dois ladrões ;-).

* * * * *

Mudando totalmente de assunto: vocês viram essa história da família querendo se vender no Ebay? Se a moda pega... Conheço gente que adoraria leiloar a própria família a preço de fábrica...

13.1.03

Amizade ardente

Hoje nosso amor
é como um labirinto obscuro,
cercado de falsos tabus
por todos os lados.

Mas, em meus sonhos,
eu o desejo mais simples,
se espreguiçando na manhã
e passeando sem destino à beira d'água.

Nós fazemos planos demais;
você passa sempre o corretor em mim
-- embora não seja perfeita --
e pensa nos Outros, justamente
aqueles que não existem
quando entrelaçamos as mãos.

Ah! solte os cabelos
e seja curiosa, como antes.
Lembre como tudo começou
-- lembre nossa amizade ardente --
e ore pelo instante, não pela eternidade.

9.1.03

Tia Cora Rónai estreou hoje sua coluna no Segundo Caderno. E estreou com um de meus temas favoritos, livrarias, em especial a Leonardo da Vinci, que amo de paixão como ela. Eis um trecho inspirado da coluna.

"É bom para a alma passear entre as estantes, devagar, observando outras pessoas que fazem a mesma coisa: bípedes calmos flutuando numa bolha de cordial e educada civilidade, felizes por constatarem que ainda há espaço para uma certa área cinzenta da anatomia humana que não se retoca com lipo ou com silicone."

Amém.

8.1.03

O amor, depois

Descobri ser possível
domar as feras da paixão
mas não as razões do amor.
Elas permanecem, com seu sorriso fleumático
(e às vezes troceiro)
no quarto de badulaques da memória.

Por isso, toda vez que te olho,
a linha de comando "ainda te adoro"
navega sub-reptícia
pelos neurotransmissores levados da breca.

Aí chega a srta. Séria,
censora molecular, psicorgânica
e, com um gesto definitivo,
encerra a brincadeira do desejo.

Mas, minha cara, ela nada pode contra um poema.
E eis-em aqui, livre de refluxos,
olhando teus lindos ombros
e tentando derreter tua tristeza com frivolidades,
mas dizendo com minhas órbitas
"jamais vou deixar de amar-te."

6.1.03

Vou dizer: uma das coisas mais irritantes da TV por assinatura é você acompanhar um seriado e, no meio dos feriados de fim de ano, só encontrar reprises ou a programação totalmente modificada sem aviso. É um desrespeito ao assinante. Isso não acontece nas novelas da TV aberta e jamais deveria acontecer no caso de canais que você paga para assistir.

3.1.03

Passagem

Nada de crises de consciência.
Nada de resoluções.
Nada de cores, nem simpatias.
Só a tépida água azul
e teu corpo em doces refrações
aniquilando as tropas da culpa
com a boca.

2.1.03

Estou de volta. Hoje vão aqui umas poucas linhas, que estou de trabalho até o pescoço, como sói acontecer depois de qualquer descanso prolongado. Mas basta dizer que o natal foi calmo, só eu e Wal curtindo filmes em casa, e a passagem de ano foi numa festa relativamente íntima, bem longe de fogos de artifício e multidões. Um começo de ano gostoso e sem pressa, como deve ser. Espero que todos tenham curtido muito.
Logo, logo, novos versos vão aparecer por aqui.

20.12.02

Vou dar uma descansada nas próximas semanas. Portanto, feliz Natal e excelentes agitos no Ano Novo a todos os amigos deste Cadafalso!!!!



19.12.02

Ontem tive o privilégio de conhecer mais uma habitante do bloguniverse: a Alê, com quem já trocava emails esporádicos há algum tempo. Ela é gente finíssima e, ao sabor de chopes e caipirinhas, falamos de tudo: música, shows, trabalho, textos, e, é claro, internet e blogs, um assunto recorrente entre os iniciados neste vício virtual ;-). Alê já conhece, entre outros blogueiros, minha cara Mary Fabriani, que quero muito encontrar um dia e que já esteve aqui no Rio em setembro, justamente quando eu estava de férias, viajando. Vamos ver se na próxima dá. Ou de repente acabo na Suécia um dia, afinal essas viagens de trabalho levam a gente para onde menos se espera...
Também fiquei sabendo que, da galera do Grown Up Women, com quem ela bloga em conjunto, a maioria não se conhece. Tem gente no Rio, SP e Minas. A web faz dessas maravilhas.
Foi ela que me mandou este complemento sobre o post etílico aí de baixo, do companheiro Baudelaire:

"Devemos andar sempre bêbados. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são:'São horas de te embriagares!' Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto."

Garçom, mais um!!!!!!!!!!!!!!

17.12.02

Como o fim do ano está chegando, e as libações tendem a aumentar, eis algumas observações sobre a bebida. ;-)

"Bebe! Pois não sabes de onde vieste, nem por quê.
Bebe! Pois não sabes por onde te vais, nem para onde."
(Omar Khayyam)

"A embriaguez não cria vícios. Só os põe em evidência."
(Sêneca)

"O uísque é o melhor amigo do homem. O uísque é o cachorro engarrafado."
(atribuída a Vinicius de Moraes)

"Nas vitórias é merecido. Nas derrotas é necessário."
(atribuída a Napoleão, sobre o champanha)

16.12.02

Um pouco de Keats, o homem cujo nome foi escrito em água:

Nymph of the downward smile and sidelong glance!
In what diviner moments of the day
Art thou most lovely? when gone far astray
Into the labyrinths of sweet utterance?
Or when serenely wandering in a trance
Of sober thought? Or when starting away,
With careless robe to meet the morning ray,
Thou sparest the flowers in thy mazy dance?

