O show de ontem no ChoppGol deu certo e estarei lá todas as quartas (veja mais no Cadafalso II).
Hoje, alguns trechos do ótimo artigo "Desafios do Jornalismo", do professor Carlos Alberto Di Franco, publicado no Globo:
"As virtudes e as fraquezas dos jornais não são recatadas. Registram-nas fielmente os delicados radares da opinião pública. Precisamos, por isso, derrubar inúmeros mitos que conspiram contra a credibilidade da imprensa.
Um deles, talvez o mais resistente, é o dogma da objetividade absoluta. Inscrito em inúmeros códigos empoeirados, é de um vazio surpreendente. Transmite, num pomposo tom de verdade, a falsa certeza da neutralidade jornalística. Só que essa separação radical entre fatos e interpretações simplesmente não existe.
Jornalistas não são autômatos. Além disso, não se faz bom jornalismo sem emoção. A frieza é anti-humana e, portanto, antijornalística. Não se pode ouvir um corrupto com a mesma fleuma com que um inglês toma o chá das 5. A imprensa honesta e desengajada tem um compromisso com a verdade. A neutralidade é uma mentira, mas a imparcialidade é uma meta que deve ser perseguida. Todos os dias.
A busca da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência arrogante. O jornalista engajado é sempre um mau repórter. Não sabe, como sublinha o jornalista Carl Bernstein, que "o importante é saber escutar". Esquece, ofuscado pela auto-suficiência, que as respostas são sempre mais importantes que as perguntas. A grande surpresa no jornalismo de qualidade é descobrir que "quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos", sublinha Bernstein.(...)"
25.7.02
24.7.02
De volta ao som
Aí, galera: vou sacudir o pó da guitarra hoje para reestrear acompanhando o Hélcio, velho parceiro, cantor e tecladista, no ChoppGol, na r. Felipe Camarão, em Vila Isabel (perto do Planeta Chopp), a partir das oito da noite. Aos que conhecem minhas tendências roqueiras, aviso logo: o trabalho nada tem a ver com elas. É todo calcado em cima de MPB e bem leve, no esquema da noite mesmo. Hélcio toca de tudo, de baladas a sambas, e eu o sigo na guitarra (canto algumas músicas eventualmente e faço uns backing vocals em outras). Se tudo der certo, passarei a acompanhá-lo todas as quartas-feiras.
Aí, galera: vou sacudir o pó da guitarra hoje para reestrear acompanhando o Hélcio, velho parceiro, cantor e tecladista, no ChoppGol, na r. Felipe Camarão, em Vila Isabel (perto do Planeta Chopp), a partir das oito da noite. Aos que conhecem minhas tendências roqueiras, aviso logo: o trabalho nada tem a ver com elas. É todo calcado em cima de MPB e bem leve, no esquema da noite mesmo. Hélcio toca de tudo, de baladas a sambas, e eu o sigo na guitarra (canto algumas músicas eventualmente e faço uns backing vocals em outras). Se tudo der certo, passarei a acompanhá-lo todas as quartas-feiras.
23.7.02
Este vosso escriba foi ontem dar uma palestra interna aqui no jornal sobre blogs. Foi uma apresentação informal, tentei ser o mais claro possível. Embora em público eu prefira tocar guitarra (até porque falo muito rápido e isso às vezes pode atrapalhar), acho que consegui passar a idéia. Foi divertido, embora eu percebesse que minhas mãos tremiam de vez em quando ;-))
22.7.02
Publiquei este texto no SpamZine há algumas semanas. Já é hora de ele vir para o Cadafalso ;-)
A estante do tio Zé
Minha avó paterna morava no velho casarão da família, na rua Florianópolis, em Jacarepaguá. Hoje ele não existe mais. Mas nos anos 60 era um paraíso envelhecido repleto de mangueiras, tamarineiras e outras árvores frutíferas. Eu curtia a quietude e o cheiro de passado do lugar, e era gostoso brincar em seu enorme quintal. Mas meus primos eram muito mais velhos que eu, e logo se cansavam de minhas brincadeiras bobas. Acabava passando boa parte do tempo sozinho. Não demorou muito, desisti do quintal e me rendi às tintas e lápis de cor do tio Zé, o único artista da família -- era (ainda é) pintor. Ficava horas desenhando em sua escrivaninha, em seu quarto. Foi no mesmo cômodo que me lembro de ter sido enfeitiçado para sempre pelos livros. Na estante do tio Zé, havia coleções sobre o século XX, a Segunda Guerra e muitos volumes sobre os gênios da pintura. Foram alguns dos primeiros livros que folheei, fascinado. Descobri ali alguns dos personagens célebres da história do Brasil, os afundamentos trágicos de navios como o Titanic e o Bismarck, e o traço hipnótico de van Gogh. Tempos depois, minha madrinha me presentearia com uma coleção completa de Monteiro Lobato e eu nunca mais largaria os livros. Mas aquela estante foi a primeira, e a primeira, vocês sabem... não dá para esquecer.
Muito provavelmente, o tio Zé não sabe, mas tenho certeza de que seus livros e seu exemplo de humanista me tornaram o jornalista e blogwriter que sou hoje. Só posso agradecer (e muito) por ter escapado de uma vida convencional. Valeu, tio! Um brinde aos livros, que são os verdadeiros jardins cujos caminhos se bifurcam (licença, Borges) para todo o sempre.
A estante do tio Zé
Minha avó paterna morava no velho casarão da família, na rua Florianópolis, em Jacarepaguá. Hoje ele não existe mais. Mas nos anos 60 era um paraíso envelhecido repleto de mangueiras, tamarineiras e outras árvores frutíferas. Eu curtia a quietude e o cheiro de passado do lugar, e era gostoso brincar em seu enorme quintal. Mas meus primos eram muito mais velhos que eu, e logo se cansavam de minhas brincadeiras bobas. Acabava passando boa parte do tempo sozinho. Não demorou muito, desisti do quintal e me rendi às tintas e lápis de cor do tio Zé, o único artista da família -- era (ainda é) pintor. Ficava horas desenhando em sua escrivaninha, em seu quarto. Foi no mesmo cômodo que me lembro de ter sido enfeitiçado para sempre pelos livros. Na estante do tio Zé, havia coleções sobre o século XX, a Segunda Guerra e muitos volumes sobre os gênios da pintura. Foram alguns dos primeiros livros que folheei, fascinado. Descobri ali alguns dos personagens célebres da história do Brasil, os afundamentos trágicos de navios como o Titanic e o Bismarck, e o traço hipnótico de van Gogh. Tempos depois, minha madrinha me presentearia com uma coleção completa de Monteiro Lobato e eu nunca mais largaria os livros. Mas aquela estante foi a primeira, e a primeira, vocês sabem... não dá para esquecer.
Muito provavelmente, o tio Zé não sabe, mas tenho certeza de que seus livros e seu exemplo de humanista me tornaram o jornalista e blogwriter que sou hoje. Só posso agradecer (e muito) por ter escapado de uma vida convencional. Valeu, tio! Um brinde aos livros, que são os verdadeiros jardins cujos caminhos se bifurcam (licença, Borges) para todo o sempre.
19.7.02
18.7.02
É chegada a hora
Ah, como desejo beijar tua boca no escuro
e grudar-me nela como gruda na pele do leão
o sangue de velhos combates cicatrizados;
e ali sentir o frescor de tua essência arfante
como a brisa tênue na tarde da savana.
Tua boca há de ser um dia meu consolo
e sutura para uma face varrida pelos desígnios dos deuses;
deixar-te-ei as marcas de um homem devastado
mas também a chave para o cofre maltratado da paixão.
Beijarei-a como Salomé beijou a boca de Iokanaan,
no afã de ouvir seu último suspiro;
serei misericordioso, porém, e viverás para contar
que um dia um poeta te beijou no escuro, e tua vida mudou
e o ar se coloriu de âmbar
e da banheira se espargiu absinto
e o dia espreguiçou-se e permitiu à lua nova reinar mais tempo.
Ah, como desejo beijar tua boca no escuro
e grudar-me nela como gruda na pele do leão
o sangue de velhos combates cicatrizados;
e ali sentir o frescor de tua essência arfante
como a brisa tênue na tarde da savana.
Tua boca há de ser um dia meu consolo
e sutura para uma face varrida pelos desígnios dos deuses;
deixar-te-ei as marcas de um homem devastado
mas também a chave para o cofre maltratado da paixão.
Beijarei-a como Salomé beijou a boca de Iokanaan,
no afã de ouvir seu último suspiro;
serei misericordioso, porém, e viverás para contar
que um dia um poeta te beijou no escuro, e tua vida mudou
e o ar se coloriu de âmbar
e da banheira se espargiu absinto
e o dia espreguiçou-se e permitiu à lua nova reinar mais tempo.
17.7.02
Excelente o Márcio Moreira Alves, hoje no Globo:
""Quando a casa do vizinho está ardendo, ninguém pede que ele pague a mangueira do bombeiro antes de começar a combater o fogo”, disse Franklin Roosevelt no discurso de abril de 1941 no qual anunciou o programa “Lend and Lease”, que abria à Inglaterra, cercada pelos submarinos nazistas, crédito ilimitado para comprar nos Estados Unidos os materiais de guerra de que precisava.
Churchill, na sua primeira viagem aos Estados Unidos, havia pedido a medida, dizendo: “Não precisamos dos galantes exércitos que se formam nos Estados Unidos. Dêem-nos as ferramentas e nós terminaremos a tarefa”. Era mais do que uma bravata. As reservas inglesas já estavam totalmente esgotadas. O historiador Waren F. Kimball, que escreveu um livro sobre o programa, estendido à União Soviética em 1942, chamou-o de “The most unsordid act”, a mais generosa das leis.
A América Latina está precisando que os Estados Unidos aprovem leis tão generosas como a “Lend and Lease”. O mundo precisaria também de um estadista com a visão abrangente de Franklin Roosevelt. Em vez disso, temos um Congresso mesquinho, que coloca tantas exigências discriminatórias no fast track, autorização para o presidente concluir negociações bilaterais que a torna impraticável, e um presidente perigosamente medíocre e desinformado, que se recusa a autorizar seu Departamento do Tesouro e o FMI a salvar do caos os vizinhos do Sul. É verdade que o FMI e os bancos multilaterais talvez não tenham recursos suficientes para cumprir o papel salvador que deles se espera. É o que diz, em recente artigo, o economista francês Pierre Salema. Mas só se saberá se tentarem cumpri-lo." (...)
""Quando a casa do vizinho está ardendo, ninguém pede que ele pague a mangueira do bombeiro antes de começar a combater o fogo”, disse Franklin Roosevelt no discurso de abril de 1941 no qual anunciou o programa “Lend and Lease”, que abria à Inglaterra, cercada pelos submarinos nazistas, crédito ilimitado para comprar nos Estados Unidos os materiais de guerra de que precisava.
Churchill, na sua primeira viagem aos Estados Unidos, havia pedido a medida, dizendo: “Não precisamos dos galantes exércitos que se formam nos Estados Unidos. Dêem-nos as ferramentas e nós terminaremos a tarefa”. Era mais do que uma bravata. As reservas inglesas já estavam totalmente esgotadas. O historiador Waren F. Kimball, que escreveu um livro sobre o programa, estendido à União Soviética em 1942, chamou-o de “The most unsordid act”, a mais generosa das leis.
A América Latina está precisando que os Estados Unidos aprovem leis tão generosas como a “Lend and Lease”. O mundo precisaria também de um estadista com a visão abrangente de Franklin Roosevelt. Em vez disso, temos um Congresso mesquinho, que coloca tantas exigências discriminatórias no fast track, autorização para o presidente concluir negociações bilaterais que a torna impraticável, e um presidente perigosamente medíocre e desinformado, que se recusa a autorizar seu Departamento do Tesouro e o FMI a salvar do caos os vizinhos do Sul. É verdade que o FMI e os bancos multilaterais talvez não tenham recursos suficientes para cumprir o papel salvador que deles se espera. É o que diz, em recente artigo, o economista francês Pierre Salema. Mas só se saberá se tentarem cumpri-lo." (...)
16.7.02
Sem alma
Não posso sustentar o teu olhar sôfrego
porque hoje acordei sem alma.
Hoje sou apenas corpo e apetites
e nada sei do que te afliges.
Não posso responder ao que perguntas
porque estou despido de sentido.
Sou apenas um corpo celeste que obedece
e prossegue em sua trajetória irretocável
pelo silencioso Abismo.
Dirás, "mas estás triste!"
E nem mesmo poderei retrucar que não estou.
A melancolia não existe no Vácuo
Nem a alegria etílica das happy hours na adorável Lapa.
Só o que existe é ser, sem se saber, sem se perceber,
e voar nos seios frios (frios?) da eternidade.
Não posso sustentar o teu olhar sôfrego
porque hoje acordei sem alma.
Hoje sou apenas corpo e apetites
e nada sei do que te afliges.
Não posso responder ao que perguntas
porque estou despido de sentido.
Sou apenas um corpo celeste que obedece
e prossegue em sua trajetória irretocável
pelo silencioso Abismo.
Dirás, "mas estás triste!"
E nem mesmo poderei retrucar que não estou.
A melancolia não existe no Vácuo
Nem a alegria etílica das happy hours na adorável Lapa.
Só o que existe é ser, sem se saber, sem se perceber,
e voar nos seios frios (frios?) da eternidade.
15.7.02
12.7.02
11.7.02
Trechos de duas cartas das profundezas do Hades
I -- Um discípulo de Fausto conversa com sua alma corrompida
"Às vezes, seu velho ego
Volta para me assombrar
Diz coisas horríveis, me beija com lábios frios
Me embriaga de ódio, de tédio,
E depois volta para a sepultura de carne que habita.
Você é apenas um fantasma do que foi, ó minha alma
E eu a amo assim, apática, entrevada, morta em vida
Como a moldei, embevecido, com a matéria da minha vontade.
Mas seu velho ego é teimoso, volta sempre...
A noite parece estimulá-lo, como as marés,
E então sou eu que me escondo, viro tatu-bola,
Até a alvorada, que seduzi em segredo há tempos, voltar."
II -- De: Edgar Allan Poe. Para: Ligéia. Cc: Berenice
"Negra é a tinta com que me exponho
Negra é tua alma desalinhada
E tuas lágrimas que bruxuleiam
Pelas fissuras do horror em tua boca podre.
Treva! É em teu âmago
Que te toco, enojado
E deliciado
Como num século de sol morno
Como num dia de nuvens-magma
Como antes de olhar no espelho de Narciso.
Teus dentes
São como presas de vermes gigantes
Numa intempérie no deserto
Prontos para cravar-se em meus dendritos
Toda vez que tu sorris.
Esposa querida, prima desejada
Lapido meus textos
E assim te corto as palavras
Mato-te de êxtase metálico
Para que eu possa morrer aos poucos."
I -- Um discípulo de Fausto conversa com sua alma corrompida
"Às vezes, seu velho ego
Volta para me assombrar
Diz coisas horríveis, me beija com lábios frios
Me embriaga de ódio, de tédio,
E depois volta para a sepultura de carne que habita.
Você é apenas um fantasma do que foi, ó minha alma
E eu a amo assim, apática, entrevada, morta em vida
Como a moldei, embevecido, com a matéria da minha vontade.
Mas seu velho ego é teimoso, volta sempre...
A noite parece estimulá-lo, como as marés,
E então sou eu que me escondo, viro tatu-bola,
Até a alvorada, que seduzi em segredo há tempos, voltar."
II -- De: Edgar Allan Poe. Para: Ligéia. Cc: Berenice
"Negra é a tinta com que me exponho
Negra é tua alma desalinhada
E tuas lágrimas que bruxuleiam
Pelas fissuras do horror em tua boca podre.
Treva! É em teu âmago
Que te toco, enojado
E deliciado
Como num século de sol morno
Como num dia de nuvens-magma
Como antes de olhar no espelho de Narciso.
Teus dentes
São como presas de vermes gigantes
Numa intempérie no deserto
Prontos para cravar-se em meus dendritos
Toda vez que tu sorris.
Esposa querida, prima desejada
Lapido meus textos
E assim te corto as palavras
Mato-te de êxtase metálico
Para que eu possa morrer aos poucos."
9.7.02
Luís Fernando Veríssimo magistral, na veia, na mosca, hoje no Globo:
"Se entendi bem a lógica do momento, a situação do país é tão grave que seria temerário entregá-lo a qualquer outra facção que não a responsável pela situação ter ficado tão grave. Algo na linha do imperativo doméstico que a gente ouvia da mãe: quem sujou que limpe. Mas como os que sujaram não reconhecem que sujaram — pelo contrário, identificam-se como guardiões de uma normalidade ameaçada pela vitória da oposição — a analogia não vale.
Qual é exatamente o “caos” que viria com a eleição do Lula? Crise financeira, estagnação econômica, desemprego, um clima social explosivo? Isso tudo já tem. Essa é a normalidade ameaçada. Até o pior efeito previsto de uma mudança de modelo, a fuga do capital especulativo, já começou, e o que o espantou não foi a cara feia do Lula, mas o reconhecimento de que esse modelo não se sustenta. O pânico com a possibilidade de um calote não vem do medo da “esquerda”, que no poder não seria nem burra nem suicida, mas do tamanho da dívida, e o que tornou a dívida terrível foi a política de dependência total adotada pelo atual governo . Muito mais assustador — a longo prazo, até para os especuladores — do que a perspectiva de uma mudança deveria ser a perspectiva da continuação deste caminho sem alternativa para o desastre.
Mas tal é o domínio do pensamento econômico hegemônico sobre a nossa mente colonizada, que ele consegue até definir conceitos que a realidade em volta desmente, como os de “normalidade” e “caos”. Essa guerra civil permanente no meio da qual a gente vive não é o caos. Ou é um caos perfeitamente normal. A seriedade e a sensatez que uma aventura esquerdista supostamente destruiria são representadas pelos índices de desenvolvimento social que elas alcançaram.
Escolha qualquer um: saneamento básico, habitação, energia... Depois de oito anos de dependência total, ficamos dependentes até do vocabulário e dos valores do capital financeiro, como caddies miseráveis que adotam os hábitos dos ricos para os quais carregam o saco de golfe. A conveniência do mercado especulativo se tornou o nosso parâmetro de normalidade, e qualquer alternativa ao seu domínio, o nosso parâmetro de terror."
"Se entendi bem a lógica do momento, a situação do país é tão grave que seria temerário entregá-lo a qualquer outra facção que não a responsável pela situação ter ficado tão grave. Algo na linha do imperativo doméstico que a gente ouvia da mãe: quem sujou que limpe. Mas como os que sujaram não reconhecem que sujaram — pelo contrário, identificam-se como guardiões de uma normalidade ameaçada pela vitória da oposição — a analogia não vale.
Qual é exatamente o “caos” que viria com a eleição do Lula? Crise financeira, estagnação econômica, desemprego, um clima social explosivo? Isso tudo já tem. Essa é a normalidade ameaçada. Até o pior efeito previsto de uma mudança de modelo, a fuga do capital especulativo, já começou, e o que o espantou não foi a cara feia do Lula, mas o reconhecimento de que esse modelo não se sustenta. O pânico com a possibilidade de um calote não vem do medo da “esquerda”, que no poder não seria nem burra nem suicida, mas do tamanho da dívida, e o que tornou a dívida terrível foi a política de dependência total adotada pelo atual governo . Muito mais assustador — a longo prazo, até para os especuladores — do que a perspectiva de uma mudança deveria ser a perspectiva da continuação deste caminho sem alternativa para o desastre.
Mas tal é o domínio do pensamento econômico hegemônico sobre a nossa mente colonizada, que ele consegue até definir conceitos que a realidade em volta desmente, como os de “normalidade” e “caos”. Essa guerra civil permanente no meio da qual a gente vive não é o caos. Ou é um caos perfeitamente normal. A seriedade e a sensatez que uma aventura esquerdista supostamente destruiria são representadas pelos índices de desenvolvimento social que elas alcançaram.
Escolha qualquer um: saneamento básico, habitação, energia... Depois de oito anos de dependência total, ficamos dependentes até do vocabulário e dos valores do capital financeiro, como caddies miseráveis que adotam os hábitos dos ricos para os quais carregam o saco de golfe. A conveniência do mercado especulativo se tornou o nosso parâmetro de normalidade, e qualquer alternativa ao seu domínio, o nosso parâmetro de terror."
8.7.02
Fragmentos de um original roído pelas traças -- I
HENRIQUE
Mas então você não acha que ele escreve bem?
OTÁVIO
Ele escreve bem, mas não é um bom escritor.
MARCEL
Não vejo diferença...
OTÁVIO
Para escrever bem, você precisa saber todas as regras da gramática e todas as preciosidades do vocabulário. Para ser um bom escritor, você precisa de muito mais -- e sequer necessita da gramática. Um bom escritor mexe com idéias e não com palavras.
HENRIQUE
Idéias originais?
OTÁVIO
Às vezes. Sabem, no fundo, a originalidade não existe de fato. A alma humana é insondável demais para que alguém reivindique a invenção de qualquer coisa. Quem pode afirmar que a criação não esteve outrora nos subterrâneos das almas de outros homens?
MARCEL
Você quer dizer o inconsciente... Mas talvez a originalidade possa ser justamente a capacidade de extrair certa idéia do inconsciente e trazê-la à luz.
OTÁVIO, sorrindo.
Isso não é ser original. Isso é ser capaz de se comunicar e de teorizar, ou até de experimentar -- embora eu não leve em consideração esse tipo de experiência, já que faz sentido. A originalidade deixa de existir no momento em que passa a pertencer ao mundo das palavras. É por isso que digo que o bom escritor mexe com idéias. A "originalidade" desse bom escritor está justamente no que não foi escrito, entendeu? Ela pertence aos esgotos e às vísceras, que de certo modo são os esgotos do homem. Todos gostam de falar do cérebro humano; alguns defendem o coração; mas já descobri que as vísceras do homem guardam todo o seu potencial criativo. E só os escritores que remexem em suas vísceras conseguem alcançar a imortalidade. Há escritores cerebrais e escritores sentimentais -- e, hoje em dia, até escritores "capitais" --; mas estes nada valem se comparados aos mestres viscerais. É por isso que muitos artistas "originais" deixam obras que nos parecem "horríveis". Nem todas as tripas são revolvidas sem choques e angústias, e é por isso que o original traz sempre consigo alguma coisa de horripilante.
HENRIQUE
Mas então você não acha que ele escreve bem?
OTÁVIO
Ele escreve bem, mas não é um bom escritor.
MARCEL
Não vejo diferença...