14.12.02

Poema para a Catedral de Santo Estêvão
(Viena, 1995)


Eu que faltei à primeira comunhão,
e preferi um Deus mais companheiro e mal vestido
com quem prosear (quase) todas as noites,
tremi diante do Poder gótico
ao penetrar em ti no século passado.

Longilínea e sombria
Envolveste minhas pupilas
no bolor de oitocentos anos
e pude ouvir o clang-clang
dos cavaleiros se ajoelhando, enlameados,
em preces nalgum gélido alvorecer.

No caminho ascendente para o púlpito,
lagartos, sapos e cães pétreos em ricos símbolos;
nos flancos do altar,
gigantescas tumbas das ambições dos homens;
nos bancos, o povo, apressado, persignando-se
desprezando tal naco de Idade Média
encravado nos dentes do tempo.

Ali, minha espontaneidade e despojamento tremeram
e compreendi que um dia houvera um outro Deus
que punha a humanidade em seu devido lugar.
Ah, e ele ainda preferia se refugiar ali
a vagar pelas horrrendas construções espelhadas do futuro
em que o homem só mira a si mesmo.

13.12.02

Finalmente comprei e li num átimo "O Álbum de Oscar Wilde", em que seu neto Merlin Holland escreve uma breve biografia do avô que não conheceu e a reúne a uma impressionante coleção de fotos, desenhos e caricaturas da vida do genial escritor irlandês. A maioria eu conhecia de outras biografias que li, mas tem umas que dão vontade de a gente estar lá, ouvindo Wilde narrar ao vivo e a cores suas histórias, algo que ele quase sempre fazia antes de escrevê-las. A arte da conversa é algo raro e quando o lemos ou assistimos a suas peças só podemos lamentar não ser contemorâneos de tal figura.
Há especialmente algumas fotos de uma festa na casa de campo dos Palmer em setembro de 1892 em que se pode vê-lo conversando animadamente, sem posar, como era comum nos retratos da era vitoriana.

12.12.02

Ando com saudades do Hélcio e da galera da banda, já que estou sem tocar desde o mês passado. Soube que ele está tocando no Lido, em São Francisco, Nikiti City, e pretendo vê-lo amanhã. Também vou descobrir onde tocam Tony Corrêa e a bela Mariana, para dar uma relaxada. Só espero que a chuva que anda caindo estes dias dê uma folguinha ;-)
Por falar nisso, minha guitarra foi roubada. No último show com a banda, saí antes deles no fim da noite e deixei a guitarra no palco, pronta para ser guardada no carro do Hélcio. Acabou que eles a esqueceram lá e ela desapareceu. Vou ter que descolar uma nova. E cadê money?

10.12.02

Vem

Não existe meio beijo,
nem meia atração;
só o que há
são universos indivisíveis
chocando-se nas mesas do bar.

Portanto não podes ter uma parte de mim
-- eu tenho de vir inteiro
e tomar tua respiração de pronto.
A meia labareda que almejas
vem do fundo do vulcão
e é uma com a Terra.
Não podes provar-lhe só um pedacinho.

É hora: vem.
Eu não posso mais esperar.
Tudo! Tudo! Tudo por uma breve comunhão contigo!
Ela bastará para a nau do cosmo passar por nós
e içar-nos a bordo.

9.12.02

Antes de mais nada, gostaria de agradecer a todos os que deixaram aqui e no Cadafalso II mensagens pelo meu aniversário. Muito obrigado mesmo. Estou de volta do delicioso sol de San Diego e me reacostumando a esse calor terrível do Rio. Mas é bom estar aqui e rever os amigos, de quem estava com saudade.
A festa na Spin sob o comando do super Gustones foi uma delícia. Dancei até quase as cinco da manhã, e teve de tudo no som: Led, Elvis, Kiss, AC/DC, Stones, Who, Police, muito soul e guitarras gostosas. Marcos, o batera do Estrada Fróes, esteve na área; também meu velho companheiro de Rock in Rio I e muitos shows nos anos 80 Leonardo Pimentel, emérito escriba; a galera do InfoEtc, muito bem representada por Marcelo Balbio, Luiza, Maggi e Elis; minhas amigas Martha Lavenere, Jaqueline Barbosa Ramos e Daisy Chaves; e minha querida Jaqueline Morim, que me conhece desde os sete anos de idade e atravessou todas as fases de minha vida como um anjo, sempre doce e constante. O animado Maloca também apareceu e tomou todas, como de costume. Feroli, Julinho Castaneda, André Mansur, minha short-story partner Crib Tanaka (que aniversariou dia 30) e o gente-fina Stanley foram outras presenças.
Alessandra Archer estava absolutamente linda e também comemorou seu niver até o fim da noite, dançando e agitando todas, ao lado do namorado Marco e de suas amigas Cristiane e Patrícia, a quem tive a honra de ser apresentado. Enfim, nós nos divertimos às pampas e já estou esquentando as turbinas para o pré-reveillon que o Gustavo está armando na Spin para esta sexta-feira.

2.12.02

E me aguardem, que sexta estou de volta para a festa!
Este eh um post direto de San Diego, California. Estou a bordo de um notebook Compaq Arnada conectado com a internet sem fio por um card CDMA 2000 1x e aproveito para dar esta blogada basica, sem acento, como diria o Jo Soares ;-)) Tenho ao lado os coleguinhas Jo Elias e Augusto Goes Tirre. Passamos o dia numa serie de apresentacoes sobre a tecnologia CDMA e seus derivados. Amanha mergulharemos no agito do CDMA Americas, para saber as ultimas novidades, que depois contarei a vcs. A costa do Pacifico eh soberba e o sol brilha, mas faz frio e anoitece por volta de cinco e meia da tarde. Nada, entretanto, tira o charme do skyline de San Diego, um dos mais belos que jah vi.
Depois escrevo mais. Ateh.

28.11.02

Este post vai com antecedência porque estarei viajando a partir de amanhã. Volto semana que vem, a tempo para a festa.

Como já disse aqui, vou comemorar meus 40 anos dançando ao som de muito rock and roll. Também comemorará seu niver minha querida Alessandra Archer. A festa vai ser na semana que vem, sexta-feira, dia 6 de dezembro, na Spin, a partir de cerca de 22h30, onde o DJ será meu chapa Gustavo de Almeida, rocker dos bons. A Spin fica na rua Teixeira de Melo, 21, em Ipanema. É a primeira transversal logo que se chega na praia. O ingresso custa R$ 5, a consumação, R$ 7.
A propósito, eis as músicas nas paradas dos EUA de 4 décadas atrás:

Telstar by Tornadoes
Big Girls Don't Cry by Four Seasons
Peppermint Twist by Joey Dee & the Starliters
Hey! Baby by Bruce Channel
I Can't Stop Loving You by Ray Charles
Duke of Earl by Gene Chandler
Sherry by Four Seasons
Roses Are Red by Bobby Vinton
Soldier Boy by Shirelles
The Twist by Chubby Checker

Falta menos de uma sema para os "enta"... Contagem regressiva ;-))

25.11.02


Do calor da batalha saltei para os campos elíseos
e lá teus olhos cauterizaram minha alma desorientada;
Pobre de mim, eu que esquecera tua boca ebuliente
e troquei nossa vila, quando morreste, pelas hostes selvagens.

E no anonimato das coortes
minha espada bebeu do sangue de muitos
em terras que depois de nossa passagem
chamaram de devastadas;
tornei-me um soldado obtuso, brutal,
e dentro de mim se esfumaram
as lembranças de teu corpo nu
e de tuas palavras sussurradas
à sombra dos ciprestes.

E só agora, colhido num golpe traiçoeiro,
como que ressuscito para cair em teus braços
e me tornar novamente um homem completo.

22.11.02

O Gustones já pôs no blog dele e eu começo a reforçar aqui. Dia 6 de dezembro, uma sexta-feira, vou comemorar meus 40 aninhos (a data oficial é 4/12) na Spin (R.Teixeira de Melo, 21, Ipanema), com o próprio Gustones como o super-DJ. Também comemorará seu niver junto comigo minha grande amiga Alessandra Archer. Pretendo iniciar meu caminho nos "enta" dançando a noite toda ao som de muito rock and roll. No fim da semana que vem farei um post oficial sobre o agito.
Estava lendo hoje o Dapieve no Globo e no finalzinho ele recomenda a série "As Cruzadas" apresentada pelo ex-Monty Pithon Terry Jones, que o Discovery Channel está reprisando (ela também passou no People+Arts). Realmente, o documentário é sensacional: Jones refaz o trajeto dos cruzados enquanto conta a história com um humor e uma visão ímpares. Há tempos li um calhamaço sobre o tema, que enfoca as primeiras expedições ao Oriente Médio e os anos do reino franco-cristão no Oriente após a queda de Jerusalém (foi um verdadeiro massacre) em 1099.
Aliás, vale refletir hoje sobre a história das cruzadas, porque, não sei se vocês já se deram conta, mas neste começo de século XXI os infiéis agora somos nós, ocidentais, sobre quem paira a cimitarra do Islã. Ai de quem pensava que o fim da Guerra Fria traria suspiros de alívio ao planeta. Que nada -- a tal nova ordem anunciada por Bush pai está redundando nisso. Imagine quando esse congresso américo-republicano tomar posse em Washington.

21.11.02

Ontem eu e Wal levamos Rebeca, nossa filha caçula (sete anos), ao cinema para ver "Pequenos espiões 2". Jessica, a mais velha, estava viajando desde segunda com a turma da escola num hotel-fazenda em SP (o retorno era ontem no fim do dia e o ônibus só chegou a Niterói meia-noite, quando já estávamos arrancando os cabelos de preocupação ;-))). Mas tudo acabou bem).
O filme é uma bobagem só, bem infantil mesmo. Rebeca, é claro, adorou e riu horrores (eu também ri muito, confesso). Quem fez o maior sucesso foi Ralph, a baratinha eletrônica que serve de assistente ao irmão caçula da dupla de pequenos espiões. Ei-la:



A baratinha já virou brinquedo vendido na Amazon e pode ser baixada como virtual pet no site do filme.

17.11.02

"O ridículo não existe; os que ousaram desafiá-lo de frente conquistaram o mundo."

(Octave Mirbeau)

16.11.02

Na baía

Meus pensamentos cortam as águas
junto com a velha embarcação.
O vento leva meus cabelos para trás
exatamente como você fez
no último instante
delicadamente.

Olho as montanhas preguiçosas ao sol
e eis que suas formas surgem beijando o azul;
que doce obsessão.

Oxalá fosse mil e quinhenhtos e pouco;
oxalá visse a baía cristalina e povoada sob as ondas;
assim, em outro tempo,
nada haveria a cicatrizar
e eu seria livre entre os simples.

Mas ainda não descobriram as fímbrias do tempo para puxá-las
e tenho de me conformar
e embalar minha saudade na travessia.