OTÁVIO
Para escrever bem, você precisa saber todas as regras da gramática e todas as preciosidades do vocabulário. Para ser um bom escritor, você precisa de muito mais -- e sequer necessita da gramática. Um bom escritor mexe com idéias e não com palavras.
HENRIQUE
Idéias originais?
OTÁVIO
Às vezes. Sabem, no fundo, a originalidade não existe de fato. A alma humana é insondável demais para que alguém reivindique a invenção de qualquer coisa. Quem pode afirmar que a criação não esteve outrora nos subterrâneos das almas de outros homens?
MARCEL
Você quer dizer o inconsciente... Mas talvez a originalidade possa ser justamente a capacidade de extrair certa idéia do inconsciente e trazê-la à luz.
OTÁVIO, sorrindo.
Isso não é ser original. Isso é ser capaz de se comunicar e de teorizar, ou até de experimentar -- embora eu não leve em consideração esse tipo de experiência, já que faz sentido. A originalidade deixa de existir no momento em que passa a pertencer ao mundo das palavras. É por isso que digo que o bom escritor mexe com idéias. A "originalidade" desse bom escritor está justamente no que não foi escrito, entendeu? Ela pertence aos esgotos e às vísceras, que de certo modo são os esgotos do homem. Todos gostam de falar do cérebro humano; alguns defendem o coração; mas já descobri que as vísceras do homem guardam todo o seu potencial criativo. E só os escritores que remexem em suas vísceras conseguem alcançar a imortalidade. Há escritores cerebrais e escritores sentimentais -- e, hoje em dia, até escritores "capitais" --; mas estes nada valem se comparados aos mestres viscerais. É por isso que muitos artistas "originais" deixam obras que nos parecem "horríveis". Nem todas as tripas são revolvidas sem choques e angústias, e é por isso que o original traz sempre consigo alguma coisa de horripilante.
7.7.02
O encontro dos blogueiros ontem em Copa só teve quatro convivas (sábado é mais difícil mesmo juntar a galera), mas nem por isso foi menos divertido. O papo rolou solto entre este que vos escreve, a Suely (que estava muito bonita), o João M e o boa-praça Stanley, que descobri ser baixista e já convidei para um som qualquer dia desses. Falamos de tudo um pouco: eleições, copa, trabalho, curiosidades e, é claro, blogs ;-). Eu estava curiosíssimo para conhecer a MissDaisy, com quem vivo trocando comments, mas já sabia que ela não poderia ir. Vamos ver se na próxima dá. E também faltaram o Maggi, a Bani, a Tina, a Alessandra, a Elis (mas esta aqui está de férias, eu já desconfiava. E acabei de ver no blog dela que ficou doente, coitada!) e muitos outros. Da próxima vez, marcamos durante a semana.
Por outro lado, como disse a Su, a gente conversou mais e se conheceu um pouco melhor, o que nem sempre dá para fazer em encontros maiores, onde a dispersão aumenta.
Por outro lado, como disse a Su, a gente conversou mais e se conheceu um pouco melhor, o que nem sempre dá para fazer em encontros maiores, onde a dispersão aumenta.
6.7.02
Três excelentes artigos no Prosa e Verso de hoje. A capa, sobre Florbela Espanca, e as resenhas sobre Nietzsche e Einstein (esta escrita pelo gente finíssima Ronaldo Mourão, que encontrei boas vezes em meus tempos de Geográfica Universal).
5.7.02
Desvario
Jogos de palavras
Fluem ocos, sugando as pálpebras
Encharcadas de som, de sono,
Quero brilhar nas têmporas da savana negra
Mitos lúgubres, língua doida
De gravata fina sem nós mais
Terra em cortinas nubladas
Alumínio rangendo, lábios secos...
Oquei, vamos ao acaso, esquece tá?
E aí?
E aí?
Lágrimas descem mas viram vapor
Nocautes, ha ha.
Blague, desastre, que mais?
Responda, não ferre na mudez,
Vem algo d'água no cabelo,
Fim, eco e fim.
Jogos de palavras
Fluem ocos, sugando as pálpebras
Encharcadas de som, de sono,
Quero brilhar nas têmporas da savana negra
Mitos lúgubres, língua doida
De gravata fina sem nós mais
Terra em cortinas nubladas
Alumínio rangendo, lábios secos...
Oquei, vamos ao acaso, esquece tá?
E aí?
E aí?
Lágrimas descem mas viram vapor
Nocautes, ha ha.
Blague, desastre, que mais?
Responda, não ferre na mudez,
Vem algo d'água no cabelo,
Fim, eco e fim.
4.7.02
3.7.02
Retorno
Retorno a ti, poesia,
Para lamber minhas loucuras ao vento morno
Dos olhares da floresta e da penumbra
A sombra do passado atemoriza
E perderam-se as chaves da porta do futuro
Momentaneamente.
Fraqueza?
Talvez sono, quem sabe até fastio
Volto aos infernos do ópio
Absinto a dor e o zumbido nas pupilas!
Quebro-te, espelho,
Defronto-me melhor com o infinito
Tocando-me como um instrumento
e vomitando injúrias.
Caco de vidro inútil, estilhaças
Minha angústia podre de crostas nevoentas
E elevas meu horror ao expoente
Do perder-se de vista.
Retorno a ti, poesia,
Para lamber minhas loucuras ao vento morno
Dos olhares da floresta e da penumbra
A sombra do passado atemoriza
E perderam-se as chaves da porta do futuro
Momentaneamente.
Fraqueza?
Talvez sono, quem sabe até fastio
Volto aos infernos do ópio
Absinto a dor e o zumbido nas pupilas!
Quebro-te, espelho,
Defronto-me melhor com o infinito
Tocando-me como um instrumento
e vomitando injúrias.
Caco de vidro inútil, estilhaças
Minha angústia podre de crostas nevoentas
E elevas meu horror ao expoente
Do perder-se de vista.
1.7.02
Os Pentatemplários
(extraído de um manuscrito encontrado em 3002 pelo arqueólogo alemão Otto Kahn, descendente de Oliver Kahn, o Grande, nas ruínas de um antigo coliseu na Baviera)
"... A decadência do império teutão de Kahn, o Grande, deu-se a partir de 2002 d.C., quando o exército por ele liderado iniciou a jornada, após duras batalhas, para Korepan, a fabulosa Terra do Alvorecer, no distante Oriente. Os soldados de Kahn, disciplinados ao extremo, eram duros na queda e já haviam vencido três guerras sangrentas: uma na Suíça, outra na Alemanha e a terceira na Itália. Entretanto, haviam perdido valorosos soldados nos embates, e só os duros métodos de Kahn mantinham os resultados nos campos de batalha. Em sua jornada, os corajosos cavaleiros teutônicos começaram a ouvir falar de uma estranha lenda à medida que passavam de cidade em cidade. Primeiro, Kahn foi abordado pelo califa turco Hassan Sas, que segredou-lhe, em sua tenda, que o maior perigo que encontrariam em Korepan seriam os Pentatemplários, cavaleiros pertencentes a uma ordem de guerreiros ascetas capitaneados por Kafoo, o Terrível. Eles eram originários das Terras do Oeste, em cuja região sul haviam sido treinados pelo monge escoláristico Pheli Ponn. Diziam que os cavaleiros lutavam como nunca se havia visto antes, passando as armas entre si e confundindo os adversários com uma elasticidade incrível alcançada através de técnicas de concentração desconhecidas.
Kahn, porém, não se abalou. Dias depois, deparou-se com o exército chinês em debandada, com os uniformes rasgados, gritando que os Pentatemplários haviam matado quatro de seus mais competentes generais. A expressão apalermada dos chineses levou os teutões ao riso, bem como os guerreiros ciganos da Costa Opulenta do Atlântico, que encontraram bêbedos e cabisbaixos num desfiladeiro. A eles juntavam-se os arqueiros de Belgium, a que Kahn não deu atenção. Foi só quando viram, já perto da fortaleza de Yokohama, as hostes bretãs chacinadas sem piedade, com o símbolo pentatemplário escrito com sangue sobre seus uniformes, que os soldados teutônicos vacilaram. Na subida para a colina onde jazia a fortaleza, Kahn teve um encontro inesperado com mais um califa turco, Al Basturk. Este implorou para que não desse combate aos cavaleiros do Oeste.
Mas Kahn tinha uma reputação a preservar -- e foi essa a sua desgraça. A primeira parte da batalha de Yokohama foi dura, com os teutões e os pentatemplários praticamente se equivalendo em bravura. Mas na segunda o brilho foi da divisão comandada pelo coronel Roh Naldym, que fez uma carga diretamente sobre a tenda de Kahn. Ele resistiu na primeira investida, mas deixou o flanco descoberto e foi ferido. O coronel, percebendo sua hesitação, não o deixou respirar e, com a ajuda de uma manobra diversiva do coronel Ryv Aldow, levou Kahn a acreditar num ataque deste. Roh Naldym então deu o sinal para o golpe de misericórdia, deixando um perplexo Kahn a seus pés. A batalha não durou muito depois disso."
(extraído de um manuscrito encontrado em 3002 pelo arqueólogo alemão Otto Kahn, descendente de Oliver Kahn, o Grande, nas ruínas de um antigo coliseu na Baviera)
"... A decadência do império teutão de Kahn, o Grande, deu-se a partir de 2002 d.C., quando o exército por ele liderado iniciou a jornada, após duras batalhas, para Korepan, a fabulosa Terra do Alvorecer, no distante Oriente. Os soldados de Kahn, disciplinados ao extremo, eram duros na queda e já haviam vencido três guerras sangrentas: uma na Suíça, outra na Alemanha e a terceira na Itália. Entretanto, haviam perdido valorosos soldados nos embates, e só os duros métodos de Kahn mantinham os resultados nos campos de batalha. Em sua jornada, os corajosos cavaleiros teutônicos começaram a ouvir falar de uma estranha lenda à medida que passavam de cidade em cidade. Primeiro, Kahn foi abordado pelo califa turco Hassan Sas, que segredou-lhe, em sua tenda, que o maior perigo que encontrariam em Korepan seriam os Pentatemplários, cavaleiros pertencentes a uma ordem de guerreiros ascetas capitaneados por Kafoo, o Terrível. Eles eram originários das Terras do Oeste, em cuja região sul haviam sido treinados pelo monge escoláristico Pheli Ponn. Diziam que os cavaleiros lutavam como nunca se havia visto antes, passando as armas entre si e confundindo os adversários com uma elasticidade incrível alcançada através de técnicas de concentração desconhecidas.
Kahn, porém, não se abalou. Dias depois, deparou-se com o exército chinês em debandada, com os uniformes rasgados, gritando que os Pentatemplários haviam matado quatro de seus mais competentes generais. A expressão apalermada dos chineses levou os teutões ao riso, bem como os guerreiros ciganos da Costa Opulenta do Atlântico, que encontraram bêbedos e cabisbaixos num desfiladeiro. A eles juntavam-se os arqueiros de Belgium, a que Kahn não deu atenção. Foi só quando viram, já perto da fortaleza de Yokohama, as hostes bretãs chacinadas sem piedade, com o símbolo pentatemplário escrito com sangue sobre seus uniformes, que os soldados teutônicos vacilaram. Na subida para a colina onde jazia a fortaleza, Kahn teve um encontro inesperado com mais um califa turco, Al Basturk. Este implorou para que não desse combate aos cavaleiros do Oeste.
Mas Kahn tinha uma reputação a preservar -- e foi essa a sua desgraça. A primeira parte da batalha de Yokohama foi dura, com os teutões e os pentatemplários praticamente se equivalendo em bravura. Mas na segunda o brilho foi da divisão comandada pelo coronel Roh Naldym, que fez uma carga diretamente sobre a tenda de Kahn. Ele resistiu na primeira investida, mas deixou o flanco descoberto e foi ferido. O coronel, percebendo sua hesitação, não o deixou respirar e, com a ajuda de uma manobra diversiva do coronel Ryv Aldow, levou Kahn a acreditar num ataque deste. Roh Naldym então deu o sinal para o golpe de misericórdia, deixando um perplexo Kahn a seus pés. A batalha não durou muito depois disso."
28.6.02
Metamorfose
Oh, esse maldito pêndulo que jamais cessa
A dor do canto e da alegria da natureza
E o brilho da luz impiedosa sobre meus ombros raquíticos
Estoure, íris, arrebente!
Os tímpanos são gongos de platina
Que vibram a cada estalo do moedor de cérebros podres
O verão aterrissa em minha saliva
E incandesce garganta abaixo
Até tomar todo o meu corpo
E com ele formar um só crepúsculo
Uma só infâmia.
Oh, esse maldito pêndulo que jamais cessa
A dor do canto e da alegria da natureza
E o brilho da luz impiedosa sobre meus ombros raquíticos
Estoure, íris, arrebente!
Os tímpanos são gongos de platina
Que vibram a cada estalo do moedor de cérebros podres
O verão aterrissa em minha saliva
E incandesce garganta abaixo
Até tomar todo o meu corpo
E com ele formar um só crepúsculo
Uma só infâmia.
27.6.02
Hoje, alguns comentários do cadafalso.
Estava eu assistindo à série sobre as drogas que a GNT exibe -- na qual, entre outras coisas, a gente fica sabendo porque a Colômbia chegou aonde está -- e fiquei meditando sobre o depoimento de um agente da Drug Enforcement Agency (DEA), dos EUA. Ele disse mais ou menos o seguinte: "o negócio das drogas não vai desaparecer tão cedo. Depois de vários estudos, chegamos à conclusão de que é uma indústria que pode perder 90% de seu produto e ainda assim auferir lucros. É como se a General Motors fabricasse 1 milhão de carros, perdesse 900 mil e ainda assim lucrasse com a venda dos 100 mil restantes. Trata-se de um negócio de proporções inimagináveis".
É de dar calafrios.
Estava eu assistindo à série sobre as drogas que a GNT exibe -- na qual, entre outras coisas, a gente fica sabendo porque a Colômbia chegou aonde está -- e fiquei meditando sobre o depoimento de um agente da Drug Enforcement Agency (DEA), dos EUA. Ele disse mais ou menos o seguinte: "o negócio das drogas não vai desaparecer tão cedo. Depois de vários estudos, chegamos à conclusão de que é uma indústria que pode perder 90% de seu produto e ainda assim auferir lucros. É como se a General Motors fabricasse 1 milhão de carros, perdesse 900 mil e ainda assim lucrasse com a venda dos 100 mil restantes. Trata-se de um negócio de proporções inimagináveis".
É de dar calafrios.
26.6.02
I don't go looking for trouble,
It's always coming my way,
But, I've been looking for you,
And like the summer sun, you welcome my day.
So come on, come on,
And give your man some rock 'n' roll,
And get yourself some sweet rock 'n' roll.
I'm just a soldier of fortune,
Must be the gypsy in me.
I ain't alone when I say
I never needed love so badly before.
Hear me singing "Come on, come on"!
Give your man some rock 'n' roll,
And get yourself some sweet rock 'n' roll.
("Come on", Whitesnake, 1978)
It's always coming my way,
But, I've been looking for you,
And like the summer sun, you welcome my day.
So come on, come on,
And give your man some rock 'n' roll,
And get yourself some sweet rock 'n' roll.
I'm just a soldier of fortune,
Must be the gypsy in me.
I ain't alone when I say
I never needed love so badly before.
Hear me singing "Come on, come on"!
Give your man some rock 'n' roll,
And get yourself some sweet rock 'n' roll.
("Come on", Whitesnake, 1978)
25.6.02
Último desejo
Um beijo é só o que peço:
o toque de teus lábios molhados e trêmulos
em minha boca esperançosa e ressequida.
Dá-mo e morrerei em paz
contemplando tuas órbitas de doce-de-leite.
Ah! obrigado! já me posso ir.
Agora afasta-te um pouco
pois que é a vez de a Dama de Negro me beijar.
Não, não chores -- tu me ungiste com tua doçura,
e este é o único rito que necessito.
Disseste que não mais podes amar
Mas me amaste assim mesmo, sem perceberes.
Eis meu legado, o possível nesta terra sem ar para as almas:
ressuscitar-te para a paixão.
Um beijo é só o que peço:
o toque de teus lábios molhados e trêmulos
em minha boca esperançosa e ressequida.
Dá-mo e morrerei em paz
contemplando tuas órbitas de doce-de-leite.
Ah! obrigado! já me posso ir.
Agora afasta-te um pouco
pois que é a vez de a Dama de Negro me beijar.
Não, não chores -- tu me ungiste com tua doçura,
e este é o único rito que necessito.
Disseste que não mais podes amar
Mas me amaste assim mesmo, sem perceberes.
Eis meu legado, o possível nesta terra sem ar para as almas:
ressuscitar-te para a paixão.
24.6.02
There's a party going on right here
Quando te foste,
Eu me regozijei
E dei uma festa
E queimei tuas cartas perfumadas
E chupei hibiscos sanguinolentos
E bebi sucos de dores delicadas
E tive um enfarte do fígado
Porque ri e babei.
Um brinde à solidão!
Um brinde ao confronto com a alma em telequetes primais!
Um brinde à morte de um amor
Condição si ne qua non do nascimento do próximo.
Quando te foste,
Eu me regozijei
E dei uma festa
E queimei tuas cartas perfumadas
E chupei hibiscos sanguinolentos
E bebi sucos de dores delicadas
E tive um enfarte do fígado
Porque ri e babei.
Um brinde à solidão!
Um brinde ao confronto com a alma em telequetes primais!
Um brinde à morte de um amor
Condição si ne qua non do nascimento do próximo.
21.6.02
Invencível
a carne verde se desmancha no chão envelhecido
as frutas obedecem à gravidade sem que ninguém venha acarinhá-las
e morrem solitárias entre as folhas agonizantes
os legumes no lixo ganham tons camaleônicos e fétidos.
é aí que a vida mostra sua verdadeira face
refluindo em vermes que surgem do nada
e escarnecem da morte com seu apetite coleante.
No fundo, é impossível vencer a vida
e a morte não tem aquela foice, nem as presas afiadas que imaginamos.
Ela é apenas um mendigo de olhar abobalhado
que pede de quando em vez trocados ao cosmo.
Este, por sua vez, aquiesce,
só para nos iludir com a sensação de tempo
e nos apequenar a alma.
Mas não consegue.
a carne verde se desmancha no chão envelhecido
as frutas obedecem à gravidade sem que ninguém venha acarinhá-las
e morrem solitárias entre as folhas agonizantes
os legumes no lixo ganham tons camaleônicos e fétidos.
é aí que a vida mostra sua verdadeira face
refluindo em vermes que surgem do nada
e escarnecem da morte com seu apetite coleante.
No fundo, é impossível vencer a vida
e a morte não tem aquela foice, nem as presas afiadas que imaginamos.
Ela é apenas um mendigo de olhar abobalhado
que pede de quando em vez trocados ao cosmo.
Este, por sua vez, aquiesce,
só para nos iludir com a sensação de tempo
e nos apequenar a alma.
Mas não consegue.
20.6.02
Bom, este é o fim de minha primeira blognovela. Espero os comentários de vocês. E logo estarei retornando aos poemas habituais deste Cadafalso. Mas estou pensando em escrever outras blognovelas, ou adaptar novelas que escrevi na década passada para a web. Vamos ver no que dá. O certo é que não quero parar, não é do meu feitio ;-)
Aos que acompanharam "O Destino, o Livre-Arbítrio e o Desejo", meus mais sinceros agradecimentos (e desculpas pelas pausas involuntárias no desfiar da história, devido aos compromissos de trabalho). Jon e Daniela brindam a vocês, com toda a certeza. E eu também, é claro.
Aos que acompanharam "O Destino, o Livre-Arbítrio e o Desejo", meus mais sinceros agradecimentos (e desculpas pelas pausas involuntárias no desfiar da história, devido aos compromissos de trabalho). Jon e Daniela brindam a vocês, com toda a certeza. E eu também, é claro.
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
EPÍLOGO
Sim, Daniela era o Desejo. Não o Livre-Arbítrio; não o Destino; mas o Desejo. E, mesmo senhora dos mundos e dos grupos de mundos e das confederações de tais grupos, precisava casar-se, como explicou a seu noivo, com um mortal de tempos em tempos para conhecer sua Verdadeira Essência. E desta vez o Eleito fora Jon, e ela se deleitara de modo especial ao caçá-lo. Pois era preciso que ele viajasse ao limbo de livre vontade, habilmente persuadido, jamais à força, para pedir por ela a seus irmãos milenares. Que, não é preciso dizer, se divertiam muito com a coisa toda.
Jon nunca mais voltou a uma redação, nem foi lembrado por seus pares. Viveu o resto de seus anos (e foram muitos) explorando seu novo hábitat e travando conhecimento com todas as criaturas míticas e artistas que tanto amara em sua adolescência.
Quando ele morreu, cercado de glórias, chegou ao nosso mundo, através de um guru que acidentalmente sintonizara o canal certo, o boato de que Daniela (seu nome verdadeiro é outro, impronunciável) não quis se casar por muitos e muitos milhares de anos. Bom, pelo menos o Jon foi feliz para sempre. E nossa história acaba aqui.
Leitor -- "Mas espera aí! E aquela história do Destino? E a nova Peste Negra?"
Ah, é. De fato, aquele era o destino de ambos. O próprio Jon perguntou a Daniela o que aconteceria.
A resposta dela foi: "Não se preocupe, meu amor. Com uma ajudinha do Livre-Arbítrio, o Desejo sempre vence o Destino."
Xeque-mate.
T H E E N D
EPÍLOGO
Sim, Daniela era o Desejo. Não o Livre-Arbítrio; não o Destino; mas o Desejo. E, mesmo senhora dos mundos e dos grupos de mundos e das confederações de tais grupos, precisava casar-se, como explicou a seu noivo, com um mortal de tempos em tempos para conhecer sua Verdadeira Essência. E desta vez o Eleito fora Jon, e ela se deleitara de modo especial ao caçá-lo. Pois era preciso que ele viajasse ao limbo de livre vontade, habilmente persuadido, jamais à força, para pedir por ela a seus irmãos milenares. Que, não é preciso dizer, se divertiam muito com a coisa toda.
Jon nunca mais voltou a uma redação, nem foi lembrado por seus pares. Viveu o resto de seus anos (e foram muitos) explorando seu novo hábitat e travando conhecimento com todas as criaturas míticas e artistas que tanto amara em sua adolescência.
Quando ele morreu, cercado de glórias, chegou ao nosso mundo, através de um guru que acidentalmente sintonizara o canal certo, o boato de que Daniela (seu nome verdadeiro é outro, impronunciável) não quis se casar por muitos e muitos milhares de anos. Bom, pelo menos o Jon foi feliz para sempre. E nossa história acaba aqui.