14.11.02

Um beijo especial do Guardião deste Cadafalso para a Miss Daisy, cujo Turista Acidental fez anos dia 11!
Parabéns e muitas blogadas de vida!
Estou sem tocar desde o final de outubro, aguardando uma chamada do meu parceiro Hélcio, que está trocando seus locais de trabalho. Não vou mentir: faz uma falta danada pegar na guitarra e mandar ver. Ainda mais que os shows com a banda Swing Rio estavam animados, com Marcos na batera, Tony no solo, Juninho no baixo e a Mariana no vocal.
Uma vez que você experimenta a música, o palco, a adrenalina de um show, está fisgado para sempre. Não importa se vai ser físico nuclear ou neurocirurgião depois, as notas ficam dentro da alma até o fim. Eu não ligo para fazer gravações, arranjar detalhes, etc e tal. Gostava de compor (quando ainda tinha inspiração para isso, compus um monte de músicas, praticamente todas as de minha velha banda, o Estrada Fróes. O Hélcio sabe todas de cor até hoje, mas eu já esqueci muita coisa... ) e gosto de tocar ao vivo.

12.11.02

Um grito materialista, mas belo, de Álvares de Azevedo, olhem:

"Calai-vos, malditos! a imortalidade da alma? pobres doidos! e porque a alma é bela, porque não concebeis que esse ideal posse tornar-se em loco e podridão, como as faces belas da virgem morta, não podeis crer que ele morra? Doidos! nunca velada levastes porventura uma noite a cabeceira de um cadáver? E então não duvidastes que ele não era morto, que aquele peito e aquela fronte iam palpitar de novo, aquelas pálpebras iam abrires, que era apenas o ópio do sono que emudecia aquele homem? Imortalidade da alma! e por que também não sonhar a das flores, a das brisas, a dos perfumes? Oh! não mil vezes! a alma não é, como a lua, sempre moça, nua e bela em sua virgindade eterna! a vida não é mais que a reunião ao acaso das moléculas atraídas: o que era um corpo de mulher vai porventura transformar-se num cipreste ou numa nuvem de miasmas; o que era um corpo do verme vai alvejar-se no cálice da flor ou na fronte da criança mais loira e bela. Como Schiller o disse, o átomo da inteligência de Platão foi talvez para o coração de um ser impuro. Por isso eu vo-lo direi: se entendeis a imortalidade pela metempsicose, bem! talvez eu creia um pouco: — pelo Platonismo, não!"

("Noite na taverna")

8.11.02

Da "Balada do Cárcere de Reading", de Wilde:

"No cárcere de Reading junto a Reading Town
Há um fosso de má fama,
E nele jaz um desgraçado a quem devoram
Cruéis dentes de chama.
Jaz num sudário ardente, e o mísero sepulcro
Seu nome não proclama."

7.11.02

O gesto

Dedilhou-a
como quem experimenta o primeiro acorde;
suas mãos tremeram
e houve alguma dor no som abafado do choque de espectros.

Mas a frase seguinte foi mais doce
e ele se viu pensando em cantar
(não fosse ela rir da ousadia)
enquanto a abraçava, comovido.

Pois ela enxergara
a fenda em sua alma
e não tivera medo de se atirar nela.

Como não amá-la até a última reencarnação?

6.11.02

É hoje. Um ano deste Cadafalso! Com bolo e tudo!

5.11.02

Vocês devem estar se perguntando porque a mexida geral, tanto aqui quanto lá no Cadafalso II.
Na verdade, já anunciei o motivo, discretamente, no outro blog. Amanhã, dia 6/11, é o aniversário deste Comentários e Versos do Cadafalso. No fim da tarde deste dia, em 2001, minha amiga Elis me flagrou montando a página e fez uma algazarra na redação, pois vinha me incentivando a cair na blogagem fazia um bom tempo. Deu no que deu. De lá para cá, fiz amigos e amigas e o escrevinhar diário (ou quase) destas linhas me inspirou a criar poemas, minicontos e até uma blognovela. Queria agradecer efusivamente aos que visitam este Guardião e trocam idéias com ele. Um brinde a todos vocês.
Eis aqui o primeiro poema que publiquei em 6 de novembro de 2001, o pontapé inicial de uma jornada que espero, de algum modo, não tenha fim. Porque podemos ser finitos, limitados por este cadafalso terrestre, mas o que toca nossas almas não é.

Bordado

E tudo fica imperceptivelmente quieto
E eu fico só
Bordando uma poesia quieta.
Não percebo quando chegas
Mas sei que não pretendes falar-me
Bem sei que não pretendes falar-me
E assim prossigo no vaivém da agulha.
Então, quando a cera da última vela se derrete,
E, missão cumprida, faço que vou me levantar,
Deténs-me e beijas-me as pálpebras pesadas
E, antes que eu possa retribuir,
Voltas a ser apenas chuva.
O que me resta então
Senão voltar a bordar poesias?
"Amar é mudar a alma de casa".

Mário Quintana

1.11.02

A Vida entrou no restaurante
e deixou a chuva lá fora.
A Beleza ria; o Prazer acendia seu cigarro
enquanto lhe sussurrava uma história.

Só o Tempo olhava de um canto,
batucando ritmadamente na mesa.
Mas ninguém lhe deu atenção.

Então veio a Música
e misturou todos os convivas
ora lânguida
ora rápida e contagiante
ora triste e nostálgica
ora solene.