Leitor -- "Mas espera aí! E aquela história do Destino? E a nova Peste Negra?"
Ah, é. De fato, aquele era o destino de ambos. O próprio Jon perguntou a Daniela o que aconteceria.
A resposta dela foi: "Não se preocupe, meu amor. Com uma ajudinha do Livre-Arbítrio, o Desejo sempre vence o Destino."
Xeque-mate.
T H E E N D
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XXXI
Daniela veio caminhando devagar da sacada, como se tivesse se materializado ali naquele instante. Estava vestida como ele, à moda renascentista, e isso realçava sua pele imaculada, emoldurada pelos cabelos negro-avermelhados expostos à brisa. Era uma visão ímpar. Jon quase chorou só por ser abençado com tal visão.
Ela sentou-se em seu colo. Seu cheiro inebriou-o de tesão.
-- Está na hora? -- perguntou ele.
-- De quê, meu querido? -- volveu ela.
-- De nos encontrarmos com o Desejo...
Ela sorriu, e nenhuma mulher terá tal sorriso em toda a história da humanidade.
-- Com o Desejo? -- repetiu ela, divertida.
-- É. Você não percebe? -- Jon estava compenetrado. -- Encontramos primeiro o Livre-Arbítrio. Depois, o Destino. Eu não posso ter certeza, mas desde que conheci você, essas coisas têm atravessado minha mente, para lá e para cá, o tempo todo. Eu oscilava entre o Livre-Arbítrio, o Destino... e o Desejo. Como um joguete nas mãos de um escritor. Então, quando você me contou sua história e viemos para esta dimensão (aliás, ainda estamos nela?), encontramos os dois primeiros, ou as entidades que os representam, sei lá. E, pelas minhas contas, só falta pedir por você ao Desejo.
Fez-se uma pausa.
-- Você não precisa, meu amor. Já acabou.
-- Mas não eram três os mestres que você mencionou?
Ela aquiesceu.
-- Eles continuam três. Você tem razão.
-- Então, onde está o terceiro?
Ela não respondeu. Convocou os músicos novamente, tomou-o pela mão e dançaram, dançaram, dançaram. A noite prosseguiu e o baile particular adentrou por ela. Não havia cansaço.
Por fim, quando a última estrela se despediu e deu licença ao primeiro raio de sol, Daniela bateu palmas e um criado lhe trouxe uma caixinha de veludo verde-musgo.
Jon estava na sacada, respirando o ar da manhã recém-chegada, quando se virou e viu sua amada ajoelhada diante dele, com uma caixinha na mão.
-- Jon... você quer se casar comigo? -- sussurrou Daniela.
Ela abriu a caixa e ele viu um anel com um brilhante solitário. Dentro do brilhante, cuja luminescência era diferente da de qualquer outra gema, percebeu mundos, sistemas e galáxias em contínua revolução. Nebulosas e quasares por vezes turvavam a visão daquele reino de maravilhas, mas logo ele voltava a assombrar os olhos daquele pobre mortal. Seu queixo quase caiu. Mas ele se recompôs a tempo de se ajoelhar também e dizer, com os olhos cheios d'água, a palavra mágica:
-- Sim.
E aquele "sim" ecoou por todas as línguas e mundos e se refletiu em decisões de estrátegos interplanetários; e mergulhou a iníqua e mesquinha Terra numa era melhor, ainda que desavisadamente. Jon sentiu alguma coisa mudar dentro de si e a paisagem toda à sua volta tremular de emoção. Mas por quê?
-- Porque eu sou o Desejo, Jon -- disse Daniela.
Então ele compreendeu.
E imediatamente a ajudou a levantar-se.
E prostrou-se a seus pés, soluçando de felicidade e incredulidade.
CAPÍTULO XXXI
Daniela veio caminhando devagar da sacada, como se tivesse se materializado ali naquele instante. Estava vestida como ele, à moda renascentista, e isso realçava sua pele imaculada, emoldurada pelos cabelos negro-avermelhados expostos à brisa. Era uma visão ímpar. Jon quase chorou só por ser abençado com tal visão.
Ela sentou-se em seu colo. Seu cheiro inebriou-o de tesão.
-- Está na hora? -- perguntou ele.
-- De quê, meu querido? -- volveu ela.
-- De nos encontrarmos com o Desejo...
Ela sorriu, e nenhuma mulher terá tal sorriso em toda a história da humanidade.
-- Com o Desejo? -- repetiu ela, divertida.
-- É. Você não percebe? -- Jon estava compenetrado. -- Encontramos primeiro o Livre-Arbítrio. Depois, o Destino. Eu não posso ter certeza, mas desde que conheci você, essas coisas têm atravessado minha mente, para lá e para cá, o tempo todo. Eu oscilava entre o Livre-Arbítrio, o Destino... e o Desejo. Como um joguete nas mãos de um escritor. Então, quando você me contou sua história e viemos para esta dimensão (aliás, ainda estamos nela?), encontramos os dois primeiros, ou as entidades que os representam, sei lá. E, pelas minhas contas, só falta pedir por você ao Desejo.
Fez-se uma pausa.
-- Você não precisa, meu amor. Já acabou.
-- Mas não eram três os mestres que você mencionou?
Ela aquiesceu.
-- Eles continuam três. Você tem razão.
-- Então, onde está o terceiro?
Ela não respondeu. Convocou os músicos novamente, tomou-o pela mão e dançaram, dançaram, dançaram. A noite prosseguiu e o baile particular adentrou por ela. Não havia cansaço.
Por fim, quando a última estrela se despediu e deu licença ao primeiro raio de sol, Daniela bateu palmas e um criado lhe trouxe uma caixinha de veludo verde-musgo.
Jon estava na sacada, respirando o ar da manhã recém-chegada, quando se virou e viu sua amada ajoelhada diante dele, com uma caixinha na mão.
-- Jon... você quer se casar comigo? -- sussurrou Daniela.
Ela abriu a caixa e ele viu um anel com um brilhante solitário. Dentro do brilhante, cuja luminescência era diferente da de qualquer outra gema, percebeu mundos, sistemas e galáxias em contínua revolução. Nebulosas e quasares por vezes turvavam a visão daquele reino de maravilhas, mas logo ele voltava a assombrar os olhos daquele pobre mortal. Seu queixo quase caiu. Mas ele se recompôs a tempo de se ajoelhar também e dizer, com os olhos cheios d'água, a palavra mágica:
-- Sim.
E aquele "sim" ecoou por todas as línguas e mundos e se refletiu em decisões de estrátegos interplanetários; e mergulhou a iníqua e mesquinha Terra numa era melhor, ainda que desavisadamente. Jon sentiu alguma coisa mudar dentro de si e a paisagem toda à sua volta tremular de emoção. Mas por quê?
-- Porque eu sou o Desejo, Jon -- disse Daniela.
Então ele compreendeu.
E imediatamente a ajudou a levantar-se.
E prostrou-se a seus pés, soluçando de felicidade e incredulidade.
19.6.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XXX
Jon sentava-se agora a uma das extremidades de uma mesa ornada de castiçais. Todas as velas estavam acesas, bem como as dos candelabros que se sucediam no salão espelhado onde se encontrava. Vestia uma roupa renascentista, apropriada para o clima de outono perfumado que entrava pela janela escancarada. Levantou-se e foi até lá. Descobriu uma sacada que dava para o bosque mais perfeito que já vira. Era como uma pintura impressionista, e dele vinham os murmúrios suaves de um riacho que se não podia descortinar. Na verdade, não era possível vislumbrar o fim do próprio bosque, que se perdia na distância.
A calma do lugar era revigorante. Inspiradora. "Só falta música", pensou.
E acordes de flauta e alaúde ecoaram de uma das portas do salão. Logo entrou uma trupe de músicos que instou-o a sentar-se e fruir suas canções. Tocaram durante um bom tempo e Jon não sabia se tinham se passado horas ou dias. Ao cabo de uma ária que o comovera de modo especial, pensou: "Puxa. Eles não podem fazer melhor que isso. Que delícia. Só me falta boa comida e vinho."
Foi a deixa para os músicos saírem após uma vênia. Em seu lugar vieram copeiras, que lhe serviram o melhor bordeaux que já experimentara. Outros criados trouxeram faisão, foie-gras e frutas.
Novamente perdeu a noção do tempo enquanto restaurava suas forças. Tudo aquilo lhe parecia irreal. Mas era certamente um alívio depois do encontro com o Destino.
Por fim, pareceu despertar do torpor que o acometera desde que se deparara com o salão.
Onde estava Daniela?
CAPÍTULO XXX
Jon sentava-se agora a uma das extremidades de uma mesa ornada de castiçais. Todas as velas estavam acesas, bem como as dos candelabros que se sucediam no salão espelhado onde se encontrava. Vestia uma roupa renascentista, apropriada para o clima de outono perfumado que entrava pela janela escancarada. Levantou-se e foi até lá. Descobriu uma sacada que dava para o bosque mais perfeito que já vira. Era como uma pintura impressionista, e dele vinham os murmúrios suaves de um riacho que se não podia descortinar. Na verdade, não era possível vislumbrar o fim do próprio bosque, que se perdia na distância.
A calma do lugar era revigorante. Inspiradora. "Só falta música", pensou.
E acordes de flauta e alaúde ecoaram de uma das portas do salão. Logo entrou uma trupe de músicos que instou-o a sentar-se e fruir suas canções. Tocaram durante um bom tempo e Jon não sabia se tinham se passado horas ou dias. Ao cabo de uma ária que o comovera de modo especial, pensou: "Puxa. Eles não podem fazer melhor que isso. Que delícia. Só me falta boa comida e vinho."
Foi a deixa para os músicos saírem após uma vênia. Em seu lugar vieram copeiras, que lhe serviram o melhor bordeaux que já experimentara. Outros criados trouxeram faisão, foie-gras e frutas.
Novamente perdeu a noção do tempo enquanto restaurava suas forças. Tudo aquilo lhe parecia irreal. Mas era certamente um alívio depois do encontro com o Destino.
Por fim, pareceu despertar do torpor que o acometera desde que se deparara com o salão.
Onde estava Daniela?
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XXIX
Nos olhos de Daniela estava a chave. Nada em suas órbitas mudara. Nada. Ali estava a essência de tudo o que Jon amava nela.
Então, fazendo um esforço hercúleo, deu um passo em sua direção. Depois outro. E mais outro. Levou uma era para chegar aonde ela jazia. Aí hesitou. Ela não mais parecia uma mulher, mas um sátiro fétido, com dentes podres, chifres amarelados...
Mas os olhos eram os olhos de Daniela. A única.
Jon ajoelhou-se a custo e, inclinando-se, beijou suavemente a boca do monstro. Quis gritar de desespero, mas as únicas palavras que saíram de sua boca ao se voltar para o Senhor da Sina foram:
-- Eu graciosamente aceito meu fado. Ei-lo -- e ajudou o sátiro a se erguer.
-- Assim seja -- retrucou o Destino. Ato contínuo, apagou-se o fogo diante da mesa e tudo ficou às escuras. Logo Jon se deu conta que a caverna sumira.
CAPÍTULO XXIX
Nos olhos de Daniela estava a chave. Nada em suas órbitas mudara. Nada. Ali estava a essência de tudo o que Jon amava nela.
Então, fazendo um esforço hercúleo, deu um passo em sua direção. Depois outro. E mais outro. Levou uma era para chegar aonde ela jazia. Aí hesitou. Ela não mais parecia uma mulher, mas um sátiro fétido, com dentes podres, chifres amarelados...
Mas os olhos eram os olhos de Daniela. A única.
Jon ajoelhou-se a custo e, inclinando-se, beijou suavemente a boca do monstro. Quis gritar de desespero, mas as únicas palavras que saíram de sua boca ao se voltar para o Senhor da Sina foram:
-- Eu graciosamente aceito meu fado. Ei-lo -- e ajudou o sátiro a se erguer.
-- Assim seja -- retrucou o Destino. Ato contínuo, apagou-se o fogo diante da mesa e tudo ficou às escuras. Logo Jon se deu conta que a caverna sumira.
17.6.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XXVIII
Jon e Daniela ficaram em silêncio. Não podiam acreditar no que estavam ouvindo.
-- É o seu destino, seu fado -- disse a besta. -- Está escrito. Não há como fugir.
Jon tremia feito vara verde, mas ainda conseguia pensar. "Ora, se não tenho como fugir, que diabos! Por que desistir dela?" Mas tinha medo. Apoderava-se dele a sensação de fazer parte de uma ordem cósmica e colossal. Via-se, já, como o personagem de alguma tragédia neo-pós-grega, torturado pelas coisas que faz justamente porque TEM de fazê-las.
Olhou de novo para Daniela e de repente ela assomava associada às brumas cruéis do Destino. Pareceu-lhe feia e deformada. Pela primeira vez quis voltar no tempo e jamais tê-la conhecido.
Ela percebeu que ele titubeava. Agarrou seu braço, mas o Destino estalou os dedos e ela foi jogada para a parede oposta da câmara por uma corrente enregelante de ar.
-- Ele tem de fazer isso sozinho -- disse a voz na mente de Daniela. E ela sabia que assim era. Ficou ali, imóvel, ofegante, contemplando Jon.
Este precisou de toda a sua força de vontade para voltar seus olhos para ela. Da antiga beleza, restara apenas uma coisa meio amorfa que o medo criara. Mas seria medo? Ou era assim mesmo que Daniela ficava, sob a ótica da Sina? Ele não mais sabia.
Então seus olhos encontraram os dela.
CAPÍTULO XXVIII
Jon e Daniela ficaram em silêncio. Não podiam acreditar no que estavam ouvindo.
-- É o seu destino, seu fado -- disse a besta. -- Está escrito. Não há como fugir.
Jon tremia feito vara verde, mas ainda conseguia pensar. "Ora, se não tenho como fugir, que diabos! Por que desistir dela?" Mas tinha medo. Apoderava-se dele a sensação de fazer parte de uma ordem cósmica e colossal. Via-se, já, como o personagem de alguma tragédia neo-pós-grega, torturado pelas coisas que faz justamente porque TEM de fazê-las.
Olhou de novo para Daniela e de repente ela assomava associada às brumas cruéis do Destino. Pareceu-lhe feia e deformada. Pela primeira vez quis voltar no tempo e jamais tê-la conhecido.
Ela percebeu que ele titubeava. Agarrou seu braço, mas o Destino estalou os dedos e ela foi jogada para a parede oposta da câmara por uma corrente enregelante de ar.
-- Ele tem de fazer isso sozinho -- disse a voz na mente de Daniela. E ela sabia que assim era. Ficou ali, imóvel, ofegante, contemplando Jon.
Este precisou de toda a sua força de vontade para voltar seus olhos para ela. Da antiga beleza, restara apenas uma coisa meio amorfa que o medo criara. Mas seria medo? Ou era assim mesmo que Daniela ficava, sob a ótica da Sina? Ele não mais sabia.
Então seus olhos encontraram os dela.
14.6.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XXVII
O Destino tirou de algum lugar que não puderam precisar um livro enorme. Parecia a versão gigantesca de uma história infantil: quando se viravam as páginas, apareciam cenas em três dimensões que contavam sua própria história.
-- Aproximem-se -- disse, enquanto procurava a página certa. O cheiro de couro de pergaminho impregnou o ambiente. -- Deixem-me ver... Jon... Jon Lord... Oliveira.
Surgiu uma cena difusa na página virada pela criatura. Não dava para ver o que acontecia. Mas a um gesto tudo apareceu projetado numa das paredes da câmara.
E Jon sentiu engulhos de repente. A cena mostrava populações de cidades de todo o Brasil morrendo aos milhares de uma doença infecciosa. As pessoas tombavam nas ruas de um momento para o outro; era como na época da Peste Negra, no século XIV. Entretanto, aquilo era o futuro, constatou Jon.
-- Sim, eis o futuro. É exatamente o que você pensou: a volta da Peste Negra. Com grandes chances de virar pandemia.
Jon olhou uma das manchetes de jornal que apareciam na "película".
-- Mas... isso é daqui a sessenta anos! Com certeza já estaremos mortos até lá -- balbuciou, com muita dificuldade, pois seus dentes se entrechocavam.
O Destino olhou-o no fundo dos olhos, e seu olhar era implacável.
-- É claro. O responsável por isso será o filho de vocês. Ian Paice Oliveira. Um cientista brilhante, mas descuidado. Suas experiências com mutações e clonagem múltipla em microorganismos trarão a Peste Negra de volta em todo o seu esplendor.
CAPÍTULO XXVII
O Destino tirou de algum lugar que não puderam precisar um livro enorme. Parecia a versão gigantesca de uma história infantil: quando se viravam as páginas, apareciam cenas em três dimensões que contavam sua própria história.
-- Aproximem-se -- disse, enquanto procurava a página certa. O cheiro de couro de pergaminho impregnou o ambiente. -- Deixem-me ver... Jon... Jon Lord... Oliveira.
Surgiu uma cena difusa na página virada pela criatura. Não dava para ver o que acontecia. Mas a um gesto tudo apareceu projetado numa das paredes da câmara.
E Jon sentiu engulhos de repente. A cena mostrava populações de cidades de todo o Brasil morrendo aos milhares de uma doença infecciosa. As pessoas tombavam nas ruas de um momento para o outro; era como na época da Peste Negra, no século XIV. Entretanto, aquilo era o futuro, constatou Jon.
-- Sim, eis o futuro. É exatamente o que você pensou: a volta da Peste Negra. Com grandes chances de virar pandemia.
Jon olhou uma das manchetes de jornal que apareciam na "película".
-- Mas... isso é daqui a sessenta anos! Com certeza já estaremos mortos até lá -- balbuciou, com muita dificuldade, pois seus dentes se entrechocavam.
O Destino olhou-o no fundo dos olhos, e seu olhar era implacável.
-- É claro. O responsável por isso será o filho de vocês. Ian Paice Oliveira. Um cientista brilhante, mas descuidado. Suas experiências com mutações e clonagem múltipla em microorganismos trarão a Peste Negra de volta em todo o seu esplendor.
13.6.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XXVI
Um fogo queimava no fundo da caverna. Esta era estranhamente uniforme: não havia reentrâncias, saliências ou cavernas menores que os desviassem do caminho único, o qual levava a uma câmara enorme que era, efetivamente, o fim daquela formação rochosa.
Sentada a uma tosca mesa de madeira sem qualquer adorno, estava a criatura mais horrenda que Jon jamais vira. Pensou em todos os grandes monstros míticos -- a Hidra de Lerna, a Quimera, a Mantícora, o Basilisco, Cérbero... -- e constatou que o que contemplava aterrorizaria até mesmo alguém que só contasse com a visão periférica. Não demorou muito, começou a tremer convulsivamente. Nem mesmo um beijo de Daniela conseguiu acalmá-lo. Ficaram os dois parados diante daquela besta. Mas o que era aquilo? Um ser humanóide? Um animal? Um elemental?
-- Sou o Destino, Jon -- falou uma voz roufenha na mente do jornalista aterrorizado. -- E aviso desde já: você não pode ter Daniela. O Livre-Arbítrio de nada adianta; ele está morto há muito tempo e por isso está vagando nestas paragens.
E riu. A risada do Destino era pior que um milhão de facas penetrando seu corpo ao mesmo tempo.
CAPÍTULO XXVI
Um fogo queimava no fundo da caverna. Esta era estranhamente uniforme: não havia reentrâncias, saliências ou cavernas menores que os desviassem do caminho único, o qual levava a uma câmara enorme que era, efetivamente, o fim daquela formação rochosa.
Sentada a uma tosca mesa de madeira sem qualquer adorno, estava a criatura mais horrenda que Jon jamais vira. Pensou em todos os grandes monstros míticos -- a Hidra de Lerna, a Quimera, a Mantícora, o Basilisco, Cérbero... -- e constatou que o que contemplava aterrorizaria até mesmo alguém que só contasse com a visão periférica. Não demorou muito, começou a tremer convulsivamente. Nem mesmo um beijo de Daniela conseguiu acalmá-lo. Ficaram os dois parados diante daquela besta. Mas o que era aquilo? Um ser humanóide? Um animal? Um elemental?
-- Sou o Destino, Jon -- falou uma voz roufenha na mente do jornalista aterrorizado. -- E aviso desde já: você não pode ter Daniela. O Livre-Arbítrio de nada adianta; ele está morto há muito tempo e por isso está vagando nestas paragens.
E riu. A risada do Destino era pior que um milhão de facas penetrando seu corpo ao mesmo tempo.
12.6.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XXV
O dilema era apenas escolher a vida com ou sem Daniela. Na verdade, não era difícil. Jon olhou para ela, um portento de luz em meio ao jardim esmaecido, e sorriu. Tocou-lhe os cabelos.
-- Eu escolho você -- disse docemente. -- Embora você tenha me escolhido...
-- Assim seja -- declarou o Livre-Arbítrio, jogando um pozinho no ar que se iluminou com as sete cores do arco-íris e logo formou uma trilha alegre entre as cercas-vivas. -- É o caminho para sair do labirinto. Boa sorte.
Os dois seguiram pela trilha, que desembocava num portão. Em frente a este, estava a boca de uma caverna. Sentiram-se imediatamente atraídos para lá por uma compulsão irresistivel, como se estivesse escrito que deveriam entrar.
CAPÍTULO XXV
O dilema era apenas escolher a vida com ou sem Daniela. Na verdade, não era difícil. Jon olhou para ela, um portento de luz em meio ao jardim esmaecido, e sorriu. Tocou-lhe os cabelos.
-- Eu escolho você -- disse docemente. -- Embora você tenha me escolhido...
-- Assim seja -- declarou o Livre-Arbítrio, jogando um pozinho no ar que se iluminou com as sete cores do arco-íris e logo formou uma trilha alegre entre as cercas-vivas. -- É o caminho para sair do labirinto. Boa sorte.
Os dois seguiram pela trilha, que desembocava num portão. Em frente a este, estava a boca de uma caverna. Sentiram-se imediatamente atraídos para lá por uma compulsão irresistivel, como se estivesse escrito que deveriam entrar.
11.6.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XXIV
Depois de uma pausa, Jon começou:
-- Daniela me diz que tenho de pedir por ela, mas não deu detalhes...
-- Ah, não basta simplesmente pedir, jovem Jon -- respondeu o Livre-Arbítrio. -- Terá de resolver um dilema. Ou vários...
E, estendendo a mão sobre uma grande travessa reluzente, mostrou a Jon vários futuros possíveis. Num deles, estava casado com Daniela, com cinco filhos e morando num subúrbio feio, numa casa eternamente em obras, úmida, lúgubre. Noutro, os dois se entregavam a traições e agressões mútuas, o que resultava num divórcio para lá de litigioso. Noutro ainda, Daniela matava Jon por ciúmes de uma amiga escritora. Em todas as imagens dos dois juntos, havia uma espécie de urucubaca onipresente -- embora em alguns casos eles conseguissem vencer os problemas e viver juntos em relativa harmonia até ficarem bem velhinhos.
O futuro de Jon sem Daniela, que foi mostrado a seguir sobre uma tábua de carne polida, era melhor, mas nem sempre. Em alguns prognósticos ele se destacava no jornalismo, abiscoitando alguns prêmios Esso e chefiando um grande jornal; noutros se tornava um celebrado escritor. Mas havia imagens que o mostravam se entregando ao álcool e às drogas. A maioria das relações em que se envolvia não durava, embora houvesse ao menos um exemplo de casamento sossegado com uma jovem morena que ele acreditava não conhecer ainda.
Por fim, aquela estranha figura no jardim encerrou a sessão com um gesto.
-- Seu futuro pode estar entre estes. Ou não. Tudo depende de mim, ou de como você me manipular -- disse o Livre-Arbítrio. -- Mas saiba que nenhum caminho é sem dor.
CAPÍTULO XXIV
Depois de uma pausa, Jon começou:
-- Daniela me diz que tenho de pedir por ela, mas não deu detalhes...
-- Ah, não basta simplesmente pedir, jovem Jon -- respondeu o Livre-Arbítrio. -- Terá de resolver um dilema. Ou vários...
E, estendendo a mão sobre uma grande travessa reluzente, mostrou a Jon vários futuros possíveis. Num deles, estava casado com Daniela, com cinco filhos e morando num subúrbio feio, numa casa eternamente em obras, úmida, lúgubre. Noutro, os dois se entregavam a traições e agressões mútuas, o que resultava num divórcio para lá de litigioso. Noutro ainda, Daniela matava Jon por ciúmes de uma amiga escritora. Em todas as imagens dos dois juntos, havia uma espécie de urucubaca onipresente -- embora em alguns casos eles conseguissem vencer os problemas e viver juntos em relativa harmonia até ficarem bem velhinhos.
O futuro de Jon sem Daniela, que foi mostrado a seguir sobre uma tábua de carne polida, era melhor, mas nem sempre. Em alguns prognósticos ele se destacava no jornalismo, abiscoitando alguns prêmios Esso e chefiando um grande jornal; noutros se tornava um celebrado escritor. Mas havia imagens que o mostravam se entregando ao álcool e às drogas. A maioria das relações em que se envolvia não durava, embora houvesse ao menos um exemplo de casamento sossegado com uma jovem morena que ele acreditava não conhecer ainda.
Por fim, aquela estranha figura no jardim encerrou a sessão com um gesto.
-- Seu futuro pode estar entre estes. Ou não. Tudo depende de mim, ou de como você me manipular -- disse o Livre-Arbítrio. -- Mas saiba que nenhum caminho é sem dor.
10.6.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XXIII
Não se levantaram imediatamente; a preguiça do amor tomou-os por alguns instantes. Por fim, ergueram-se e começaram a explorar o lugar. A noite estava quente, mas uma brisa fresca soprava entre os arbustos e eles passearam pelo labirinto, colhendo frutas aqui e ali para enganar a fome que de repente os tomou de assalto. Não demorou muito, chegaram a uma pequena fonte, diante da qual, sentado a uma mesa com tabuleiros de vários jogos diferentes -- de gamão a diplomacy -- e vestido com uma roupa que parecia reunir estilos de várias épocas, estava um estranho ser. Fumava um charuto, mas a seu lado havia maços de cigarros, cachimbos e cigarrilhas; cestas de frutas ombreavam-se com pratos de carne e peixe perto da fonte, enquanto ele saboreava um brigadeiro.
Mas o mais curioso era sua face. Tinha um olho azul e outro verde; meio bigode sob o nariz; metade do cabelo era cortado à escovinha, enquanto o outro lado escorria pelos seus ombros; e, se o tórax era bem desenhado, era difícil esconder a barriga que se lhe seguia.
Jon e Daniela pararam, observando a figura. Ele largou o brigadeiro por um cacho de uvas pouco antes de vê-los; quando finalmente os descobriu, não sabia se se levantava ou permanecia sentado. Por fim, ficou onde estava e os chamou para perto.
-- Esperava por vocês. Meio limbo já fala da beleza de nossa cara Daniela. Não admira que ela queira aproveitar este belo corpo por mais alguns anos -- sorriu. -- E você deve ser o Jon.
Jon assentiu.
-- Muito prazer. Eu sou o Livre-Arbítrio.
CAPÍTULO XXIII
Não se levantaram imediatamente; a preguiça do amor tomou-os por alguns instantes. Por fim, ergueram-se e começaram a explorar o lugar. A noite estava quente, mas uma brisa fresca soprava entre os arbustos e eles passearam pelo labirinto, colhendo frutas aqui e ali para enganar a fome que de repente os tomou de assalto. Não demorou muito, chegaram a uma pequena fonte, diante da qual, sentado a uma mesa com tabuleiros de vários jogos diferentes -- de gamão a diplomacy -- e vestido com uma roupa que parecia reunir estilos de várias épocas, estava um estranho ser. Fumava um charuto, mas a seu lado havia maços de cigarros, cachimbos e cigarrilhas; cestas de frutas ombreavam-se com pratos de carne e peixe perto da fonte, enquanto ele saboreava um brigadeiro.
Mas o mais curioso era sua face. Tinha um olho azul e outro verde; meio bigode sob o nariz; metade do cabelo era cortado à escovinha, enquanto o outro lado escorria pelos seus ombros; e, se o tórax era bem desenhado, era difícil esconder a barriga que se lhe seguia.
Jon e Daniela pararam, observando a figura. Ele largou o brigadeiro por um cacho de uvas pouco antes de vê-los; quando finalmente os descobriu, não sabia se se levantava ou permanecia sentado. Por fim, ficou onde estava e os chamou para perto.
-- Esperava por vocês. Meio limbo já fala da beleza de nossa cara Daniela. Não admira que ela queira aproveitar este belo corpo por mais alguns anos -- sorriu. -- E você deve ser o Jon.
Jon assentiu.
-- Muito prazer. Eu sou o Livre-Arbítrio.
9.6.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XXII
O corpo dela era mais-que-perfeito: os seios, jovens pêras alvas de bicos achocolatados, emoldurados pelos ombros arrredondados mais apolíneos que já existiram. Os cabelos voavam diante da tela interdimensional que continuava passando seu filme; os fios pareciam uma chuva de fogo negro e vermelho diante das montanhas brancas do Everest que agora surgiam na parede. O ventre subia e descia suavemente reclinado sobre o sofá; as pernas, semiflexionadas, tinham o movimento gracioso das grandes aves, mas sua carne era lisa e estranhamente quente (estará ela mesmo morta?, pensou ele). As mãos suplicavam,delicadas, que ele se deitasse sobre ela; os lábios estavam entreabertos e tremelicavam de modo quase imperceptível.
Ele a tomou nos braços e a beijou de novo, recriando o turbilhão em seu cérebro que o prostrara no parque. Beijou devagar o corpo todo, sugando cada poro daquele milagre, fazendo a língua rodopiar pelas aréolas e suas pontas arrebitadas, encostando seu nariz no doce veludo sob o umbigo. Quando a penetrou, sentiu o vórtice em sua cabeça gemer e acelerar, e não demorou muito os dois explodiram de prazer no exato instante em que o teto do apartamento sumiu, substituído por um céu estrelado de Van Gogh. Estavam num jardim com cercas-vivas em forma de labirinto.
CAPÍTULO XXII
O corpo dela era mais-que-perfeito: os seios, jovens pêras alvas de bicos achocolatados, emoldurados pelos ombros arrredondados mais apolíneos que já existiram. Os cabelos voavam diante da tela interdimensional que continuava passando seu filme; os fios pareciam uma chuva de fogo negro e vermelho diante das montanhas brancas do Everest que agora surgiam na parede. O ventre subia e descia suavemente reclinado sobre o sofá; as pernas, semiflexionadas, tinham o movimento gracioso das grandes aves, mas sua carne era lisa e estranhamente quente (estará ela mesmo morta?, pensou ele). As mãos suplicavam,delicadas, que ele se deitasse sobre ela; os lábios estavam entreabertos e tremelicavam de modo quase imperceptível.
Ele a tomou nos braços e a beijou de novo, recriando o turbilhão em seu cérebro que o prostrara no parque. Beijou devagar o corpo todo, sugando cada poro daquele milagre, fazendo a língua rodopiar pelas aréolas e suas pontas arrebitadas, encostando seu nariz no doce veludo sob o umbigo. Quando a penetrou, sentiu o vórtice em sua cabeça gemer e acelerar, e não demorou muito os dois explodiram de prazer no exato instante em que o teto do apartamento sumiu, substituído por um céu estrelado de Van Gogh. Estavam num jardim com cercas-vivas em forma de labirinto.
8.6.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XXI
-- Pobre Jon -- condoeu-se Daniela, parecendo-lhe frágil pela primeira vez. -- Você precisa se acalmar. Venha, tome um gole de conhaque.
Ele tomou dois e a tremedeira arrefeceu.
-- Oh, meu Deus, tem certeza que isto não é uma trip de ácido?
-- Você vem comigo? Olhe, eu sei que tudo parece uma loucura para você. Mas é minha única chance. Seus sentimentos por mim conseguiram fazê-lo penetrar nesta outra dimensão. E, embora o tenha atraído com um propósito, eu devo confessar que... você é uma graça. Alguém especial. É sério. Se eu conseguir voltar, teremos os dois uma chance de verdade...
Ele não sabia se era uma entidade ou uma mulher falando. Mas já decidira.
-- Muito bem. Eu vou. Suponho que devo regredir, como você fez?
-- Oh, não. Poderia acontecer com você o mesmo que aconteceu comigo, e aí, adeus. Não, é bem mais simples -- disse Daniela, desabotoando a blusa. -- Faça amor comigo.
CAPÍTULO XXI
-- Pobre Jon -- condoeu-se Daniela, parecendo-lhe frágil pela primeira vez. -- Você precisa se acalmar. Venha, tome um gole de conhaque.
Ele tomou dois e a tremedeira arrefeceu.
-- Oh, meu Deus, tem certeza que isto não é uma trip de ácido?
-- Você vem comigo? Olhe, eu sei que tudo parece uma loucura para você. Mas é minha única chance. Seus sentimentos por mim conseguiram fazê-lo penetrar nesta outra dimensão. E, embora o tenha atraído com um propósito, eu devo confessar que... você é uma graça. Alguém especial. É sério. Se eu conseguir voltar, teremos os dois uma chance de verdade...
Ele não sabia se era uma entidade ou uma mulher falando. Mas já decidira.
-- Muito bem. Eu vou. Suponho que devo regredir, como você fez?
-- Oh, não. Poderia acontecer com você o mesmo que aconteceu comigo, e aí, adeus. Não, é bem mais simples -- disse Daniela, desabotoando a blusa. -- Faça amor comigo.
Para reforçar: já estão no Amigos Blogueiros as fotos do encontro na quinta-feira. A bela Bani caprichou, elas ficaram ótimas e refletem o clima da festa.
7.6.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XX
Ela fez um gesto com a mão e uma espécie de tela meio informe surgiu na parede à sua frente. Assim que a imagem clareou, Jon viu Prometeu, exatamente como ela descrevera, e a águia ocupada em devorar seu fígado; criaturas dos trabalhos de Héracles; e alguns escritores como Artaud, Álvaro de Campos (mas não Pessoa) e Shelley. Não havia palavras para descrever o estranho mundo que contemplava; talvez bastasse dizer que a impressão que tais visões lhe causaram foi realmente indelével para o resto de sua vida. Não que ela o tivesse tornado um zumbi, como alguns cogumelos ou microgramas excessivos de LSD podem fazer; mas ele sabia que sua alma se regozijava a cada lembrança das criaturas e paisagens que se sucediam naquele holograma límbico. A beleza das ninfas entretidas em seus jogos naturalmente sensuais, a sabedoria das criações de Shakespeare (ver Julieta consolando Hamlet foi inesquecível), a pujante ousadia da irmandade de Tolkien e a fúria autoconfiante de Rolando e Ganelão em justas intermináveis, o lirismo invencível de Rubem Braga... E ele chorou quando viu a beleza imaculada da modelo do retrato oval de Allan Poe.
CAPÍTULO XX
Ela fez um gesto com a mão e uma espécie de tela meio informe surgiu na parede à sua frente. Assim que a imagem clareou, Jon viu Prometeu, exatamente como ela descrevera, e a águia ocupada em devorar seu fígado; criaturas dos trabalhos de Héracles; e alguns escritores como Artaud, Álvaro de Campos (mas não Pessoa) e Shelley. Não havia palavras para descrever o estranho mundo que contemplava; talvez bastasse dizer que a impressão que tais visões lhe causaram foi realmente indelével para o resto de sua vida. Não que ela o tivesse tornado um zumbi, como alguns cogumelos ou microgramas excessivos de LSD podem fazer; mas ele sabia que sua alma se regozijava a cada lembrança das criaturas e paisagens que se sucediam naquele holograma límbico. A beleza das ninfas entretidas em seus jogos naturalmente sensuais, a sabedoria das criações de Shakespeare (ver Julieta consolando Hamlet foi inesquecível), a pujante ousadia da irmandade de Tolkien e a fúria autoconfiante de Rolando e Ganelão em justas intermináveis, o lirismo invencível de Rubem Braga... E ele chorou quando viu a beleza imaculada da modelo do retrato oval de Allan Poe.
6.6.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XIX
Nos minutos seguintes, Daniela desfiou pelo que pareceu a ele uma eternidade as histórias mais maravilhosas que haviam surgido desde a aurora da humanidade. Lendas sumérias, egípcias e assírias desfilaram com garbo diante dos ouvidos agora maravilhados de Jon. Ele ficou sabendo também que fim levaram muitos dos mais belos mitos da Hélade, e no processo descobriu ainda um pouco mais das maravilhas do Velho Testamento; ouviu fascinado os encontros de Daniela com personagens tão díspares quando Gregor Samsa e Dorian Gray; e soube ainda que certos escritores desciam (ou subiam) tão profundamente em suas fantasias que por vezes acabavam no mesmo limbo, misturados com seus personagens e ambientes imaginários.
-- Joachim, meu "pai", é Jorge Luis Borges. E aquele moreno barbudo que você encontrou no elevador é Carlos Brito, um jovem escritor que se viu de repente vagando assustado por seu conto de mistério "A profecia".
-- Mas por que eu os vejo aqui?
-- Porque você já está envolvido comigo de algum modo, e a meio caminho da terra de ninguém. Então, algumas figuras interagem com você.
De repente Jon olhou em volta e se deu conta de que sua noção de realidade poderia estar toda errada.
-- E esse apartamento, existe? E você dando telefonemas, e a história de estudar moda... Eu já não sei mais o que é verdade ou mentira! -- exclamou.
Daniela pôs a mão em seu peito.
-- Calma. Como fiquei nesse limbo, não perdi contato com tudo. Esse é o apartamento em que moro, ou morei; ainda não sabem direito o que aconteceu comigo. E consigo falar por telefone com algumas amigas, mais sensitivas. Como aquela esotérica. Então dou a impressão de ainda estar por aí, embora não apareça, entendeu? Digo que estou doente, ou viajando...
-- E sua família? Você não tem família?
-- Eles moram longe, no interior de Santa Catarina. E, lembre-se, faz apenas algumas semanas que tudo rolou. A gente não se fala com freqüência.
-- E aquela história da noite de amor com pizza e vinho? Bastante real, não?
Ela sentiu o ciúme fervendo dentro do medo dele.
-- Perdoe... Eu... eu dormi com o visconde de Valmont, entende? Era impossível resistir... Por favor, entenda, naquela realidade você simplesmente se envolve, não há como ficar alheia...
Jon ficou quieto. Foi Daniela quem falou de novo:
-- Você ainda não acredita, não é? Olhe.
CAPÍTULO XIX
Nos minutos seguintes, Daniela desfiou pelo que pareceu a ele uma eternidade as histórias mais maravilhosas que haviam surgido desde a aurora da humanidade. Lendas sumérias, egípcias e assírias desfilaram com garbo diante dos ouvidos agora maravilhados de Jon. Ele ficou sabendo também que fim levaram muitos dos mais belos mitos da Hélade, e no processo descobriu ainda um pouco mais das maravilhas do Velho Testamento; ouviu fascinado os encontros de Daniela com personagens tão díspares quando Gregor Samsa e Dorian Gray; e soube ainda que certos escritores desciam (ou subiam) tão profundamente em suas fantasias que por vezes acabavam no mesmo limbo, misturados com seus personagens e ambientes imaginários.
-- Joachim, meu "pai", é Jorge Luis Borges. E aquele moreno barbudo que você encontrou no elevador é Carlos Brito, um jovem escritor que se viu de repente vagando assustado por seu conto de mistério "A profecia".
-- Mas por que eu os vejo aqui?
-- Porque você já está envolvido comigo de algum modo, e a meio caminho da terra de ninguém. Então, algumas figuras interagem com você.
De repente Jon olhou em volta e se deu conta de que sua noção de realidade poderia estar toda errada.
-- E esse apartamento, existe? E você dando telefonemas, e a história de estudar moda... Eu já não sei mais o que é verdade ou mentira! -- exclamou.
Daniela pôs a mão em seu peito.
-- Calma. Como fiquei nesse limbo, não perdi contato com tudo. Esse é o apartamento em que moro, ou morei; ainda não sabem direito o que aconteceu comigo. E consigo falar por telefone com algumas amigas, mais sensitivas. Como aquela esotérica. Então dou a impressão de ainda estar por aí, embora não apareça, entendeu? Digo que estou doente, ou viajando...
-- E sua família? Você não tem família?
-- Eles moram longe, no interior de Santa Catarina. E, lembre-se, faz apenas algumas semanas que tudo rolou. A gente não se fala com freqüência.
-- E aquela história da noite de amor com pizza e vinho? Bastante real, não?
Ela sentiu o ciúme fervendo dentro do medo dele.
-- Perdoe... Eu... eu dormi com o visconde de Valmont, entende? Era impossível resistir... Por favor, entenda, naquela realidade você simplesmente se envolve, não há como ficar alheia...
Jon ficou quieto. Foi Daniela quem falou de novo:
-- Você ainda não acredita, não é? Olhe.
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XVIII
-- Não, seu bobo -- disse ela. -- É você. Não parou para pensar que aquele dia na livraria todo mundo estava olhando esquisito para você? E na padaria, dias atrás, não percebeu que todos riam quando me beijava? Só você me via, Jon. A essa altura, já deve estar sendo tachado de maluco.
-- Mas você existe. O jeito como achei seu endereço... o número do cartão de crédito... ah, desculpe, não era para você saber.... -- Passou a mão pela testa, ainda apavorado.
-- É claro que existo. Sou desta época. Desapareci há poucas semanas. E eu sabia que você ia fazer aquilo. Segundo as regras, eu devia atraí-lo, mas você tinha de me procurar por iniciativa própria.
Jon pensou: "como se eu tivesse tido alguma escolha depois que a vi..." Mas sua mente aguda tinha de tirar aquilo a limpo. Ainda lhe restava uma fímbria de coragem. Olhou dentro dos olhos dela.
-- Daniela, eu... estou aterrorizado. Você entende, não?
Ela suspirou, mas assentiu, ainda acariciando seus cabelos.
-- E como posso saber se o que diz é verdade?
-- Preste muita atenção.
CAPÍTULO XVIII
-- Não, seu bobo -- disse ela. -- É você. Não parou para pensar que aquele dia na livraria todo mundo estava olhando esquisito para você? E na padaria, dias atrás, não percebeu que todos riam quando me beijava? Só você me via, Jon. A essa altura, já deve estar sendo tachado de maluco.
-- Mas você existe. O jeito como achei seu endereço... o número do cartão de crédito... ah, desculpe, não era para você saber.... -- Passou a mão pela testa, ainda apavorado.
-- É claro que existo. Sou desta época. Desapareci há poucas semanas. E eu sabia que você ia fazer aquilo. Segundo as regras, eu devia atraí-lo, mas você tinha de me procurar por iniciativa própria.
Jon pensou: "como se eu tivesse tido alguma escolha depois que a vi..." Mas sua mente aguda tinha de tirar aquilo a limpo. Ainda lhe restava uma fímbria de coragem. Olhou dentro dos olhos dela.
-- Daniela, eu... estou aterrorizado. Você entende, não?
Ela suspirou, mas assentiu, ainda acariciando seus cabelos.
-- E como posso saber se o que diz é verdade?
-- Preste muita atenção.
5.6.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XVII
-- O Prometeu do mito? -- perguntou Jon, incrédulo.
-- O próprio. Mas deixe-me ir até o fim. A águia demorou-se alguns minutos e alçou vôo novamente. Ofegante, ele se identificou e explicou porque eu estava ali: "Por ter morrido numa espécie de limbo espiritual, e não na realidade da Peste Negra", disse, "você veio parar no inconsciente coletivo que reúne seres míticos e personagens das grandes histórias de todos os tempos. Daniela -- este é seu nome, não? --, você está condenada a vagar por este limbo para todo o sempre... E desde já aviso: haverá boas companhias, como eu... mas também as criações mais terríveis da mente humana. Todas as epifanias e quimeras convivem aqui. E o pior é que algumas interferem nas outras...". "Aposto que é por isso que o Hércules ainda não te salvou por aqui, não?", perguntei por minha vez. Ele riu: "Ah, isso faz parte do mito. Hércules era o maior loroteiro da paróquia. Dos doze trabalhos ele só fez uns sete, pelo que me lembro. O resto, mandou um monte de 'laranjas' fazerem por ele..."
Jon ouvia e não sabia o que pensar. Mas suas pernas estavam paralisadas. Uma gota de suor salgou seu olho esquerdo. Daniela continuava:
-- Por fim, perguntei a ele se não tinha uma chance de retomar minha vida carnal. "Só se você achar uma conexão com o mundo vivo. E essa conexão tem de se encontrar com os três mestres que governam os limbos, e pedir por você."
A essa altura, Daniela olhou significativamente para Jon e, depois de um beijo em sua testa agora empapada de suor gelado, falou suavemente:
-- Adivinha quem é a conexão...