Vendo o baile, o Tempo decidiu não mais passar
e foi embora dali.
E é por isso que hoje,
quando nos sentamos ao redor de uma mesa
e admiramos nossas amigas
e rimos com todas as bobagens que rodopiam pelo ar
e dançamos
e nos sentimos vivos após uma semana estafante,
agarramos um pedacinho da eternidade.
E nossa alma baila diáfana e vaporosa pelas esferas fora dos relógios.
Minha amiga e short-story partner Crib Tanaka acabou de virar colunista do site Bolsa de Mulher. Ela merece, pois é uma das pessoas mais legais que conheço. Este Guardião lhe deseja muito sucesso, Cribaby.

31.10.02

Bom estar de volta ao Rio. Estive em Florianópolis, cobrindo a Futurecom, baita evento de tecnologia. Estou morto de cansaço e louco para o fim de semana chegar. Trabalhei horrores, mas pelo menos deu para curtir um pouquinho a noite em Floripa, que tem um ritmo meio "baiano" de ser, embora esteja no Sul. Jantei com algumas das coleguinhas mais legais do país, e rimos muito, falamos bobagens... A volta é que foi fogo: Florianópolis-Porto Alegre-Rio. Choveu, os vôos atrasaram, e só consegui pôr a cabeça no travesseiro, em casa, lá pelas duas da madruga. Só vou descansar mesmo no sábado. Mas faz parrrrrrte. ;-))

28.10.02

Fui a duas festas deliciosas no sábado.
Mas a de domingo foi a festa mais bonita que já se viu na Terra Brasilis.
Lula lá.

25.10.02

Try (just a little bit harder)

Queria que me amasses só mais um pouco:
O suficiente para trocar de pele e de vida.
Vejo o desejo em teus olhos
Mas não em tuas mãos imóveis.


Raiva

Como dói ser possuído pela ira
E senti-la prestes a rebentar-se nas têmporas.
Sob a face pálida do embaixador
reside uma violência imaculada, intocada

Justamente a que entra em erupção sem aviso
e jorra palavras de enxofre.

23.10.02

Não vou mais começar o show sozinho hoje em Vila Isabel. Hélcio chegará a tempo (vamos começar um pouquinho mais tarde, por volta das nove). Mas estaremos na área!

21.10.02

Lord Alfred Douglas é apontado por muitos estudiosos como o responsável pela ruína de Oscar Wilde. E ao que tudo indica, o jovem nobre que foi objeto da afeição do grande escritor tinha mesmo um temperamento terrível, que se prolongou até sua velhice (ele sobreviveu a Wilde por 45 anos). Mas não se iludam: foi o próprio Wilde que cavou sua derrocada, desafiando a sociedade vitoriana até o fiim, num processo autodestrutivo. A idéia de que Douglas arruinou o escritor foi em parte alimentada pela própria carta que Wilde lhe escreveu da prisão, "De Profundis", e também por amigos do esteta que detestavam Bosie (o apelido de infância de lord Alfred).
No meio desse turbilhão, muitos se esquecem das qualidades de Douglas como poeta, apontado por alguns como melhor, inclusive, que o próprio Wilde nessa área. Realmente, ele escreveu alguns poemas de rara beleza e extremamente musicais. Eis exemplos:

A Summer Storm

Alas! how frail and weak a little boat
I have sailed in. I called it Happiness,
And I had thought there was not storm nor stress
Of wind so masterful but it would float
Blithely in their despite; but lo! one note
Of harsh discord, one word of bitterness,
And a fierce overwhelming wilderness
Of angry waters chokes my gasping throat.

I am near drowned in this unhappy sea,
I will not strive, let me lie still and sink,
I have no joy to live. Oh! unkind love!
Why have you wounded me so bitterly?
That am as easily wounded as a dove
Who has a silver throat and feet of pink.


* * *

Night Coming Into a Garden

Roses red and white,
Every rose is hanging her head,
Silently comes the lady Night,
Only the flowers can hear her tread.

All day long the birds have been calling,
Calling shrill and sweet,
They are still when she comes with her long robe falling,
Falling down to her feet.

The thrush has sung to his mate,
“She is coming! hush! she is coming!”
She is lifting the latch at the gate,
And the bees have ceased from their humming.

I cannot see her face as she passes
Through my garden of white and red;
But I know she is walking where the daisies and grasses
Are curtseying after her tread.

She has passed me by with a rustle and sweep
Of her robe (as she passed I heard it sweeping),
And all my red roses have fallen asleep,
And all my white roses are sleeping.


* * *

The Dead Poet (relembrando Wilde)

I dreamed of him last night, I saw his face
All radiant and unshadowed of distress,
And as of old, in music measureless,
I heard his golden voice and marked him trace
Under the common thing the hidden grace,
And conjure wonder out of emptiness
Till mean things put on beauty like a dress
And all the world was an enchanted place.

And then methought outside a fast locked gate
I mourned the loss of unrecorded words,
Forgotten tales and mysteries half said,
Wonders that might have been articulate,
And voiceless thoughts like murdered singing birds.
And so I woke and knew he was dead.

20.10.02

Na próxima quarta-feira acontecerá algo inusitado no ChoppGol de Vila Isabel: vou começar o show sozinho, sem o Hélcio. Ele estará tocando num evento no Riocentro e chegará um pouco mais tarde, de modo que terei de pegar a guitarra e segurar a peteca por uns quarenta minutos. Rapaz, vou dar uma ensaiada na véspera. Tocar junto com uma banda é uma coisa, eu não fico nervoso e sou até bem cara-de-pau no palco. Mas sozinho dá um friozinho na barriga.
Não que não tenha feito isso antes. Já fiz. Mas tem algum tempo. E, se nos tempos do Estrada Fróes, minha velha banda, eu era o cantor principal, além de guitarrista, hoje essa função é do Hélcio (afinal, ele permaneceu na estrada musical todos esses anos).
Mas acho que vai ser divertido. Será, como sempre, a partir das 20h, na rua Felipe Camarão, 8, em frente à Uerj.