-- Aquele sujeito barbudo do elevador?
A risada de Daniela ecoou por todo o corpo de Jon.
CAPÍTULO XVII
-- O Prometeu do mito? -- perguntou Jon, incrédulo.
-- O próprio. Mas deixe-me ir até o fim. A águia demorou-se alguns minutos e alçou vôo novamente. Ofegante, ele se identificou e explicou porque eu estava ali: "Por ter morrido numa espécie de limbo espiritual, e não na realidade da Peste Negra", disse, "você veio parar no inconsciente coletivo que reúne seres míticos e personagens das grandes histórias de todos os tempos. Daniela -- este é seu nome, não? --, você está condenada a vagar por este limbo para todo o sempre... E desde já aviso: haverá boas companhias, como eu... mas também as criações mais terríveis da mente humana. Todas as epifanias e quimeras convivem aqui. E o pior é que algumas interferem nas outras...". "Aposto que é por isso que o Hércules ainda não te salvou por aqui, não?", perguntei por minha vez. Ele riu: "Ah, isso faz parte do mito. Hércules era o maior loroteiro da paróquia. Dos doze trabalhos ele só fez uns sete, pelo que me lembro. O resto, mandou um monte de 'laranjas' fazerem por ele..."
Jon ouvia e não sabia o que pensar. Mas suas pernas estavam paralisadas. Uma gota de suor salgou seu olho esquerdo. Daniela continuava:
-- Por fim, perguntei a ele se não tinha uma chance de retomar minha vida carnal. "Só se você achar uma conexão com o mundo vivo. E essa conexão tem de se encontrar com os três mestres que governam os limbos, e pedir por você."
A essa altura, Daniela olhou significativamente para Jon e, depois de um beijo em sua testa agora empapada de suor gelado, falou suavemente:
-- Adivinha quem é a conexão...
-- Aquele sujeito barbudo do elevador?
A risada de Daniela ecoou por todo o corpo de Jon.
4.6.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XVI
-- Não me machuque -- gaguejou Jon.
Daniela tomou-o pelo braço e fê-lo sentar no sofá novamente, com delicadeza. Beijou-o na face e ele temporariamente se sentiu calmo e apaziguado. Sim, estava falando com uma mulher morta, disse-lhe Daniela, mas não havia porque sentir medo. Nenhum morto pode fazer mal a qualquer ser vivente, garantiu. Pediu-lhe que prestasse atenção, porque não havia muito tempo.
Jon estava entorpecido, mas ainda tinha pulgas suficientes atrás da orelha para perguntar como diabos ela viera parar ali, se havia mesmo passado desta para a melhor.
-- Bom, depois de todo o sofrimento com a peste eu acordei numa espécie de bosque de oliveiras. Ali estava sentado um sujeito que já fora forte, dava para notar, mas agora estava carcomido pela doença. Ele falou numa língua a princípio estranha, mas o curioso é que mentalmente eu sabia que aquilo era grego antigo e podia entendê-lo. E antes que ele me dissesse três frases, uma água desceu como uma flecha dos céus e bicou a ferida, a essa altura gangrenada, que ele tinha na altura do abdome. Então percebi que estava na Hélade e aquele era Prometeu.
CAPÍTULO XVI
-- Não me machuque -- gaguejou Jon.
Daniela tomou-o pelo braço e fê-lo sentar no sofá novamente, com delicadeza. Beijou-o na face e ele temporariamente se sentiu calmo e apaziguado. Sim, estava falando com uma mulher morta, disse-lhe Daniela, mas não havia porque sentir medo. Nenhum morto pode fazer mal a qualquer ser vivente, garantiu. Pediu-lhe que prestasse atenção, porque não havia muito tempo.
Jon estava entorpecido, mas ainda tinha pulgas suficientes atrás da orelha para perguntar como diabos ela viera parar ali, se havia mesmo passado desta para a melhor.
-- Bom, depois de todo o sofrimento com a peste eu acordei numa espécie de bosque de oliveiras. Ali estava sentado um sujeito que já fora forte, dava para notar, mas agora estava carcomido pela doença. Ele falou numa língua a princípio estranha, mas o curioso é que mentalmente eu sabia que aquilo era grego antigo e podia entendê-lo. E antes que ele me dissesse três frases, uma água desceu como uma flecha dos céus e bicou a ferida, a essa altura gangrenada, que ele tinha na altura do abdome. Então percebi que estava na Hélade e aquele era Prometeu.
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XV
-- O ano da Peste Negra -- disse Jon. Não sabia se acreditava na mulher à sua frente, mas era suficientemente supersticioso para saber que existem mundos ocultos por aí que não podemos alcançar. E Daniela tinha um jeito tão hipnótico quanto o do terapeuta que descrevera.
-- Pois é. Eu morri duas semanas depois. E não consegui voltar da regressão.
Jon começou a tremer.
Levantou-se e tentou fugir, mas as pernas falharam.
Daniela riu, estalou os dedos e a porta da sala, que ficara entreaberta, fechou-se e trancou-se. Sozinha.
CAPÍTULO XV
-- O ano da Peste Negra -- disse Jon. Não sabia se acreditava na mulher à sua frente, mas era suficientemente supersticioso para saber que existem mundos ocultos por aí que não podemos alcançar. E Daniela tinha um jeito tão hipnótico quanto o do terapeuta que descrevera.
-- Pois é. Eu morri duas semanas depois. E não consegui voltar da regressão.
Jon começou a tremer.
Levantou-se e tentou fugir, mas as pernas falharam.
Daniela riu, estalou os dedos e a porta da sala, que ficara entreaberta, fechou-se e trancou-se. Sozinha.
31.5.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XIV
Ele obedeceu e ela sentou-se a seu lado, de repente séria. -- Você já ouviu falar de terapia de regressão?
-- Aquele negócio de vidas passadas, etc e tal...
-- Isso aí.
Ela fez uma pausa, então prosseguiu:
-- Bom, faz uns meses eu tive uns problemas pessoais. Terminei um longo namoro que me deixou mal pacas, entrei em depressão, parei de comer... você percebe o quadro. Como moro sozinha, resolvi chamar uma amiga para me fazer companhia. Fiz análise, tomei uns remedinhos e até melhorei um pouco, mas não estava satisfeita e a depressão, quando baixava, vinha como o martelo de Thor. Então, essa minha amiga, que é toda esotérica, sugeriu que eu fizesse uma regressão. Ela disse que conhecia um terapeuta sério, que ajudara outras pessoas, e que não custava nada tentar.
Jon assentiu.
-- Enfim, resolvi ir até lá e ver qual era. Conversei com o terapeuta, um certo Augusto Mendes, e ele me pareceu mesmo um bom sujeito. Deitei-me num divã e a sessão começou. Através de sugestão hipnótica, ele me fez primeiro relaxar e depois me induziu a uma espécie de estase. Não sei direito o que aconteceu a princípio, porque a gente meio que fica num limbo escuro e confortável. Até que olhei para meus pés descalços e me perguntei: "mas como posso estar descalça se calçava tênis há um segundo?" Aí vi a grama sob os pés. E a barra de um vestido rústico, bem sujo. Eu carregava uma cesta de frutas silvestres e podia sentir o mau cheiro de meu próprio corpo, que não devia ver um banho há milênios. De repente o campo visual se abriu e me achei no meio de um vasto pomar, onde várias outras mulheres vestidas como eu colhiam bagas. O sol baixava e ao longe via-se um castelo medieval -- novinho em folha, diga-se de passagem. E tive certeza: estava no ano de 1348. Na França.
CAPÍTULO XIV
Ele obedeceu e ela sentou-se a seu lado, de repente séria. -- Você já ouviu falar de terapia de regressão?
-- Aquele negócio de vidas passadas, etc e tal...
-- Isso aí.
Ela fez uma pausa, então prosseguiu:
-- Bom, faz uns meses eu tive uns problemas pessoais. Terminei um longo namoro que me deixou mal pacas, entrei em depressão, parei de comer... você percebe o quadro. Como moro sozinha, resolvi chamar uma amiga para me fazer companhia. Fiz análise, tomei uns remedinhos e até melhorei um pouco, mas não estava satisfeita e a depressão, quando baixava, vinha como o martelo de Thor. Então, essa minha amiga, que é toda esotérica, sugeriu que eu fizesse uma regressão. Ela disse que conhecia um terapeuta sério, que ajudara outras pessoas, e que não custava nada tentar.
Jon assentiu.
-- Enfim, resolvi ir até lá e ver qual era. Conversei com o terapeuta, um certo Augusto Mendes, e ele me pareceu mesmo um bom sujeito. Deitei-me num divã e a sessão começou. Através de sugestão hipnótica, ele me fez primeiro relaxar e depois me induziu a uma espécie de estase. Não sei direito o que aconteceu a princípio, porque a gente meio que fica num limbo escuro e confortável. Até que olhei para meus pés descalços e me perguntei: "mas como posso estar descalça se calçava tênis há um segundo?" Aí vi a grama sob os pés. E a barra de um vestido rústico, bem sujo. Eu carregava uma cesta de frutas silvestres e podia sentir o mau cheiro de meu próprio corpo, que não devia ver um banho há milênios. De repente o campo visual se abriu e me achei no meio de um vasto pomar, onde várias outras mulheres vestidas como eu colhiam bagas. O sol baixava e ao longe via-se um castelo medieval -- novinho em folha, diga-se de passagem. E tive certeza: estava no ano de 1348. Na França.
30.5.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XIII
No encontro seguinte, Jon teve uma sensação estranha.
O corredor escuro agora lhe pareceu um labirinto. De repente, ele não sabia mais qual era a porta do 902. No elevador cruzara com um sujeito estranho, alto, moreno, barbudo, de óculos. O homem entrara esbaforido à medida que ele saía para o corredor, e, estranhamente, parecia não vir de lugar nenhum do corredor. Parecia ter saído, sabe-se lá, de dentro da caixa da mangueira de incêndio. Exalava um bafo de cerveja e levava uma edição gasta de “O Túnel”, de Ernesto Sábato. Os olhos eram negros e angustiados; ele mediu Jon de alto a baixo enquanto se postava numa posição curvada e desajeitada, com a mão que segurava o livro pousada, torta, sobre a cintura.
Jon sentiu arrepios naquela fração de segundo.
A porta do apartamento estava entreaberta. Ele entrou e a primeira coisa que ouviu foi a risada cristalina de Daniela. Ela estava ao telefone, aparentemente conversando com uma amiga, já que falava dos atributos físicos de um homem. Desligou pouco depois e voltou-se para Jon.
-- Oi, querido -- Abraçou-o.
-- Tudo bem? -- Depois de um beijo e uma pausa: -- Tem umas figuras esquisitas nesse seu prédio, não? Acabei de ver um sujeito barbudo que pareceu surgir do nada aí fora...
Ela deu de ombros.
-- É, são os efeitos colaterais da minha experiência.
-- É a tal viagem de que você me falou?
-- É, mais ou menos. Senta aqui -- apontou para o sofá.
CAPÍTULO XIII
No encontro seguinte, Jon teve uma sensação estranha.
O corredor escuro agora lhe pareceu um labirinto. De repente, ele não sabia mais qual era a porta do 902. No elevador cruzara com um sujeito estranho, alto, moreno, barbudo, de óculos. O homem entrara esbaforido à medida que ele saía para o corredor, e, estranhamente, parecia não vir de lugar nenhum do corredor. Parecia ter saído, sabe-se lá, de dentro da caixa da mangueira de incêndio. Exalava um bafo de cerveja e levava uma edição gasta de “O Túnel”, de Ernesto Sábato. Os olhos eram negros e angustiados; ele mediu Jon de alto a baixo enquanto se postava numa posição curvada e desajeitada, com a mão que segurava o livro pousada, torta, sobre a cintura.
Jon sentiu arrepios naquela fração de segundo.
A porta do apartamento estava entreaberta. Ele entrou e a primeira coisa que ouviu foi a risada cristalina de Daniela. Ela estava ao telefone, aparentemente conversando com uma amiga, já que falava dos atributos físicos de um homem. Desligou pouco depois e voltou-se para Jon.
-- Oi, querido -- Abraçou-o.
-- Tudo bem? -- Depois de um beijo e uma pausa: -- Tem umas figuras esquisitas nesse seu prédio, não? Acabei de ver um sujeito barbudo que pareceu surgir do nada aí fora...
Ela deu de ombros.
-- É, são os efeitos colaterais da minha experiência.
-- É a tal viagem de que você me falou?
-- É, mais ou menos. Senta aqui -- apontou para o sofá.
27.5.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XII
Sentaram-se num canto da padaria e conversaram. Ela revelou-lhe que era estudante de moda, e ele, mais apaziguado depois de uma xícara de café, riu, dizendo que era a última coisa que a imaginava fazendo. Ela replicou dizendo que desenhar a relaxava, que havia técnicas malucas para isso, como tentar fazê-lo com o lado direito do cérebro ("seja lá o que for isso", pensou ele com seus botões), além de aulas de história da arte. Ele falou um pouco de sua vida de jornalista, de suas insatisfações com os longos hiatos entre os poucos textos literários que conseguia escrever.
-- Aquele velho cego que mora com você é mesmo seu pai? -- perguntou Jon após uma pausa.
-- Que velho?
-- Como é mesmo o nome? Joaquim, mas pronunciado de forma meio gutural...
-- Ah, Joachim. Não, ele não é meu pai. Diz que é para não assustar as pessoas. É mais... um amigo.
-- Não é perigoso ele andar sozinho por aí assim?
-- O "por aí" onde ele anda é bastante seguro. E lá ele enxerga bem.
Jon não entendeu e ficou olhando para ela, que percebeu.
-- Vou explicar depois, tá? Tem que ser aos poucos.
Ele ficou quieto um tempo e perguntou se, se quisesse beijá-la, também tinha de ser aos poucos. Ela riu, deu a volta na mesa, sentou-se a seu lado e beijou sua boca. Ele fechou os olhos e ficou recordando o corpo branco, perfeito, que vira no apartamento, combinando de modo tão sensacional com o gostinho de leite e chocolate na boca de Daniela que chegou a ficar tonto e esqueceu por alguns segundos de correr atrás da língua da fêmea que acariciava seu palato.
-- Preciso ir nessa -- disse ela, ofegando um pouco depois do beijo.
-- Quero fazer amor com você. Direito, não como aquela loucura no parque -- pediu ele.
-- Mas daquele jeito é que é bom... -- Os olhos do Desejo faiscaram. -- Tudo bem, mas depois. Agora não dá.
-- Tudo bem.
-- Não fique amuado, tá bom? Quero que você faça uma viagem comigo.
-- Sério?
-- Sério. A gente se fala amanhã. Me liga?
Ele assentiu. Ela se foi, linda e despudorada pela manhã carioca.
CAPÍTULO XII
Sentaram-se num canto da padaria e conversaram. Ela revelou-lhe que era estudante de moda, e ele, mais apaziguado depois de uma xícara de café, riu, dizendo que era a última coisa que a imaginava fazendo. Ela replicou dizendo que desenhar a relaxava, que havia técnicas malucas para isso, como tentar fazê-lo com o lado direito do cérebro ("seja lá o que for isso", pensou ele com seus botões), além de aulas de história da arte. Ele falou um pouco de sua vida de jornalista, de suas insatisfações com os longos hiatos entre os poucos textos literários que conseguia escrever.
-- Aquele velho cego que mora com você é mesmo seu pai? -- perguntou Jon após uma pausa.
-- Que velho?
-- Como é mesmo o nome? Joaquim, mas pronunciado de forma meio gutural...
-- Ah, Joachim. Não, ele não é meu pai. Diz que é para não assustar as pessoas. É mais... um amigo.
-- Não é perigoso ele andar sozinho por aí assim?
-- O "por aí" onde ele anda é bastante seguro. E lá ele enxerga bem.
Jon não entendeu e ficou olhando para ela, que percebeu.
-- Vou explicar depois, tá? Tem que ser aos poucos.
Ele ficou quieto um tempo e perguntou se, se quisesse beijá-la, também tinha de ser aos poucos. Ela riu, deu a volta na mesa, sentou-se a seu lado e beijou sua boca. Ele fechou os olhos e ficou recordando o corpo branco, perfeito, que vira no apartamento, combinando de modo tão sensacional com o gostinho de leite e chocolate na boca de Daniela que chegou a ficar tonto e esqueceu por alguns segundos de correr atrás da língua da fêmea que acariciava seu palato.
-- Preciso ir nessa -- disse ela, ofegando um pouco depois do beijo.
-- Quero fazer amor com você. Direito, não como aquela loucura no parque -- pediu ele.
-- Mas daquele jeito é que é bom... -- Os olhos do Desejo faiscaram. -- Tudo bem, mas depois. Agora não dá.
-- Tudo bem.
-- Não fique amuado, tá bom? Quero que você faça uma viagem comigo.
-- Sério?
-- Sério. A gente se fala amanhã. Me liga?
Ele assentiu. Ela se foi, linda e despudorada pela manhã carioca.
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO XI
Entrou no apartamento da General Glicério tremendo de frio com aquele vento encanado. Mas também podia ser medo.
-- Daniela?
Encontrara a porta entreaberta. Na sala, ocupada por um singelo sofá marrom, não havia ninguém.
Silêncio.
-- Olá?
Então ouviu um leve ressonar vindo da primeira porta à direita. Pé ante pé, foi até o umbral e olhou para dentro do aposento. Sobre um colchonete verde corroído, mal coberto por um lençol estampado, jazia Daniela. Estava completamente nua e tinha uma navalha na mão. Mas o que fez Jon sufocar um grito foi a enorme mancha vermelha espalhada sobre os seios e o pescoço. Ela se matara? Se havia tentado, não conseguira, pois ainda podia ver o peito subindo e descendo. Devia estar agonizando.
Correu até o telefone e discou atabalhoadamente para a polícia.
-- Alô, socorro, quero comunicar... -- meio que berrou.
-- Calma, estou aqui.
Aqueles dedos brancos interromperam a chamada. Ela estava lá, sorrindo, toda cheia de sangue, ainda segurando a navalha. Ele deu um grito de pavor e caiu sentado no sofá.
Ela riu.
-- Calma, não vou machucar você. Não é sangue, veja, é só ketchup. -- Passou a mão no seio esquerdo e estendeu o dedo para que ele cheirasse. -- E eu estava me depilando na cama quando bateu um sono irresistível.
O ketchup fora resultado de uma noite de amor que misturara pizza e vinho, explicou ela. Jon, a essa altura tremendo como uma vara verde, sem poder se controlar, não teve reação. Logo depois mordeu o lábio de ciúme.
"Mas ciúme de quê, seu idiota?", perguntou-se.
-- Vou tomar banho, espere um pouco.
Quinze minutos depois, ela voltou, envolta num vestido diáfano, rosa e branco. Convidou-o para tomar café.
CAPÍTULO XI
Entrou no apartamento da General Glicério tremendo de frio com aquele vento encanado. Mas também podia ser medo.
-- Daniela?
Encontrara a porta entreaberta. Na sala, ocupada por um singelo sofá marrom, não havia ninguém.
Silêncio.
-- Olá?
Então ouviu um leve ressonar vindo da primeira porta à direita. Pé ante pé, foi até o umbral e olhou para dentro do aposento. Sobre um colchonete verde corroído, mal coberto por um lençol estampado, jazia Daniela. Estava completamente nua e tinha uma navalha na mão. Mas o que fez Jon sufocar um grito foi a enorme mancha vermelha espalhada sobre os seios e o pescoço. Ela se matara? Se havia tentado, não conseguira, pois ainda podia ver o peito subindo e descendo. Devia estar agonizando.
Correu até o telefone e discou atabalhoadamente para a polícia.
-- Alô, socorro, quero comunicar... -- meio que berrou.
-- Calma, estou aqui.
Aqueles dedos brancos interromperam a chamada. Ela estava lá, sorrindo, toda cheia de sangue, ainda segurando a navalha. Ele deu um grito de pavor e caiu sentado no sofá.
Ela riu.
-- Calma, não vou machucar você. Não é sangue, veja, é só ketchup. -- Passou a mão no seio esquerdo e estendeu o dedo para que ele cheirasse. -- E eu estava me depilando na cama quando bateu um sono irresistível.
O ketchup fora resultado de uma noite de amor que misturara pizza e vinho, explicou ela. Jon, a essa altura tremendo como uma vara verde, sem poder se controlar, não teve reação. Logo depois mordeu o lábio de ciúme.
"Mas ciúme de quê, seu idiota?", perguntou-se.
-- Vou tomar banho, espere um pouco.
Quinze minutos depois, ela voltou, envolta num vestido diáfano, rosa e branco. Convidou-o para tomar café.
Voltei, moçada! É bom estar na Terra Brasilis de novo, estava com saudades daqui. E de blogar!!! Ôba!!
Bem, vamos mandar mais alguns capítulos da blognovela para compensar a ausência da semana passada. Prontos? Tínhamos deixado o pobre Jon sozinho no meio da Rua do Catete no capítulo anterior. E agora...
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO X
Uma carta chegou até o jornal duas semanas depois. Um e-mail.
"Caro jovem e indefeso,
I took a fancy on you. Você é um pequeno deus à sua maneira, com todos os caprichos à mostra, em todos os seus gestos. Eu me enganei, você tem todo o potencial do conde, mas não deve viver para sempre. Uma vida efêmera condiz mais com sua compleição. Venha ver-me amanhã. Estou só. Escolha a hora."
Bem, vamos mandar mais alguns capítulos da blognovela para compensar a ausência da semana passada. Prontos? Tínhamos deixado o pobre Jon sozinho no meio da Rua do Catete no capítulo anterior. E agora...
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO X
Uma carta chegou até o jornal duas semanas depois. Um e-mail.
"Caro jovem e indefeso,
I took a fancy on you. Você é um pequeno deus à sua maneira, com todos os caprichos à mostra, em todos os seus gestos. Eu me enganei, você tem todo o potencial do conde, mas não deve viver para sempre. Uma vida efêmera condiz mais com sua compleição. Venha ver-me amanhã. Estou só. Escolha a hora."
20.5.02
Aos amigos leitores deste blog:
Nos proximos dias nao poderei atualizar a blognovela, pois estou viajando a trabalho. Participo da Borland Conference 2002 em Anaheim, California (nao por acaso estou sem acentos -- na volta conserto este post, ok? ;-)), o paraiso dos programadores de todo o mundo. O keynote principal foi ontem de noite, com o GG (grande guru) David I dando uma de James Bond na entrada e o CEO Dale Fuller distribuindo camisetas com um canhao de ar comprimido para a plateia... Muito divertido. Aqui se fala do futuro das linguagens, sistemas e plataformas, num movimento que pode mudar a cara da web (e talvez da computacao).
Na volta conto mais. Perdoem-me a ausencia. Dia 27 estarei de volta ao bloguniverse. Se der tempo, dou mais uma blogada no meio da semana, entre os montes de conferencias....
Nos proximos dias nao poderei atualizar a blognovela, pois estou viajando a trabalho. Participo da Borland Conference 2002 em Anaheim, California (nao por acaso estou sem acentos -- na volta conserto este post, ok? ;-)), o paraiso dos programadores de todo o mundo. O keynote principal foi ontem de noite, com o GG (grande guru) David I dando uma de James Bond na entrada e o CEO Dale Fuller distribuindo camisetas com um canhao de ar comprimido para a plateia... Muito divertido. Aqui se fala do futuro das linguagens, sistemas e plataformas, num movimento que pode mudar a cara da web (e talvez da computacao).
Na volta conto mais. Perdoem-me a ausencia. Dia 27 estarei de volta ao bloguniverse. Se der tempo, dou mais uma blogada no meio da semana, entre os montes de conferencias....
16.5.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO IX
Foi o beijo mais incendiário de toda a sua vida. Todos os seus poros explodiram. Ele se sentiu fraco, sitiado, feminino. Todo o seu ser era se entregar diante daquele Poder. Todo o seu ser era ceder, condescender, ajoelhar-se e tiritar no chão de uma igreja gótica e compreender sua pequenez diante dos imensos arcobotantes. O corpo todo menos um membro ficou mole e volátil. Ele era os grãos da terra úmida, as folhas crocantes reunidas à revelia pelo vento, os jamelões amassados e perfumados no calçamento antigo.
E então, quando ela lhe sussurrou "você vai sobreviver", ele gozou, gozou, gozou, gozou até desmaiar. Foi acordado pelos guardas do parque, que o expulsaram sem cerimônia. Já eram oito e meia da noite.
Ele ficou só no meio do barulho e da sujeira da Rua do Catete.
CAPÍTULO IX
Foi o beijo mais incendiário de toda a sua vida. Todos os seus poros explodiram. Ele se sentiu fraco, sitiado, feminino. Todo o seu ser era se entregar diante daquele Poder. Todo o seu ser era ceder, condescender, ajoelhar-se e tiritar no chão de uma igreja gótica e compreender sua pequenez diante dos imensos arcobotantes. O corpo todo menos um membro ficou mole e volátil. Ele era os grãos da terra úmida, as folhas crocantes reunidas à revelia pelo vento, os jamelões amassados e perfumados no calçamento antigo.
E então, quando ela lhe sussurrou "você vai sobreviver", ele gozou, gozou, gozou, gozou até desmaiar. Foi acordado pelos guardas do parque, que o expulsaram sem cerimônia. Já eram oito e meia da noite.
Ele ficou só no meio do barulho e da sujeira da Rua do Catete.
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO VIII
Ele sentou-se no banco junto aos querubins às quatro horas. Às cinco, imaginou se ela encontrara o bilhete. Às cinco e quarenta, cochilou.
Às seis e dez acordou e a primeira coisa que viu foi um par de pernas longilíneas e muito brancas escapando de uma saia turquesa. Quando levantou os olhos, viu Daniela fitando-o com um sorriso francamente divertido nos lábios. Na mão direita, segurava o bilhete.
-- "Venha me assustar mais um pouco. Jon". Gostei.
-- Quem é você, afinal? -- perguntou ele, mais para si mesmo do que para ela.
-- Sou quem você quiser.
-- Você pode ser Mônica?
-- Não gosto do nome. Prefiro Ingrid.
-- Preciso dizer a Mônica algo que não tenho coragem de dizer a ela.
-- Diga.
-- Mônica, eu estou perdidamente apaixonado por você e pelo seu corpo e quero fazer amor com você beijar você todinha até você morrer de prazer me abrace e não me solte nunca mais e aaahhhh....
* * *
Acordou com Daniela limpando o filete de baba que lhe escorria pelo peito. Olhava-o gravemente. Ele se sentou ereto, envergonhado. Ela deixou cair o lenço de papel. Ele tremeu. Ela sentou-se. Ele não se mexeu. Ela tomou-lhe a face nas mãos. Ele sentiu-se um perfeito idiota, um peso morto, quando ela inclinou seu rosto para a direita e beijou sua boca seca.
CAPÍTULO VIII
Ele sentou-se no banco junto aos querubins às quatro horas. Às cinco, imaginou se ela encontrara o bilhete. Às cinco e quarenta, cochilou.
Às seis e dez acordou e a primeira coisa que viu foi um par de pernas longilíneas e muito brancas escapando de uma saia turquesa. Quando levantou os olhos, viu Daniela fitando-o com um sorriso francamente divertido nos lábios. Na mão direita, segurava o bilhete.
-- "Venha me assustar mais um pouco. Jon". Gostei.
-- Quem é você, afinal? -- perguntou ele, mais para si mesmo do que para ela.
-- Sou quem você quiser.
-- Você pode ser Mônica?
-- Não gosto do nome. Prefiro Ingrid.
-- Preciso dizer a Mônica algo que não tenho coragem de dizer a ela.
-- Diga.
-- Mônica, eu estou perdidamente apaixonado por você e pelo seu corpo e quero fazer amor com você beijar você todinha até você morrer de prazer me abrace e não me solte nunca mais e aaahhhh....
* * *
Acordou com Daniela limpando o filete de baba que lhe escorria pelo peito. Olhava-o gravemente. Ele se sentou ereto, envergonhado. Ela deixou cair o lenço de papel. Ele tremeu. Ela sentou-se. Ele não se mexeu. Ela tomou-lhe a face nas mãos. Ele sentiu-se um perfeito idiota, um peso morto, quando ela inclinou seu rosto para a direita e beijou sua boca seca.
15.5.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO VII
Rua General Glicério, 43. Um prédio antigo. Apartamento 902. O porteiro deu um mole, ele entrou. Elevador com porta pantográfica, assustador. Corredor às escuras. Frio. O vento da tarde chiava por entre basculantes enferrujados.
A campainha pareceu não funcionar. Ele bateu então na porta.
Um toc-toc veio caminhando hesitante para a porta. Mais alguns segundos e a chave começou a ser girada; de repente, parou.
-- Quem é? -- Uma voz de homem, rouca.
-- Um amigo de Daniela.
-- Quem?
-- Jon. Vim lhe devolver um livro.
-- Ah.
A chave terminou de girar. Surgiu um cego, segurando uma bengala de madeira bastante gasta. Óculos escuros, sem camisa, uma calça cinza desabotoada sob a barriga. Pele bem clara, cabelos grisalhos já rarefeitos.
-- Boa tarde. Desculpe minha hesitação. O Rio de Janeiro anda violento demais.
-- Não há o que desculpar.
-- Sou Joachim, pai de Daniela. Prazer. Sinto, mas ela saiu.
-- Jon Lord Oliveira. Vim deixar este livro com ela -- Depositou-o nas mãos do velho. -- Tudo bem, posso telefonar depois. Obrigado.
-- Que livro é?
-- É um da Simone de Beauvoir...
-- Ah, o do conde Fosca, não é?
-- Sim, é.
-- Hum. Mais um.
-- Mais um o quê, senhor?
-- Oh, nada, nada. Eu só queria saber quantos anos iria viver o conde (se ele realmente existisse) se conhecesse Daniela.
-- Parece uma questão interessante.
-- Certamente o é. Mas não sei se você vai gostar de conhecer a resposta. Boa tarde.
O velho fechou a porta e Jon ficou parado ali, cismando.
CAPÍTULO VII
Rua General Glicério, 43. Um prédio antigo. Apartamento 902. O porteiro deu um mole, ele entrou. Elevador com porta pantográfica, assustador. Corredor às escuras. Frio. O vento da tarde chiava por entre basculantes enferrujados.
A campainha pareceu não funcionar. Ele bateu então na porta.
Um toc-toc veio caminhando hesitante para a porta. Mais alguns segundos e a chave começou a ser girada; de repente, parou.
-- Quem é? -- Uma voz de homem, rouca.
-- Um amigo de Daniela.
-- Quem?
-- Jon. Vim lhe devolver um livro.
-- Ah.
A chave terminou de girar. Surgiu um cego, segurando uma bengala de madeira bastante gasta. Óculos escuros, sem camisa, uma calça cinza desabotoada sob a barriga. Pele bem clara, cabelos grisalhos já rarefeitos.
-- Boa tarde. Desculpe minha hesitação. O Rio de Janeiro anda violento demais.
-- Não há o que desculpar.
-- Sou Joachim, pai de Daniela. Prazer. Sinto, mas ela saiu.
-- Jon Lord Oliveira. Vim deixar este livro com ela -- Depositou-o nas mãos do velho. -- Tudo bem, posso telefonar depois. Obrigado.
-- Que livro é?
-- É um da Simone de Beauvoir...
-- Ah, o do conde Fosca, não é?
-- Sim, é.
-- Hum. Mais um.
-- Mais um o quê, senhor?
-- Oh, nada, nada. Eu só queria saber quantos anos iria viver o conde (se ele realmente existisse) se conhecesse Daniela.
-- Parece uma questão interessante.
-- Certamente o é. Mas não sei se você vai gostar de conhecer a resposta. Boa tarde.
O velho fechou a porta e Jon ficou parado ali, cismando.
14.5.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO VI
Impressionante ver um sujeito com aquele jeito inofensivo operar o computador. O homem se transformava. Era o bit-demônio. E aquele programa, o Back Orifice X, era a última palavra em armas cibernético-bacteriológicas. Silencioso e letal, o programinha transformava no cerne do apocalipse qualquer computador remoto que acessasse. E bastava enviá-lo escondido junto com um screensaver ou piada online. Em pouco mais de vinte minutos, a ficha de Daniela estava piscando na tela.
E Daniela era o Desejo.
Passaram o resto da noite enchendo a cara de cerveja.
As revistas de música ficaram na casa de Jon.
CAPÍTULO VI
Impressionante ver um sujeito com aquele jeito inofensivo operar o computador. O homem se transformava. Era o bit-demônio. E aquele programa, o Back Orifice X, era a última palavra em armas cibernético-bacteriológicas. Silencioso e letal, o programinha transformava no cerne do apocalipse qualquer computador remoto que acessasse. E bastava enviá-lo escondido junto com um screensaver ou piada online. Em pouco mais de vinte minutos, a ficha de Daniela estava piscando na tela.
E Daniela era o Desejo.
Passaram o resto da noite enchendo a cara de cerveja.
As revistas de música ficaram na casa de Jon.
13.5.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO V
A redação.
-- Estou pela 12 e pela 14. Anda, pessoal, está tudo atrasado!
-- Zé, não é para mandar a matéria do ibope. Só depois do jornal da TV, certo?
-- "... e está desaparecido há oito horas o helicóptero em que viajava o ator Marat Mello no Amapá..."
-- Puta merda!
-- Olha só o tamanho da matéria, porra. Eles estão sem pauta hoje. Até parece que o sujeito é presidente dos Estados Unidos.
-- O presidente dos Estados Unidos ia adorar estar num helicóptero desaparecido neste momento. Aquele escândalo sexual...
-- Quem pega um flash do Lucimar aqui pra mim? É da reunião do Copom.
-- Já vai.
-- Subi para a internet aquela notinha do descarrilamento.
-- Quantos mortos? 53?
-- Já subiu para 55.
-- Bota na primeira página do Jornafax.
-- Tá.
-- Gente, tô indo. Se o Norberto Carlos morrer, me liguem numa hora humana.
Uma selva de computadores piscando em azul, amarelo, branco, vermelho. O auge do fechamento. Pessoas com caras cansadas ou tristonhas. Editores neuróticos. Café, café, café, cigarros, cigarros, cigarros. Más notícias. O mundo era feito de más notícias. Que imparcialidade que nada. Só as más notícias havia para o jornal. Ou as exóticas.
Jon conhecia aquilo bem. De repente ele avistou Sidney. Figuraça. Óculos, camisa verde quadriculada sobre a camiseta branca, jeans surrados. O que ele gostava nele era o jeito de cientista no jornalista. Só Alexandre Mondorinus, outro porralouca, tinha esse Dom do Desligamento além do Sidney. Mas Mondorinus parecia estar sempre viajando em ácido. Parecia um beatnik. Sidney não. Sidney parecia um professor aloprado. Era muito inteligente, completamente inseguro. Mas adorável.
-- Sidney!
-- Jon? Que faz aqui? Você não está de férias?
-- Cara, preciso de um favor. Você ainda tem o Back Orifice X?
-- Shh. Tenho. Por quê?
-- Cara, descobre o endereço dessa mulher aqui.
-- Tem que descolar o IP do computador da administradora do cartão, mané.
-- Ah, você não consegue isso?
-- Cadê minhas revistas de música?
-- Eu devolvo tudo, prometo. Eu devolvo.
-- Passa lá em casa amanhã. Dez da noite.
-- Valeu.
CAPÍTULO V
A redação.
-- Estou pela 12 e pela 14. Anda, pessoal, está tudo atrasado!
-- Zé, não é para mandar a matéria do ibope. Só depois do jornal da TV, certo?
-- "... e está desaparecido há oito horas o helicóptero em que viajava o ator Marat Mello no Amapá..."
-- Puta merda!
-- Olha só o tamanho da matéria, porra. Eles estão sem pauta hoje. Até parece que o sujeito é presidente dos Estados Unidos.
-- O presidente dos Estados Unidos ia adorar estar num helicóptero desaparecido neste momento. Aquele escândalo sexual...
-- Quem pega um flash do Lucimar aqui pra mim? É da reunião do Copom.
-- Já vai.
-- Subi para a internet aquela notinha do descarrilamento.
-- Quantos mortos? 53?
-- Já subiu para 55.
-- Bota na primeira página do Jornafax.
-- Tá.
-- Gente, tô indo. Se o Norberto Carlos morrer, me liguem numa hora humana.
Uma selva de computadores piscando em azul, amarelo, branco, vermelho. O auge do fechamento. Pessoas com caras cansadas ou tristonhas. Editores neuróticos. Café, café, café, cigarros, cigarros, cigarros. Más notícias. O mundo era feito de más notícias. Que imparcialidade que nada. Só as más notícias havia para o jornal. Ou as exóticas.
Jon conhecia aquilo bem. De repente ele avistou Sidney. Figuraça. Óculos, camisa verde quadriculada sobre a camiseta branca, jeans surrados. O que ele gostava nele era o jeito de cientista no jornalista. Só Alexandre Mondorinus, outro porralouca, tinha esse Dom do Desligamento além do Sidney. Mas Mondorinus parecia estar sempre viajando em ácido. Parecia um beatnik. Sidney não. Sidney parecia um professor aloprado. Era muito inteligente, completamente inseguro. Mas adorável.
-- Sidney!
-- Jon? Que faz aqui? Você não está de férias?
-- Cara, preciso de um favor. Você ainda tem o Back Orifice X?
-- Shh. Tenho. Por quê?
-- Cara, descobre o endereço dessa mulher aqui.
-- Tem que descolar o IP do computador da administradora do cartão, mané.
-- Ah, você não consegue isso?
-- Cadê minhas revistas de música?
-- Eu devolvo tudo, prometo. Eu devolvo.
-- Passa lá em casa amanhã. Dez da noite.
-- Valeu.
12.5.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO IV
Foi até a livraria novamente. Uma. Duas. Seis vezes.
Só havia homens andróginos e mulheres ansiosas no local em todas as seis vezes. Os livros pareciam murchos.
Chovia no Parque do Palácio. E ventava, e as folhas molhadas impregnavam o calçamento de um cheiro enjoativo.
E então ele se lembrou de Sidney Kerakgsztejn, na redação.
CAPÍTULO IV
Foi até a livraria novamente. Uma. Duas. Seis vezes.
Só havia homens andróginos e mulheres ansiosas no local em todas as seis vezes. Os livros pareciam murchos.
Chovia no Parque do Palácio. E ventava, e as folhas molhadas impregnavam o calçamento de um cheiro enjoativo.
E então ele se lembrou de Sidney Kerakgsztejn, na redação.
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO III
Ele leu o romance. A história de um homem imortal contada a uma atriz ciente de seu brilho efêmero e desejosa de viver para sempre. Vários séculos e eventos, reais ou fictícios, contados pelo olhar de um homem primeiro poderoso e egocêntrico, depois cansado e cruel e por fim apático e inerte. Uma parábola sobre o tempo. Uma fábula de dor ao longo de setecentos anos. Mas, de todas as maravilhas scheherazádicas do livro, ficou o olhar do conde Fosca, sentado no pátio de um hotelzinho, chovesse ou fizesse sol. Seria vítreo? Irracional? Túrgido? Com que se pareceria o olhar de um homem de setecentos anos? Jon não sabia dizer.
Sentado agora na sala do seu kitchenette, ele pensou em Siddharta Gautama, o Buda, o Iluminado. Era preciso dar adeus ao desejo para vaporizar o sofrimento. Daniela era o Desejo. Mas não fora o intenso desejo, a busca mais renhida, que fizera de Gautama Buda? (O Livre-Arbítrio). Ou não? Ou teria sido o Caminho do Meio o fim do desejo -- e também o começo da iluminação? Aquela árvore frondosa no meio da trilha macerada pelo sol, oh, aquela árvore tinha a mão do Destino. Gautama decidiu se sentar, mas a árvore não estava ali por acaso.
E Daniela era o Desejo. Ele largou o livro e pegou na mesinha de centro o comprovante de cartão de crédito que surripiara da loja quando a vendedora deu uma rápida saída.
"Daniela Wien
0001-4334-6577-1002
VAL. 06-19**"
Não a conseguia tirar da cabeça. Pegou a lista telefônica. Não havia nenhum Wien entre os assinantes. Ligou para a administradora do cartão. Informação privativa, é claro. Não lhe disseram nada.
Acendeu um Hollywood e deitou-se no sofá. O apartamento (?) era frugal, quase nu: o sofá vermelho de couro sintético, rasgado, a mesinha de centro cuja madeira perdera todo o verniz e cujo tampo de vidro rachara durante uma bebedeira com uma prostituta (Márcia. Pelo menos era o nome que ela lhe dissera. Ele suspeitava que era Fátima ou Cleíza). Uma mesa de jantar de bambu. Duas cadeiras de bambu com o encosto gasto e precisando de uma boa lavada. Um fogão, uma geladeira, uma prateleira improvisada com tijolos pintados, cheia de livros mal arrumados, e o som. Discos e CDs espalhados pelos cantos. Wilde. Kiss. Poe. Black Sabbath. Nietzsche. Frank Zappa. Uma salada psíquica.
Ele dormiu. Sonhou com o conde Fosca.
CAPÍTULO III
Ele leu o romance. A história de um homem imortal contada a uma atriz ciente de seu brilho efêmero e desejosa de viver para sempre. Vários séculos e eventos, reais ou fictícios, contados pelo olhar de um homem primeiro poderoso e egocêntrico, depois cansado e cruel e por fim apático e inerte. Uma parábola sobre o tempo. Uma fábula de dor ao longo de setecentos anos. Mas, de todas as maravilhas scheherazádicas do livro, ficou o olhar do conde Fosca, sentado no pátio de um hotelzinho, chovesse ou fizesse sol. Seria vítreo? Irracional? Túrgido? Com que se pareceria o olhar de um homem de setecentos anos? Jon não sabia dizer.
Sentado agora na sala do seu kitchenette, ele pensou em Siddharta Gautama, o Buda, o Iluminado. Era preciso dar adeus ao desejo para vaporizar o sofrimento. Daniela era o Desejo. Mas não fora o intenso desejo, a busca mais renhida, que fizera de Gautama Buda? (O Livre-Arbítrio). Ou não? Ou teria sido o Caminho do Meio o fim do desejo -- e também o começo da iluminação? Aquela árvore frondosa no meio da trilha macerada pelo sol, oh, aquela árvore tinha a mão do Destino. Gautama decidiu se sentar, mas a árvore não estava ali por acaso.
E Daniela era o Desejo. Ele largou o livro e pegou na mesinha de centro o comprovante de cartão de crédito que surripiara da loja quando a vendedora deu uma rápida saída.
"Daniela Wien
0001-4334-6577-1002
VAL. 06-19**"
Não a conseguia tirar da cabeça. Pegou a lista telefônica. Não havia nenhum Wien entre os assinantes. Ligou para a administradora do cartão. Informação privativa, é claro. Não lhe disseram nada.
Acendeu um Hollywood e deitou-se no sofá. O apartamento (?) era frugal, quase nu: o sofá vermelho de couro sintético, rasgado, a mesinha de centro cuja madeira perdera todo o verniz e cujo tampo de vidro rachara durante uma bebedeira com uma prostituta (Márcia. Pelo menos era o nome que ela lhe dissera. Ele suspeitava que era Fátima ou Cleíza). Uma mesa de jantar de bambu. Duas cadeiras de bambu com o encosto gasto e precisando de uma boa lavada. Um fogão, uma geladeira, uma prateleira improvisada com tijolos pintados, cheia de livros mal arrumados, e o som. Discos e CDs espalhados pelos cantos. Wilde. Kiss. Poe. Black Sabbath. Nietzsche. Frank Zappa. Uma salada psíquica.
Ele dormiu. Sonhou com o conde Fosca.
11.5.02
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
CAPÍTULO I
-- Você tem o olhar do conde Fosca -- disse ela.
Daniela não era nem o Destino, nem o Livre-Arbítrio. Isso era certo. Daniela era o Desejo. Súbito, ele lembrou-se de sua avó, que gostava de falar das mulheres de tez leitosa do começo do século. A pele de Daniela era exatamente da cor do leite; bem, quase; digamos da cor do leite com um sub-reptício jorro de café fervente dentro. Oh, sim, fervente, porque nada poderia haver naquele corpo que lembrasse, nem da maneira mais remota, neve. Os cabelos eram negro-avermelhados, os olhos, dois poços de ébano com um brilho hipnótico. Ela era o Desejo, mas, curiosamente, ele não poderia descrever suas curvas naquele instante, pois que a explosão-mater estava dentro daquelas órbitas. Um big-bang ocultava-se ali, por trás das sobrancelhas capazes dos mais intrincados teleportes -- e de repente ele se viu sugado por aqueles cílios e jogado num poço escuro e úmido, cujo calor era insuportável: o fundo nunca chegava...
-- Você está suando. Está passando mal?
-- Hein?