19.10.02

Estamos no século 21 e veja o que a doce Mary Fabriani escreveu, revoltada, no seu Montanha Russa:

"Tudo por um poema

Uma das coisas mais legais de se viver num país como a Suécia não é apenas conhecer características e maluquices do povo sueco. É muitíssimo interessante também entrar em contato com gente dos países mais variados, como Bósnia, Irã, Vietnã, Turquia, Rússia e até Iraque. A convivência, claro, não é lá muito fácil. Afinal, somos todos muito diferentes. Mas, mesmo não sendo refugiada de guerra eu ainda sou imigrante e algumas pessoas têm histórias que merecem mais atencão.

Uma dessas pessoas é o meu amigo Farshid, que é iraniano. Esquecam todos os esteriótipos de árabe machista (até porque os iranianos não são árabes, mas persas): o Farshid é um amor de criatura, muitíssimo inteligente e engracado. Ele veio pra Suécia há quase quatro anos atrás, fugindo de uma milícia que rondava a universidade onde ele estudava em Teerã. O que ele fez? Escreveu um poema no qual criticava o governo dos Aiatolás. Claro que não assinou o poema, que foi colocado num quadro de avisos da universidade. Alguém descobriu quem o tinha escrito e ele teve de fugir no meio da noite.

Pois bem, o negócio é que o governo da Suécia acabou de negar o visto de permanência do Farshid e ele terá de deixar o país dentro em breve e voltar para o Irã. Me encontrei com ele no colégio na semana passada e ele estava desconsolado. Eu sinceramente não entendo. O governo sueco precisa de gente para trabalhar exatamente no servico feito pelo Farshid, que é enfermeiro. Fala-se inclusive em importar mão-de-obra para certas áreas nas quais há falta aguda de profissionais e a profissão de enfermeiro é uma delas.

Para se defender durante o julgamento do seu caso, Farshid e seu advogado sueco conseguiram um fax enviado por seus amigos iranianos confirmando que a cacada realemente aconteceu e que Farshid não pode voltar para Teerã sem arriscar anos e mais anos na cadeia ou então morte imediata. Estilo Salman Rushdie. Uma das pessoas que estavam julgando o pedido de asilo político argumentou que o fax "não tinha sequer um envelope". "Mas como é que eles querem que meus amigos enviem uma carta pra mim se absolutamente tudo no Irã é censurado?", pergunta Farshid.

Acho fantástica essa abertura do governo sueco no sentido de abrigar dezenas de milhares de refugiados de guerra - gente nem sempre qualificada que se não fosse por países com uma política de paz exemplar como a Suécia morreria antes mesmo de tentar se salvar. O que eu critico é que esse abrigo seja tão parcial. O Farshid sabe muito bem sueco, se comunica e trabalha todos os dias. Ele não vive do dinheiro do social, muitíssimo pelo contrário. Além do mais, desde que chegou aqui já fez vários cursos para poder falar sueco e para poder trabalhar como enfermeiro. Por que jogar tudo isso fora?"


Este blog se solidariza incondicionalmente com o amigo de Mary, Farshid, e torce fervorosamente para que ele possa viver uma vida livre e escrever poemas livres em algum país com o mínimo de bom-senso sobre esta Terra maltratada. Este Guardião ora para que um dia Oriente e Ocidente se vejam livres de regimes parciais, tirânicos, fanáticos ou simplesmente estúpidos.

18.10.02

Little Rose
Little Boy
Little hope.
Quarta-feira, após o jogo, o ChoppGol de Vila Isabel teve de cerrar suas portas às pressas por causa das brigas de torcedores após o jogo Vasco e Flamengo. Houve confusão no ponto de ônibus em frente à Uerj e tiros para o alto. Eu e Hélcio ficamos presos no bar por algumas horas. E o show acabou mais cedo.

15.10.02

Estou lendo "Crônicas efêmeras" (Ateliê Editorial), reunião dos artigos escritos por João do Rio na "Revista da Semana" ao longo de todo o ano de 1916. Separei alguns trechos sensacionais para pôr nos blogs. Eis o primeiro deles, de uma crônica em que o célebre blagueur espinafrava o governo Wenceslau Brás a respeito do monte de impostos diferentes cobrados na época (soa familiar?). A certa altura, João do Rio não agüentou e resolveu, cheio de ironia, sugerir mais algumas taxas...

"1o. -- Imposto sobre a tolice parlamentar. Cada deputado que fizesse um discurso asnático, cada deputado que apresentasse um projeto inútil teria imposto.

2o. -- Imposto sobre os cargos ocupados por pessoas não têm competência para os ditos cargos. Como a extravagância do Brasil é nomear errado, creio que esse imposto seria de chofre a causa da remodelação do país. (...) As demissões seriam em massa para não pagar o dito imposto.

3o. -- Imposto sobre a elegância. Taxa sobre os five-o'clocks anunciados pelos jornais. Toda a falsa elegância desapareceria, para não pagar imposto.

4o. -- Imposto sobre os amadores literários. Cada artigo com mais de vinte erros, taxa fortíssima. Seria a ressurreição da literatura, ao cabo de certo tempo.