-- Eu me enganei. Você nada tem do conde. É apenas mais um homem assustado. -- Ela lhe entregou o livro e passou por ele.
-- Espere. Desculpe. Foi... não sei, foi uma vertigem. Quem é o conde Fosca?
Ela apontou o livro.
-- Leia.
Ele olhou a capa. "Todos os Homens São Mortais". Simone de Beauvoir.
[veja o prólogo no post abaixo]
CAPÍTULO I
-- Você tem o olhar do conde Fosca -- disse ela.
Daniela não era nem o Destino, nem o Livre-Arbítrio. Isso era certo. Daniela era o Desejo. Súbito, ele lembrou-se de sua avó, que gostava de falar das mulheres de tez leitosa do começo do século. A pele de Daniela era exatamente da cor do leite; bem, quase; digamos da cor do leite com um sub-reptício jorro de café fervente dentro. Oh, sim, fervente, porque nada poderia haver naquele corpo que lembrasse, nem da maneira mais remota, neve. Os cabelos eram negro-avermelhados, os olhos, dois poços de ébano com um brilho hipnótico. Ela era o Desejo, mas, curiosamente, ele não poderia descrever suas curvas naquele instante, pois que a explosão-mater estava dentro daquelas órbitas. Um big-bang ocultava-se ali, por trás das sobrancelhas capazes dos mais intrincados teleportes -- e de repente ele se viu sugado por aqueles cílios e jogado num poço escuro e úmido, cujo calor era insuportável: o fundo nunca chegava...
-- Você está suando. Está passando mal?
-- Hein?
-- Eu me enganei. Você nada tem do conde. É apenas mais um homem assustado. -- Ela lhe entregou o livro e passou por ele.
-- Espere. Desculpe. Foi... não sei, foi uma vertigem. Quem é o conde Fosca?
Ela apontou o livro.
-- Leia.
Ele olhou a capa. "Todos os Homens São Mortais". Simone de Beauvoir.
[veja o prólogo no post abaixo]
10.5.02
É hoje!!! Prezados leitores, apresento-lhes minha primeira blognovela. Vou publicá-la todinha aqui. Um capítulo por dia (são 31), exceto fins de semana (ou por algum motivo de força maior. Mas, por acaso, este fim de semana devo postar mais alguns, para reforçar a estréia). Espero que vocês gostem, é uma grande viagem. Conto com seus comments para animar a festa. Bom, então aí vai o começo:
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
uma blognovela de André Machado
PRÓLOGO
A vida é uma partida de xadrez jogada com muita ironia entre o Destino e o Livre-Arbítrio. Foi o que ficou pensando Jon quando se deitou naquela noite. Tentava descobrir se o encontro com Daniela fora casual ou fomentado por uma decisão sua. Ao caminhar pela Praia do Flamengo naquele dia fresco e ensolarado, ele passou pelo portão do Parque do Palácio do Catete e contemplou sua festa verde, o canal cujas águas ondulavam suavemente ao sabor da brisa, as minipontes rústicas. Decidiu entrar. Passeou pela velha alameda de palmeiras imperiais, foi até a olvidada fonte de 1854 (o ano de nascimento de Wilde, o ano de casamento de Elizabeth da Áustria, um ano do Tigre), observou a caverna onde assistira a uma montagem de "O Rinoceronte" muito divertida -- o texto já era fantástico, os atores também, mas o público veio abaixo quando, em meio a uma das cenas mais engraçadas, um morcego saiu da caverna e deu um vôo rasante, faceiro, sobre o elenco. Não houve quem não se apavorasse e o bolo, isto é, a cena, quase desandou.
Era uma noite fresca como a que este dia prometia...
Então, retornou e entrou na livraria recém-reformada do Palácio. Como sempre, ele estava sem dinheiro, mas o simples fato de entrar ali e respirar aqueles livros... ah, era tão restaurador quanto uma sauna ou massagem. Sentia a mesma coisa quando entrava na Livraria Leonardo da Vinci, no subsolo do Edifício Marquês do Herval, no centro da cidade -- o célebre "Buraco do Herval", como os chamavam os bibliófilos de plantão. A Leonardo da Vinci não era uma livraria, era um templo. Se você fechasse os olhos ao abrir a porta de vidro da loja principal, podia sentir o tilintar dos chamarizes e móbiles coloridos no teto e imaginar um sacerdote balançando um turíbulo -- cujo incenso traria o perfume dos livros e revistas, inesquecível para ele desde sua infância mais tenra. E havia sempre Mozart, Schubert, Vivaldi permeando o ambiente, seus instrumentos conversando com o Espírito, como diria Beethoven, misturando-se às idéias geniais dos filósofos, às teorias dos historiadores, aos delírios dos poetas... Muitas vezes ele ficava ali tardes inteiras até as pernas reclamarem veementemente de cansaço. Comprazia-se em pensar que a livraria era seu paraíso -- um paraíso sob a terra.
Comparada à Da Vinci, a loja do museu era uma capelinha, mas uma capelinha bem organizada e inspiradora a seu modo. Ali ele comprara seu primeiro livro de Lima Barreto, "Recordações do Escrivão Isaías Caminha", que começara a ler um pouco irritado, mas que enchera seus olhos d'água várias vezes. Jornalista, entendia bem do que falava Barreto quando ele satirizava o pedante João do Rio, quando tecia um hino de amor a Floc em sua crônica dificuldade de encontrar um lead, quando as manchetes baratas atraíam turbas para a porta do jornal. Meu Deus, e era 1909.
Seus próprios passos o haviam levado até a livraria -- era o Livre-Arbítrio --, mas agora o Destino entrou em cena na forma de um livro mal puxado da estante (era "A Vida Vertiginosa de João do Rio", de R. Magalhães Jr.). Com ele, vieram mais uns três, que voaram para o chão, enquanto os restantes na prateleira inclinavam-se, aborrecidos, as lombadas perdendo toda a imponência.
Jon ficou vermelho, abaixou-se para apanhar os livros, e eis que um par de mãos brancas surgiu diante de seus olhos a oferecer-lhe Simone de Beauvoir.
Era Daniela.
O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO E O DESEJO
uma blognovela de André Machado
PRÓLOGO
A vida é uma partida de xadrez jogada com muita ironia entre o Destino e o Livre-Arbítrio. Foi o que ficou pensando Jon quando se deitou naquela noite. Tentava descobrir se o encontro com Daniela fora casual ou fomentado por uma decisão sua. Ao caminhar pela Praia do Flamengo naquele dia fresco e ensolarado, ele passou pelo portão do Parque do Palácio do Catete e contemplou sua festa verde, o canal cujas águas ondulavam suavemente ao sabor da brisa, as minipontes rústicas. Decidiu entrar. Passeou pela velha alameda de palmeiras imperiais, foi até a olvidada fonte de 1854 (o ano de nascimento de Wilde, o ano de casamento de Elizabeth da Áustria, um ano do Tigre), observou a caverna onde assistira a uma montagem de "O Rinoceronte" muito divertida -- o texto já era fantástico, os atores também, mas o público veio abaixo quando, em meio a uma das cenas mais engraçadas, um morcego saiu da caverna e deu um vôo rasante, faceiro, sobre o elenco. Não houve quem não se apavorasse e o bolo, isto é, a cena, quase desandou.
Era uma noite fresca como a que este dia prometia...
Então, retornou e entrou na livraria recém-reformada do Palácio. Como sempre, ele estava sem dinheiro, mas o simples fato de entrar ali e respirar aqueles livros... ah, era tão restaurador quanto uma sauna ou massagem. Sentia a mesma coisa quando entrava na Livraria Leonardo da Vinci, no subsolo do Edifício Marquês do Herval, no centro da cidade -- o célebre "Buraco do Herval", como os chamavam os bibliófilos de plantão. A Leonardo da Vinci não era uma livraria, era um templo. Se você fechasse os olhos ao abrir a porta de vidro da loja principal, podia sentir o tilintar dos chamarizes e móbiles coloridos no teto e imaginar um sacerdote balançando um turíbulo -- cujo incenso traria o perfume dos livros e revistas, inesquecível para ele desde sua infância mais tenra. E havia sempre Mozart, Schubert, Vivaldi permeando o ambiente, seus instrumentos conversando com o Espírito, como diria Beethoven, misturando-se às idéias geniais dos filósofos, às teorias dos historiadores, aos delírios dos poetas... Muitas vezes ele ficava ali tardes inteiras até as pernas reclamarem veementemente de cansaço. Comprazia-se em pensar que a livraria era seu paraíso -- um paraíso sob a terra.
Comparada à Da Vinci, a loja do museu era uma capelinha, mas uma capelinha bem organizada e inspiradora a seu modo. Ali ele comprara seu primeiro livro de Lima Barreto, "Recordações do Escrivão Isaías Caminha", que começara a ler um pouco irritado, mas que enchera seus olhos d'água várias vezes. Jornalista, entendia bem do que falava Barreto quando ele satirizava o pedante João do Rio, quando tecia um hino de amor a Floc em sua crônica dificuldade de encontrar um lead, quando as manchetes baratas atraíam turbas para a porta do jornal. Meu Deus, e era 1909.
Seus próprios passos o haviam levado até a livraria -- era o Livre-Arbítrio --, mas agora o Destino entrou em cena na forma de um livro mal puxado da estante (era "A Vida Vertiginosa de João do Rio", de R. Magalhães Jr.). Com ele, vieram mais uns três, que voaram para o chão, enquanto os restantes na prateleira inclinavam-se, aborrecidos, as lombadas perdendo toda a imponência.
Jon ficou vermelho, abaixou-se para apanhar os livros, e eis que um par de mãos brancas surgiu diante de seus olhos a oferecer-lhe Simone de Beauvoir.
Era Daniela.
9.5.02
De Walt Whitman, belo e triste...
O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up--for you the flag is flung--for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon'd wreaths--for you the shores
a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.
My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up--for you the flag is flung--for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon'd wreaths--for you the shores
a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.
My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
6.5.02
Neve
Neve
É o que atiras sobre os cabelos em desalinho
De minha alma:
Neve em flocos revestidos de chumbo
Que fingimos serem palavras.
Mas que escolha tenho?
Antes sentir a feroz cãibra do desprezo
Antes sentir tuas unhas rubras
Gentilmente esfolando minha esperança
Do que beber para sempre
Do cálice da solidão: despertar todas as manhãs
Ao lado do nada -- fazer amor com ele
E ficar grávido de lugares-comuns
E beijar a fé, e acreditar.
Torture-me, pois, por favor.
Eu vou sorrir quando furares minhas mãos com diamantes
E gozar quando me enfiares ácido umbigo abaixo.
Neve
É o que atiras sobre os cabelos em desalinho
De minha alma:
Neve em flocos revestidos de chumbo
Que fingimos serem palavras.
Mas que escolha tenho?
Antes sentir a feroz cãibra do desprezo
Antes sentir tuas unhas rubras
Gentilmente esfolando minha esperança
Do que beber para sempre
Do cálice da solidão: despertar todas as manhãs
Ao lado do nada -- fazer amor com ele
E ficar grávido de lugares-comuns
E beijar a fé, e acreditar.
Torture-me, pois, por favor.
Eu vou sorrir quando furares minhas mãos com diamantes
E gozar quando me enfiares ácido umbigo abaixo.
3.5.02
Este é um post direto do III Fórum Internacional de Software Livre, em Porto Alegre. Em outras palavras, o paraíso dos gnus e dos pingüins. As conferências e debates estão quentes e fala-se sobre o uso do free software em tudo: de gerenciamento de conteúdo a telecom. Depois conto mais quando voltar.
30.4.02
Manuscrito encontrado no bolso de um poeta triste (im memoriam)
Ah, minhas amigas, trazei a padiola!
Estou em frangalhos nas trincheiras:
As aurículas receberam os morteiros,
os ventrículos, as baionetas,
e estrebucho ao aspirar o mortal gás da paixão!
Só vós podeis salvar-me, com carinho e sábios conselhos.
Não me julgueis leviano, antes apenas humano.
E humano com um coração cujas cavidades
São forradas de pétalas de veludo
E por cujos vasos circula o doido absinto
Dos que querem fazer os outros felizes!
Ah, amigas! Peco sempre por amar demais
e esqueço de pedir um bocadinho para mim;
sofro assim sozinho e sempre em dobro ;-(
Trazei, pois, o estojo de bandagens para a alma;
Levai-me ao hospital de vossos abraços generosos
E curai-me desta mania de me entregar.
Ah, minhas amigas, trazei a padiola!
Estou em frangalhos nas trincheiras:
As aurículas receberam os morteiros,
os ventrículos, as baionetas,
e estrebucho ao aspirar o mortal gás da paixão!
Só vós podeis salvar-me, com carinho e sábios conselhos.
Não me julgueis leviano, antes apenas humano.
E humano com um coração cujas cavidades
São forradas de pétalas de veludo
E por cujos vasos circula o doido absinto
Dos que querem fazer os outros felizes!
Ah, amigas! Peco sempre por amar demais
e esqueço de pedir um bocadinho para mim;
sofro assim sozinho e sempre em dobro ;-(
Trazei, pois, o estojo de bandagens para a alma;
Levai-me ao hospital de vossos abraços generosos
E curai-me desta mania de me entregar.
Meu fardo
A noite cai
E com ela meu fardo incomensurável.
Coortes de olhares sitiam minhas baterias antiaéreas
E num som desconexo traduzo
As sete auras da loucura vã.
Minha poesia se transforma em dama da noite
E veste o véu da carne em chamas.
Eu nada sei, nada sinto, nada penso.
Afasto meus pêlos em desalinho da fronte que brilha
E deixo o sêmen escorrer pelo braço empenado de minha guitarra
Rusgas acentuam o descaso pelas sobras
A vida escorre junto com o tempo
De repente, o universo se desdobra
E eu tudo sei, tudo sinto, tudo engendro na manhã do meu desvario.
É uma linda ilusão.
Desperto para uma alvorada cinza.
Mas eu quero o crepúsculo
Eu desejo a luxúria do entardecer vermelho
E a languidez da noite aberta, retalhada.
A noite cai, mas não desabam mais minhas convicções incertas.
Elas apenas regeneram-se
Rebentam-se, explodem em cravos.
A noite cai
E com ela meu fardo incomensurável.
Coortes de olhares sitiam minhas baterias antiaéreas
E num som desconexo traduzo
As sete auras da loucura vã.
Minha poesia se transforma em dama da noite
E veste o véu da carne em chamas.
Eu nada sei, nada sinto, nada penso.
Afasto meus pêlos em desalinho da fronte que brilha
E deixo o sêmen escorrer pelo braço empenado de minha guitarra
Rusgas acentuam o descaso pelas sobras
A vida escorre junto com o tempo
De repente, o universo se desdobra
E eu tudo sei, tudo sinto, tudo engendro na manhã do meu desvario.
É uma linda ilusão.
Desperto para uma alvorada cinza.
Mas eu quero o crepúsculo
Eu desejo a luxúria do entardecer vermelho
E a languidez da noite aberta, retalhada.
A noite cai, mas não desabam mais minhas convicções incertas.
Elas apenas regeneram-se
Rebentam-se, explodem em cravos.
29.4.02
Estou repetindo este post aqui por ser uma boa notícia:
Agora, além de rabiscar umas crônicas para o site Falaê, do nobre Augusto Sales, acabo de estrear como colaborador do prestigiado emailperiódico SpamZine, para o qual fui gentilmente convidado pelo Alexandre Inagaki. Ele está reunindo os Minicontos do Desconforto, postados no Cadafalso II, na atual e nas próximas edições. Desnecessário dizer que estou superfeliz por fazer parte de ambos os times.
Então, quero aproveitar este post para agradecer de público e efusivamente ao Augusto, ao Inagaki e à Suzi Hong, que foi tão delicada ao me apresentar em seu editorial. Valeu, moçada! E contem comigo!
Agora, além de rabiscar umas crônicas para o site Falaê, do nobre Augusto Sales, acabo de estrear como colaborador do prestigiado emailperiódico SpamZine, para o qual fui gentilmente convidado pelo Alexandre Inagaki. Ele está reunindo os Minicontos do Desconforto, postados no Cadafalso II, na atual e nas próximas edições. Desnecessário dizer que estou superfeliz por fazer parte de ambos os times.
Então, quero aproveitar este post para agradecer de público e efusivamente ao Augusto, ao Inagaki e à Suzi Hong, que foi tão delicada ao me apresentar em seu editorial. Valeu, moçada! E contem comigo!
26.4.02
Diversão virtual para sádicos de plantão: pegar uma lente gigante e ficar do alto dos prédios explodindo a galera lá embaixo com a luz do sol concentrada... Está neste website.
E que tal conhecer uma empresa de webdesign cujo site é um divertidíssimo passeio em flash? Veja aqui. Depois me digam se gostaram. Eu ri muito com o subsolo de programadores anões chicoteados por um carrasco...
E que tal conhecer uma empresa de webdesign cujo site é um divertidíssimo passeio em flash? Veja aqui. Depois me digam se gostaram. Eu ri muito com o subsolo de programadores anões chicoteados por um carrasco...
25.4.02
Capitulação
Refiro-me a você
Quando estremeço.
Usamos palavras ao invés de beijos
Mas ao menos o corpo nos traiu
Às três da manhã.
Eu estava cansado e você estendeu a rede negra
Sob meus olhos; as pupilas, por fim, dormiram
O sono das flores.
É bom desistir; é bom se alienar;
Por que lutar até o vazio?
Por que se importar?
Por quem prostrar-se numa cama de pregos cristalinos?
Depois do amor, não há nada a não ser o sono.
O amor suga a vida, o amor liquefaz nossas certezas
Esculpidas no ar.
Dormir é a verdadeira volúpia.
Refiro-me a você
Quando estremeço.
Usamos palavras ao invés de beijos
Mas ao menos o corpo nos traiu
Às três da manhã.
Eu estava cansado e você estendeu a rede negra
Sob meus olhos; as pupilas, por fim, dormiram
O sono das flores.
É bom desistir; é bom se alienar;
Por que lutar até o vazio?
Por que se importar?
Por quem prostrar-se numa cama de pregos cristalinos?
Depois do amor, não há nada a não ser o sono.
O amor suga a vida, o amor liquefaz nossas certezas
Esculpidas no ar.
Dormir é a verdadeira volúpia.
19.4.02
18.4.02
Como todos os coleguinhas jornalistas, estou lamentando o fim do site no., em que militavam grandes e valorosos amigos como o Leonardo Pimentel. Uma pena. Quem melhor sintetizou mais essa orfandade em nosso complicado mercado de trabalho foi a sempre imbatível Cora Rónai. Assino, carimbo, autentico, reconheço firma e o escambau embaixo do que ela escreveu sobre isso:
"Uma das notícias mais deprimentes dos últimos tempos -- que, vamos combinar, não andam sendo propriamente tempos de notícias exultantes -- foi a do fim do no., onde se fazia, além de jornalismo da melhor qualidade, um exercício contínuo de pensamento. Não há como não lamentar o desaparecimento de forma de vida tão inteligente num país que, a cada dia, se supera em baixarias, e em que os heróis da hora são os ninguéms expostos à curiosidade mórbida de um público que a televisão cultiva, cuidadosamente, para a mais completa e insensível imbecilidade.
Sim, eu sei que nós não temos a exclusividade universal da estupidez humana; na verdade, até importamos os piores modelos de fora. Mas em países que se pretendem civilizados há, pelo menos, um equilíbrio de forças, uma margem de escolha. Numa banca de jornais americana, a gente encontra o pior lixo produzido no planeta -- mas encontra também revistas como o New Yorker ou o Atlantic Monthly, escritas por, e para, animais racionais. A Inglaterra tem, sim, os piores jornais do mundo -- mas tem também uma revista como a The Economist, e um teatro que há mais de 500 anos exalta a palavra e a inteligência. Os franceses têm uma televisão ridícula e uma visão do mundo grotesca -- mas dão aos seus escritores o status de popstars. E por aí vai.
A vulgaridade, em alta geral, aparece mais e paga melhor em toda a parte, mas não há como negar que, nos EUA e na Europa, existe uma consciência social em ação que preserva o mínimo de cultura necessário à sobrevivência intelectual da espécie. Ainda há lugares em que, acreditem!, um bom cérebro é mais valorizado do que uma bela bunda; mas todos, infelizmente, ficam muito longe daqui."
Ave, Cora.
"Uma das notícias mais deprimentes dos últimos tempos -- que, vamos combinar, não andam sendo propriamente tempos de notícias exultantes -- foi a do fim do no., onde se fazia, além de jornalismo da melhor qualidade, um exercício contínuo de pensamento. Não há como não lamentar o desaparecimento de forma de vida tão inteligente num país que, a cada dia, se supera em baixarias, e em que os heróis da hora são os ninguéms expostos à curiosidade mórbida de um público que a televisão cultiva, cuidadosamente, para a mais completa e insensível imbecilidade.
Sim, eu sei que nós não temos a exclusividade universal da estupidez humana; na verdade, até importamos os piores modelos de fora. Mas em países que se pretendem civilizados há, pelo menos, um equilíbrio de forças, uma margem de escolha. Numa banca de jornais americana, a gente encontra o pior lixo produzido no planeta -- mas encontra também revistas como o New Yorker ou o Atlantic Monthly, escritas por, e para, animais racionais. A Inglaterra tem, sim, os piores jornais do mundo -- mas tem também uma revista como a The Economist, e um teatro que há mais de 500 anos exalta a palavra e a inteligência. Os franceses têm uma televisão ridícula e uma visão do mundo grotesca -- mas dão aos seus escritores o status de popstars. E por aí vai.
A vulgaridade, em alta geral, aparece mais e paga melhor em toda a parte, mas não há como negar que, nos EUA e na Europa, existe uma consciência social em ação que preserva o mínimo de cultura necessário à sobrevivência intelectual da espécie. Ainda há lugares em que, acreditem!, um bom cérebro é mais valorizado do que uma bela bunda; mas todos, infelizmente, ficam muito longe daqui."
Ave, Cora.
17.4.02
Requiescat
(Oscar Wilde)
Tread lightly, she is near
Under the snow,
Speak gently, she can hear
The daisies grow.
All her bright golden hair
Tarnished with rust,
She that was young and fair
Fallen to dust.
Lily-like, white as snow,
She hardly knew
She was a woman, so
Sweetly she grew.
Coffin-board, heavy stone,
Lie on her breast,
I vex my heart alone
She is at rest.
Peace, Peace, she cannot hear
Lyre or sonnet,
All my life's buried here,
Heap earth upon it.
(Oscar Wilde)
Tread lightly, she is near
Under the snow,
Speak gently, she can hear
The daisies grow.
All her bright golden hair
Tarnished with rust,
She that was young and fair
Fallen to dust.
Lily-like, white as snow,
She hardly knew
She was a woman, so
Sweetly she grew.
Coffin-board, heavy stone,
Lie on her breast,
I vex my heart alone
She is at rest.
Peace, Peace, she cannot hear
Lyre or sonnet,
All my life's buried here,
Heap earth upon it.
16.4.02
Olhando a história das sombras do blog da Tia Cora, lembrei-me deste poema tristonho que escrevi há alguns milênios.
Minha sombra
Minha sombra é um fardo
infinito;
Longa noite sem sonhos,
tormenta nervosa e mesquinha.
Ela me segue pelas ruas e bares
e bebe comigo a neblina fria
de um ardor há muito esquecido.
Assim o poema se inscreve e se perde na eternidade:
a vida é feita de sombras
e de sombras os raios
de meus sóis mofados.
Minha sombra
Minha sombra é um fardo
infinito;
Longa noite sem sonhos,
tormenta nervosa e mesquinha.
Ela me segue pelas ruas e bares
e bebe comigo a neblina fria
de um ardor há muito esquecido.
Assim o poema se inscreve e se perde na eternidade:
a vida é feita de sombras
e de sombras os raios
de meus sóis mofados.
14.4.02
Tique-taque
Paro e reflito
Um instante, um segundo
Rodas-vivas turvam os desejos
De um novo desabrochar
São ciclos.
Esmurro, espalho minha respiração ofegante
Pelo céu esquisito e úmido
Pesado.
Sua imagem no espelho
Lembra-me um passado que não houve.
Que estranha angústia,
De pontos finais que se sucedem.
Tique-taque-tique-taque-tique-taque
Nossas jornadas reguladas
Irritam e enchem de ansiedade.
Pobre de mim,
Que desejo retirar vida das cinzas.
Das cinzas.
Paro e reflito
Um instante, um segundo
Rodas-vivas turvam os desejos
De um novo desabrochar
São ciclos.
Esmurro, espalho minha respiração ofegante
Pelo céu esquisito e úmido
Pesado.
Sua imagem no espelho
Lembra-me um passado que não houve.
Que estranha angústia,
De pontos finais que se sucedem.
Tique-taque-tique-taque-tique-taque
Nossas jornadas reguladas
Irritam e enchem de ansiedade.
Pobre de mim,
Que desejo retirar vida das cinzas.
Das cinzas.
No fim da noite fará 90 anos que o Titanic afundou. Para lembrar a data, uma bobagem: A Vingança do Titanic, aqui.
Chego para tocar no sábado e o Hélcio, meu parceiro tecladista, olha para minha cara assustado:
-- O que é que houve?
-- Como assim, o que é que houve?
-- O Marcos [batera] está de mau humor e você chega com essa cara de desânimo... A noite hoje vai ser braba -- responde ele, com um sorriso amarelo.
Às vezes é duro você ter amigos que conhece há quase trinta anos. Não importa quanto tempo fique longe deles, sempre acertam o que se passa na sua cabeça, por mais que se tente disfarçar (e eu nunca fui bom nisso).
-- Ah, cara... -- retruquei, plugando a guitarra. -- Vamos tocar, que é melhor.
Meus companheiros de banda foram gentis comigo. Concederam-me um bom momento de rock and roll, em que soltei todos os demônios com "Johnny B. Goode", e depois uma alma solidária da platéia pediu um blues. Foi atendida com gosto. Naquele dia eu estava totalmente blue, mesmo. ;-)
Nada como uma dose de rock para a gente acreditar que terá outra chance.
-- O que é que houve?
-- Como assim, o que é que houve?
-- O Marcos [batera] está de mau humor e você chega com essa cara de desânimo... A noite hoje vai ser braba -- responde ele, com um sorriso amarelo.
Às vezes é duro você ter amigos que conhece há quase trinta anos. Não importa quanto tempo fique longe deles, sempre acertam o que se passa na sua cabeça, por mais que se tente disfarçar (e eu nunca fui bom nisso).
-- Ah, cara... -- retruquei, plugando a guitarra. -- Vamos tocar, que é melhor.
Meus companheiros de banda foram gentis comigo. Concederam-me um bom momento de rock and roll, em que soltei todos os demônios com "Johnny B. Goode", e depois uma alma solidária da platéia pediu um blues. Foi atendida com gosto. Naquele dia eu estava totalmente blue, mesmo. ;-)
Nada como uma dose de rock para a gente acreditar que terá outra chance.
10.4.02
Recomendo a leitura do artigo desta semana do Ivson Alves sobre um editorial com cheirinho pró-tirania. Está no Comunique-se (a inscrição é gratuita), na seção Jornal da Imprensa/Coleguinhas.
9.4.02
Sem Jon Lord, o Deep Purple não é Deep Purple. A saída do bigodudo (hoje barbudo) tecladista de uma de minhas bandas favoritas me dá um nó no coração. Mesmo sendo guitarrista e adorando o Ritchie Blackmore de 71 a 75, sou louco pelo som do Hammond de Lord, que sempre foi a marca registrada do grupo para mim. E ele, que tem um jeito bem mais afável que Blackmore, era meu integrante predileto. Ave, Lord.
Eis uma mensagem do baixista Roger Glover sobre o tema, enviada a um site de fãs russos do DP: "I should inform you that Jon has told us he plans to retire from active participation in Deep Purple. We wish him the best. The moment cannot pass without a personal comment. It is sad that Jon has come to this difficult decision but every one of us respects his right to determine his own life. I have learned so much from him that I could not possibly do him justice by attempting to quantify it. Don Airey will be our keyboard player from now on and we welcome him to the band. -- Roger Glover".
Eis uma mensagem do baixista Roger Glover sobre o tema, enviada a um site de fãs russos do DP: "I should inform you that Jon has told us he plans to retire from active participation in Deep Purple. We wish him the best. The moment cannot pass without a personal comment. It is sad that Jon has come to this difficult decision but every one of us respects his right to determine his own life. I have learned so much from him that I could not possibly do him justice by attempting to quantify it. Don Airey will be our keyboard player from now on and we welcome him to the band. -- Roger Glover".
8.4.02
Boa dica para os alcoólatras de plantão. Deu na Info Online, aqui:
"Copo inteligente 'encomenda' novo drinque
SÃO PAULO - Imagine um copo que já manda para a cozinha do bar ou do restaurante, sem que o cliente abra a boca, o aviso de que a bebida nele contida está no fim e que é hora de uma outra dose. É isso que promete o iGlassware, criado pela divisão de pesquisas da japonesa Mitsubishi.
De acordo com a revista 'NewScientist', o sistema é baseado em um chip conectado a um sistema com freqüência semelhante aos dos celulares. O revestimento de material condutor faz com que o copo se comporte como um capacitador, onde a bebida funciona como isolante e, o vidro, como placas condutoras. Este sistema consegue "medir" o quanto foi consumido do drinque. A mudança na capacidade de armazenamento do copo é lida pelo microchip, que manda a mensagem para o bar de que aquele copo está se esvaziando. Cada copo possui um código de barras para identificação."
Rapaz, com essa tecnologia eu teria de tomar glicose na veia todo dia ;-)))
"Copo inteligente 'encomenda' novo drinque
SÃO PAULO - Imagine um copo que já manda para a cozinha do bar ou do restaurante, sem que o cliente abra a boca, o aviso de que a bebida nele contida está no fim e que é hora de uma outra dose. É isso que promete o iGlassware, criado pela divisão de pesquisas da japonesa Mitsubishi.
De acordo com a revista 'NewScientist', o sistema é baseado em um chip conectado a um sistema com freqüência semelhante aos dos celulares. O revestimento de material condutor faz com que o copo se comporte como um capacitador, onde a bebida funciona como isolante e, o vidro, como placas condutoras. Este sistema consegue "medir" o quanto foi consumido do drinque. A mudança na capacidade de armazenamento do copo é lida pelo microchip, que manda a mensagem para o bar de que aquele copo está se esvaziando. Cada copo possui um código de barras para identificação."
Rapaz, com essa tecnologia eu teria de tomar glicose na veia todo dia ;-)))
Não ligo para futebol, nem gosto do Romário. Mas é muito engraçado fazerem um site com um abaixo-assinado pedindo para o Baixinho ir à Copa. O endereço é http://www.romarionaselecao.com.br.
(Atenção: para fechar o janelão que se abre, é só dar Alt + F4.)
(Atenção: para fechar o janelão que se abre, é só dar Alt + F4.)
Eu sempre quis saber se o nome da cesariana vinha mesmo de Júlio César, bem como o da Caesar's Salad. O grande Veríssimo tirou todas as minhas dúvidas no domingo:
"Julio Cesar fez o bastante para que seu nome virasse epônimo. Kaiser e tzar, entre outras denominações de “imperador” ou simplesmente de líder, vêm de Cesar. O nome de Cesar, escreveu alguém, invadiu mais culturas diferentes do que os seus exércitos. Mas duas coisas atribuídas a Julio Cesar não têm nada a ver com ele: a cesariana e a salada Cesar. O parto com cesariana não tem esse nome porque foi assim que Cesar nasceu, Cesar é que se chama assim porque nasceu, como o presumível antepassado seu que deu o nome à família, a caeso matris utere, do ventre cortado da mãe. Caeso, de caesus, particípio passado de caedere, cortar. A cesariana já existia com esse nome antes de Julio Cesar. E Cesar só pode ser creditado com uma participação indireta na existência da salada Cesar, porque Caeser Gardini, dono do restaurante Caeser’s Palace em Tijuana, México, e que inventou a combinação de alface, pedaços de pão torrado fritos com alho, óleo de oliva, ovo e queijo parmesão ralado, se chama assim por sua causa — ou talvez porque nasceu de cesariana."
"Julio Cesar fez o bastante para que seu nome virasse epônimo. Kaiser e tzar, entre outras denominações de “imperador” ou simplesmente de líder, vêm de Cesar. O nome de Cesar, escreveu alguém, invadiu mais culturas diferentes do que os seus exércitos. Mas duas coisas atribuídas a Julio Cesar não têm nada a ver com ele: a cesariana e a salada Cesar. O parto com cesariana não tem esse nome porque foi assim que Cesar nasceu, Cesar é que se chama assim porque nasceu, como o presumível antepassado seu que deu o nome à família, a caeso matris utere, do ventre cortado da mãe. Caeso, de caesus, particípio passado de caedere, cortar. A cesariana já existia com esse nome antes de Julio Cesar. E Cesar só pode ser creditado com uma participação indireta na existência da salada Cesar, porque Caeser Gardini, dono do restaurante Caeser’s Palace em Tijuana, México, e que inventou a combinação de alface, pedaços de pão torrado fritos com alho, óleo de oliva, ovo e queijo parmesão ralado, se chama assim por sua causa — ou talvez porque nasceu de cesariana."
Curiosidades extraídas do site da Associação dos Direitos dos Tabagistas:
"Carmen, a célebre cigana personagem de Prosper Merimée, foi a primeira mulher a aparecer na literatura fumando cigarros. Ela inspirou o francês Giot a desenhar, em 1927, a mulher insinuante da embalagem dos cigarros Gitanes."
"Entre os portugueses, um dos responsáveis pela difusão do fumo foi o descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral. As tribos que ele contatou ao chegar ao Brasil, em 1500, não só fumavam como consideravam a fumaça produzida pela queima das folhas como o hálito dos pajés milagrosamente materializado. As caravelas portuguesas saíram do Brasil levando o hábito de desfiar fumo de corda e envolvê-lo em palha para confeccionar cigarros toscos."
"Carmen, a célebre cigana personagem de Prosper Merimée, foi a primeira mulher a aparecer na literatura fumando cigarros. Ela inspirou o francês Giot a desenhar, em 1927, a mulher insinuante da embalagem dos cigarros Gitanes."
"Entre os portugueses, um dos responsáveis pela difusão do fumo foi o descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral. As tribos que ele contatou ao chegar ao Brasil, em 1500, não só fumavam como consideravam a fumaça produzida pela queima das folhas como o hálito dos pajés milagrosamente materializado. As caravelas portuguesas saíram do Brasil levando o hábito de desfiar fumo de corda e envolvê-lo em palha para confeccionar cigarros toscos."
Para fora
A hora do adeus veio de repente
e eu pus tua música favorita no deque
Até o cabeçote urrar e morrer.
Não me disseste nada, apenas silenciaste
deixando-me sozinho no penhasco ventoso
onde meus órgãos carpiam nosso amor defunto
-- quisera que ouvisses seus gritos.
É estranho que eu ainda viva hoje,
tão estranhamente deformado por dentro.
Talvez a fumaça do cigarro semelhe
Aquele tolo fiapo de esperança
que me me fez dar o primeiro passo
para fora de mim.
Só assim te esqueci
e deixei aquela carcaça apaixonada
congelar, ensurdecida pelos próprios lamentos.
Assim dei adeus também a mim
E desapareci em meio ao formigueiro gigante dos sem-alma.
A hora do adeus veio de repente
e eu pus tua música favorita no deque
Até o cabeçote urrar e morrer.
Não me disseste nada, apenas silenciaste
deixando-me sozinho no penhasco ventoso
onde meus órgãos carpiam nosso amor defunto
-- quisera que ouvisses seus gritos.
É estranho que eu ainda viva hoje,
tão estranhamente deformado por dentro.
Talvez a fumaça do cigarro semelhe
Aquele tolo fiapo de esperança
que me me fez dar o primeiro passo
para fora de mim.
Só assim te esqueci
e deixei aquela carcaça apaixonada
congelar, ensurdecida pelos próprios lamentos.
Assim dei adeus também a mim
E desapareci em meio ao formigueiro gigante dos sem-alma.
No oeste
Por vezes
A luz desprende-se de nossos sentidos
E um universo sem arte desaba pela medula.
O poema desmaterializa-se -- e aí?
Apelar pra quê?
Resta tão pouco nesta jornada insegura, ah!
Posso ver você entre a névoa
-- Não que queira me lembrar --
Você é muitas numa só
E eu sou apenas um, perdido entre os mundos
no oeste do cérebro.
Por vezes
A luz desprende-se de nossos sentidos
E um universo sem arte desaba pela medula.
O poema desmaterializa-se -- e aí?
Apelar pra quê?
Resta tão pouco nesta jornada insegura, ah!
Posso ver você entre a névoa
-- Não que queira me lembrar --
Você é muitas numa só
E eu sou apenas um, perdido entre os mundos
no oeste do cérebro.
5.4.02
De Júlio Ribeiro, em "A Carne":
"Descrente de mulheres, divorciado da sua, gasto, misantropo, ele abandonara o mundo, retirara-se seus livros, com seus instrumentos científicos, para um recanto selvagem, para uma fazenda do sertão. Abandonara a sociedade, mudara de hábitos, só conservara, como relíquias do passado, o asseio, o culto do corpo, o apuro despretensioso do vestir. Levava a vida a estudar, a meditar; ia chegando ao quietismo, à paz de espírito de que fala Plauto, e que só se encontra no convívio sincero, sempre o mesmo, dos livros, no convívio dos ausentes e dos mortos. E eis que a fatalidade das coisas lhe atira no meio do caminho uma mulher virgem, moça, bela, inteligente, ilustrada, nobre, rica. E essa mulher apaixona-se por ele, força-o também a amá-la, cativa-o, aniquila-o. Faz mais: contra a expectativa, tomando realidade o improvável, o absurdo, vem ao seu quarto, interrompe-lhe o sono, entrega-se-lhe... Ele a tem entre os seus braços, lânguida, mole, roída de desejos; aperta-a, beija-a...
E... nada mais pode fazer!
(...) Deu-se uma inversão de papéis: em vista dessa frieza súbita, desse esmorecimento de carícias, cuja causa não podia compreender, nem sequer suspeitar; no furor do erotismo que a desnaturava, que a convertia em bacante impudica, em fêmea corrida, Lenita agarrou-se a Barbosa, cingiu-o, enlaçou-o com os braços, com as pemas, como um polvo que aferra a preia; com a boca aberta, arquejante, úmida, procurou-lhe a boca; refinada instintivamente em sensualidade, mordeu-lhe os lábios, beijou-lhe a superfície polida dos dentes, sugou-lhe a língua...
(...) Pouco a pouco operou-se uma reação.
Sentiu Barbosa que menos agitado lhe circulava o sangue, que um calor doce se lhe expandia pelos membros, que o desejo físico se despertava, dominante, imperativo.
(...) Com o ímpeto irresistível do macho em cio, mais ainda, do homem que se quer desforrar de uma debilidade humilhosa, retomou o papel de atacante, estreitou a moça nos braços, afundou a cabeça na onda sedosa e perfumada de seus cabelos que se tinham soltado...
(...) E um beijo vitorioso recalcou para a garganta o grito dorido da virgem que deixara de o ser...
Depois foi um tempestuar infrene, temulento, de carícias ferozes, em que os corpos se conchegavam, se fundiam, se unificavam; em que a carne entrava pela carne; em que frêmito respondia a frêmito, beijo a beijo, dentada a dentada.
Desse marulhar orgânico escapavam-se pequenos gritos sufocados, ganidos de gozo, por entre os estos curtos das respirações cansadas, ofegantes.
Depois um longo suspiro seguido de um longo silêncio.
Depois a renovação, a recrudescência da luta, ardente, fogosa, bestial, insaciável.
Pela frincha da janela esboçou-se um rastilho de luz tênue.
Era o dia que vinha chegando."
"Descrente de mulheres, divorciado da sua, gasto, misantropo, ele abandonara o mundo, retirara-se seus livros, com seus instrumentos científicos, para um recanto selvagem, para uma fazenda do sertão. Abandonara a sociedade, mudara de hábitos, só conservara, como relíquias do passado, o asseio, o culto do corpo, o apuro despretensioso do vestir. Levava a vida a estudar, a meditar; ia chegando ao quietismo, à paz de espírito de que fala Plauto, e que só se encontra no convívio sincero, sempre o mesmo, dos livros, no convívio dos ausentes e dos mortos. E eis que a fatalidade das coisas lhe atira no meio do caminho uma mulher virgem, moça, bela, inteligente, ilustrada, nobre, rica. E essa mulher apaixona-se por ele, força-o também a amá-la, cativa-o, aniquila-o. Faz mais: contra a expectativa, tomando realidade o improvável, o absurdo, vem ao seu quarto, interrompe-lhe o sono, entrega-se-lhe... Ele a tem entre os seus braços, lânguida, mole, roída de desejos; aperta-a, beija-a...
E... nada mais pode fazer!
(...) Deu-se uma inversão de papéis: em vista dessa frieza súbita, desse esmorecimento de carícias, cuja causa não podia compreender, nem sequer suspeitar; no furor do erotismo que a desnaturava, que a convertia em bacante impudica, em fêmea corrida, Lenita agarrou-se a Barbosa, cingiu-o, enlaçou-o com os braços, com as pemas, como um polvo que aferra a preia; com a boca aberta, arquejante, úmida, procurou-lhe a boca; refinada instintivamente em sensualidade, mordeu-lhe os lábios, beijou-lhe a superfície polida dos dentes, sugou-lhe a língua...
(...) Pouco a pouco operou-se uma reação.
Sentiu Barbosa que menos agitado lhe circulava o sangue, que um calor doce se lhe expandia pelos membros, que o desejo físico se despertava, dominante, imperativo.
(...) Com o ímpeto irresistível do macho em cio, mais ainda, do homem que se quer desforrar de uma debilidade humilhosa, retomou o papel de atacante, estreitou a moça nos braços, afundou a cabeça na onda sedosa e perfumada de seus cabelos que se tinham soltado...
(...) E um beijo vitorioso recalcou para a garganta o grito dorido da virgem que deixara de o ser...
Depois foi um tempestuar infrene, temulento, de carícias ferozes, em que os corpos se conchegavam, se fundiam, se unificavam; em que a carne entrava pela carne; em que frêmito respondia a frêmito, beijo a beijo, dentada a dentada.
Desse marulhar orgânico escapavam-se pequenos gritos sufocados, ganidos de gozo, por entre os estos curtos das respirações cansadas, ofegantes.
Depois um longo suspiro seguido de um longo silêncio.
Depois a renovação, a recrudescência da luta, ardente, fogosa, bestial, insaciável.
Pela frincha da janela esboçou-se um rastilho de luz tênue.
Era o dia que vinha chegando."
4.4.02
Preguiça
Eu só escrevo
Quando tenho preguiça de tudo
E quando o vazio da casa
Penetra em mim.
Solto a massa cinzenta
Em baforadas regulares
Gás carbônico enlatado
Uso o papel
Na esperança de liberar alguma coisa
Além da tinta da caneta esferográfica
E depois do ato consumado
Vem a (in)consciência
De que continuo ingênuo
E deslumbrado
Diante das coisas.
Eu só escrevo
Quando tenho preguiça de tudo
E quando o vazio da casa
Penetra em mim.
Solto a massa cinzenta
Em baforadas regulares
Gás carbônico enlatado
Uso o papel
Na esperança de liberar alguma coisa
Além da tinta da caneta esferográfica
E depois do ato consumado
Vem a (in)consciência
De que continuo ingênuo
E deslumbrado
Diante das coisas.
2.4.02
Quase pronto para Siddharta
Beije-me só mais uma vez
e olhe-me da janela enquanto me afasto, querida.
O abismo me espera;
estou enamorado da Morte
e ela me prometeu para hoje o infarto salvador.
Perdoe-me por deixar este mundo
Mas é que tenho hoje certeza
do extravio precoce de minha alma.
Alguns diriam que estou pronto para Siddartha
dado que não tenho mais desejos.
Mas é mentira: eu desejo a Morte
tanto quanto a desejei outrora
na tarde ardente sob o mangueiral.
Quando ela me tomar como consorte
(temporário, é claro)
Então estarei nu de desejos
e finalmente livre da tempestade elétrica
em meu combalido cérebro.
Beije-me só mais uma vez
e olhe-me da janela enquanto me afasto, querida.
O abismo me espera;
estou enamorado da Morte
e ela me prometeu para hoje o infarto salvador.
Perdoe-me por deixar este mundo
Mas é que tenho hoje certeza
do extravio precoce de minha alma.
Alguns diriam que estou pronto para Siddartha
dado que não tenho mais desejos.
Mas é mentira: eu desejo a Morte
tanto quanto a desejei outrora
na tarde ardente sob o mangueiral.
Quando ela me tomar como consorte
(temporário, é claro)
Então estarei nu de desejos
e finalmente livre da tempestade elétrica
em meu combalido cérebro.