5o. -- Imposto sobre os cavalheiros que discutem finanças."

Lembre-se, caro leitor: o texto é de 1916, hein?

11.10.02

Sobressalto

Quando acordei você não estava;
havia apenas o ressonar suave da solidão a meu lado.
A cama ainda exalava seu cheiro
e meu coração batia no compasso
dos galhos trêmulos contra o vidro da janela.

Então choveu em meus olhos -- uma chuva ácida --
e minha boca mal vestida pela barba irrigada tremeu
como o jovem ramo no peitoril.
Recostei-me e cerrei as pálpebras, as mãos resignadas
a acarinhar o lençol.

Foi aí que ouvi sua voz
e seus passos
e o swish-swish da camisola
(tão gostoso quanto o comecinho de um jazz)
e sorri.

10.10.02

Ontem, no ChoppGol de Vila Isabel, recebemos a visita supimpa de dois blogcompanheiros: Mr. Stanley e Mr. João M. Batemos divertidos papos sobre música e futuros blog-encontros. Isso melhorou um pouco meu astral esta semana, que está meio devagar.

9.10.02

Não sei se contei isso a vocês. Outro dia estava na rua São José tratando de uns negócios musicais quando ouço uma guitarra ensandecida no meio da praça, ali perto da Rio Branco. Não era CD. Fiquei procurando de onde vinha o som, hipnotizado, até que descobri um sujeito tocando horrores embaixo de um guarda-sol, enquanto dois outros caras vendiam seus CDs, de rock e blues. Só instrumentais, nada de voz. Era o guitarrista Sérgio Bap.
O cara simplesmente faz miséria com as seis cordas. Fiquei ali paralisado uns vinte minutos vendo-o viajar no braço da guitarra. Comprei um CD imediatamente.
Se eu não tivesse um compromisso, acho que tinha ficado ali parado até anoitecer.
Esse é o poder da música.

7.10.02

A praia

Enquanto afundava nas águas cristalinas
Olhei o anel que me deste, agora estranhamente verde.
Eu que sempre amei o mar
Vou agora dar braçadas pela eternidade.

Egoísta, pensei que poderias estar comigo.
Mas para quê, se tu és a vida em todas as suas nuanças?
Eu sim, eu beijei a morte cedo:
ela me acariciou logo após o tapinha sorridente do obstetra.

E hoje, nesta manhã perfeita
eu encontrei o arrecife perfeito
e dele não me quis desviar.

Então, adeus: não me queira mal
por abandonar a peça no segundo ato.
Não tem jeito, vamos ter que respirar fundo e decidir a partida no segundo turno para presidente. Fiquei até as duas da madruga de hoje roendo as unhas (não de verdade, mas mentalmente) em frente à TV e, a cada boletim, me irritava mais. ;-) Não importava o número de urnas apuradas, Lula não saía dos 46%, nem Serra dos 23%. Quando chegamos a 84% das urnas apuradas, desisti.
As próximas três semanas vão ser um teste para o coração e os nervos.
E aqui no Rio, para completar, a gente acordou com uma ressaca rosinha...

4.10.02

Valeu a pena ter descansado na quarta. O show da banda Swing Rio ontem foi uma delícia. Mariana, a vocalista, e eu dançamos quase sem parar, devo ter perdido um quilo no palco ;-) O banner gigante que mandei fazer para a banda também está pronto, devo ir pegá-lo na segunda-feira.
Por outro lado, preciso marcar um som urgente com o Aerosilva. Estou morto de saudade daquele roquenrou visceral-etílico.

3.10.02

Boa essa do companheiro Michel de Montaigne:

"Se o mal-estar precedesse a embriaguez, nós nos guardaríamos de beber em excesso. Mas o prazer, para enganar-nos, vai na frente e nos oculta seu séquito."

1.10.02

Better hide your heart, better hold on tight
Say your prayers, 'cause there's trouble tonight
When pride and love battle with desire
Better hide your heart, 'cause you're playing with fire


(Kiss, Hot in the shade, 1989)

30.9.02

Pura aflição

Nós estamos agora nos braços de outros
Mas nos pertencemos --
tudo em nossos corpos gritou tal constatação
na última boêmia desvairada.

Ai de mim que sofro só de olhar tua beleza
E por saber que não poderei ser teu um dia.
Seu olhar-lâmina traspassa meu ser com tamanha eficácia
que sei que morrerei de amar ao primeiro beijo em tua boca.
"Louco (adj.): afetado por um alto grau de independência intelectual."

(Ambrose Bierce)

28.9.02

O testamento do poeta
(encontrado em sua escrivaninha numa tarde outonal, enquanto ele dormia)

"Que depois de minha morte não a deixem só. Que se faça para ela uma festa em sua honra todo dia 2 de janeiro, que foi quando a conheci. Porque ela é a mulher que me faz rir e me faz chorar; ela é a mulher que destrói todas as minhas certezas; que conta histórias de sua alma para me despertar.
Que ela beba e coma só as coisas de que mais goste; que dance com seus melhores amigos, namorados e amantes; enfim, que tenha uma noite impecável. Porque eis nela a essência absoluta do feminino combinada com a franqueza masculina, mistura a que nenhum homem pode ficar indiferente. Os homens podem encontrar muitas mulheres em suas vidas -- com algumas casar e tentar constituir família, com outras simplesmente saciar a sede, com outras ainda refinar o cérebro. Mas só existe uma capaz de corroer nossos alicerces a cada encontro; só uma é capaz de realmente nos levar à loucura com um olhar (e de nos fazer gostar mais dela exatamente por isso).
Que não falte nada a ela; que tentem fazê-la feliz depois de minha partida (embora eu saiba que isso é impossivel, por sua própria natureza). Porque eu a amei mais do que a mim; porque sua alma é linda na sua imperfeição; porque tudo o que ela faz pode ser traduzido em verso.
Ela é tudo que importa."

27.9.02

Insônia

André Machado e Alessandra Archer

Ele teve um sonho com ela. Um sonho perturbador. Estavam os dois numa praia deserta, ao crepúsculo. Ela em seu colo, lânguida; latas de cerveja em volta. Um cigarro pendendo da boca dele. Tocava um blues acústico, vindo do nada (não havia qualquer aparelho visível por perto).

Ela pegou o cigarro da mão dele, deu o trago final e o jogou fora. Depois beijou-o. Nesse exato momento foram atacados por um bando de gaivotas de todas as cores do arco-íris e a cena mudou. Estavam em outra praia, mas era noite e o cheiro de detritos despejados no mar tornava o ar quase irrespirável. A areia parecia um lodo. Ela usava agora um longo vestido diáfano e ele, um smoking amarrotado. Um pier atrás deles levava a um velho hotel, onde se ouviam os acordes de uma orquestra. Ele estava enjoado, sentia vontade de vomitar. Ela parecia secar algumas lágrimas. Seu companheiro tentou balbuciar algumas palavras, mas ela deu dois passos e esbofeteou-o com violência. Então apareceu um terceiro personagem. Um gato preto gigantesco.

Durante um dia inteiro estas visões ocuparam seus pensamentos. Não fora um pesadelo, embora tivesse todos os ingredientes, era apenas um sonho incômodo. Num papel, anotou os detalhes que ia lembrando. Havia uma irritação crescente e indomável por pensar nela, por sentir ainda seu cheiro, por ainda a querer, por ainda senti-la por perto, por ter guardado suas fotos e bilhetinhos, por ainda não ter encontrado outro nome mais belo do que Clara pra pensar. Não encontrava um meio de afastar-se dela. Em cada esquina de sua cidade, uma lembrança.

Intuía uma vontade irrefletida de escapar por alguma escada, por algum vão que houvesse dentro de si mesmo, uma porta dos fundos que o levasse para longe do sentimento que não conseguia aniquilar -- e que era amar uma mulher e sentir saudade. Daí começaram os primeiros flashes de sua insônia, que os sonhos invadiram e que já dura dois anos.

Noites em claro-clara.



Ontem, no ChoppGol de Nikiti, encontrei umas figuras que não via há milênios. Minha velha amiga Denise com seu marido, Ita, e até o irmão de um ex-namorado de minha irmã, em cuja casa passei um reveillon hilário há mais de dez anos . O show com a banda, recém-batizada de Swing Rio, foi animado, embora eu estivesse meio cansado (a primeira semana de volta das férias é sempre assim, né?). Espero estar com a pilha toda na próxima semana.

25.9.02

"It is thy mouth that I desire, Iokanaan. Thy mouth is like a band of scarlet on a tower of ivory. It is like a pomegranate cut in twain with a knife of ivory. The pomegranate flowers that blossom in the gardens of Tyre, and are redder than roses, are not so red. The red blasts of trumpets that herald the approach of kings, and make afraid the enemy, are not so red. Thy mouth is redder than the feet of those who tread the wine in the wine-press. It is redder than the feet of the doves who inhabit the temples and are fed by the priests. It is redder than the feet of him who cometh from a forest where he hath slain a lion, and seen gilded tigers. Thy mouth is like a branch of coral that fishers have found in the twilight of the sea, the coral that they keep for the kings!…It is like the vermilion that the Moabites find in the mines of Moab,° the vermilion that the kings take from them. It is like the bow of the King of the Persians, that is painted with vermilion, and is tipped with coral. There is nothing in the world so red as thy mouth.… Suffer me to kiss thy mouth."

(Salomé, Oscar Wilde, 1891)

24.9.02

Chove

Chove em meu cérebro
E o fog entre os neurônios
me causa amnésia de ti.

Quem és?
Em vão te busquei,
atormentado,
entre os podres postigos
do templo fantasma.

Como de hábito,
talvez apenas te encontre
em outro século,
quando não mais me olharás
com aquele desejo incontrolável e trêmulo.
Santana e a mágica

A guitarra de Santana soou,
machucando meu coração
e despertando minhas mãos e pés.
Num átimo, levantei-me:
"Vem!"
E tu vieste, e dançamos,
E ninguém mais importava.

Discretamente, ali, eu te amei
Quatro minutos de paixão irresponsável
ao som de seis cordas, criadoras implacáveis de vida
E as constelações sumiram, e o universo nos invejou.

Foi uma doce mágica no interstício do tempo.

23.9.02

Uaaaah ;-)))
Estou de volta, moçada, depois de três semanas de preguiça absoluta. Passei uma semana em Teresópolis e outras duas em casa. Em nennhum dos dois lugares fiz algo mais do que me tornar parte da paisagem e sonhar muito, dormindo ou acordado. O friozinho do fim de semana tornou ainda mais difícil sair da cama hoje. Mas já estou pronto para outra, com o gás todo.
No campo musical, porém, não fiquei parado. Continuo tocando com o Hélcio (agora em duo) no ChoppGol de Vila Isabel às quartas, no de Charitas (Nikiti) com a banda toda (que foi batizada de Swing Rio) às quintas, e esta sexta o trio vai estrear no restaurante HumGrau, na praia de Charitas.
Logo haverá novos poemas por aqui.